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02 julho, 2016

Edgar Morin chega aos 95: Obrigado!!!




Quatro éticas: tolerância, igualdade, amizade e amor

Ética da tolerância

A intolerância é um equivalente psíquico do mecanismo imunológico da rejeição de si; constitui uma recusa daquilo que não está em conformidade com nossas ideias e crenças. A ética da tolerância
opõe-se à purificação ética. Há uma primeira tolerância, expressa por Voltaire, que respeita o direito do outro de exprimir-se, até mesmo de uma maneira que nos pareça ignóbil. Isso não significa tolerar o próprio ignóbil. Mas evitar que venhamos a impor nossa concepção de ignóbil para proibir uma declaração. Assim, para o ortodoxo, toda heresia é ignóbil; para o integrista, a liberdade de
pensamento é sempre ignóbil; para o stalinista, a crítica da URSS era uma calúnia ignominiosa.

A segunda tolerância é inseparável da opção democrática. A democracia alimenta-se de opiniões diversas e antagônicas e o princípio democrático convida cada um a respeitar a expressão das
ideias opostas às suas. A terceira tolerância obedece à concepção de Niels Bohr para quem o contrário de uma ideia profunda é uma outra ideia profunda; em outras palavras, há uma verdade na ideia antagônica à nossa que deve ser tolerada (...) A tolerância, recusando a intimidação, as interdições, o anátema, dá prioridade ao argumento, ao raciocínio, à demonstração. A tolerância é fácil para o indiferente e para o cínico, mas difícil para o sujeito de convicções.
Ela comporta o sofrimento; o sofrimento de tolerar a expressão de ideias revoltantes sem se revoltar.

Ética de liberdade

Se a liberdade é reconhecida na possibilidade da escolha — possibilidade mental de analisar e de formular a escolha, possibilidade exterior de exercer uma escolha —, a ética de liberdade para o outro
pode ser resumida pelo que diz Von Foerster: “Age de maneira que o outro possa aumentar o número das escolhas possíveis”.

Ética de fidelidade à amizade

A amizade não é somente uma relação afetiva de apego, de cumplicidade; a verdadeira amizade estabelece um vínculo ético de fraternidade quase sagrado entre amigos. A amizade parte de afinidades subjetivas, ou chega a elas, transpolíticas, transclassistas, transéticas e transraciais, como o amor. O caráter sagrado da verdadeira amizade dá-lhe prioridade sobre os interesses, as relações e a ideologia.
A qualidade da pessoa importa mais do que a qualidade das suas ideias ou opiniões. Como diz Lichtenberg: “Regra de ouro, não julgar os homens pelas suas opiniões, mas pelo que as suas opiniões fazem deles”.

Não se deve confundir amizade com camaradagem. Experimentei, dentro do grande Partido, o calor dos camaradas, mas aquilo não era amizade, pois, desde que houvesse condenação pelo aparelho,
cada um virava as costas ao amigo e, pior, denunciava-o como inimigo. O camarada pode tornar-se um falso irmão. O amigo é um irmão por escolha. A ética de fraternidade atua de maneira intensa
e concreta na amizade. O dever de amizade pode entrar em conflito com outros deveres sagrados; descobre então as contradições éticas das quais já falamos. A escolha que divide pode reclamar o
sacrifício da amizade, jamais a traição ao amigo.

Ética do amor

O amor é a experiência fundamental de ligação dos seres humanos. Leva-nos à realização pela nossa união. Se o amor leva ao paroxismo a aptidão integracionista do princípio altruísta de inclusão,
corre o risco de ser apropriado pelo princípio egocêntrico de exclusão, que monopoliza o ser amado e o encerra numa posse ciumenta.

O verdadeiro amor considera o ser amado como igual e livre; como diz Tagore, “exclui a tirania e a hierarquia.” Há muito mau amor não somente nas sociedades em que persiste a submissão das mulheres à autoridade masculina, mas também em nossa civilização individualizada em que dois egocentrismos podem, em confronto, dividir o amor. Nosso mundo sofre de insuficiência
de amor. Mas sofre também de mau amor (amor possessivo), de cegueiras de amor (inclusive, como já dissemos, na religião do amor e na ideologia da fraternidade), de perversões de amor
(fixações em fetiches, objetos, coleções de selos, anões de jardim), aviltamentos do amor que degeneram em ódio, ilusões de amor e amor por ilusões... Como fazer que se compreenda que o amor deve consagrar-se ao frágil mortal, vulnerável, efêmero, condenado
ao sofrimento e à morte?.

Não se pode resolver tudo pelo amor. O amor tem os seus parasitas íntimos, que o cegam, a sua ânsia autodestrutiva e os seus surtos devastadores. No máximo da intensidade de toda paixão, inclusive
a amorosa, precisamos contar com a vigilância da razão. Mas não existe razão pura, e a própria razão deve ser estimulada pela paixão. No mais frio da razão, precisamos de paixão, ou seja, de
amor. (Fragmento de “O Método 6”, a ética).

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ENTREVISTA EDGAR MORIN
QUASE UM SÉCULO DE COMPLEXIDADE E SABEDORIA

O coordenador do CS Juremir Machado da Silva* entrevista Edgar Morin que faz 95 anos no próximo dia 8

Defensor da teoria da complexidade, Edgar Morin, nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, chega aos 95 anos de idade escrevendo, viajando, palestrando e comportando-se como o intelectual que tem
sido desde a sua resistência ao invasor nazista na França ocupada da II Guerra Mundial.
Autor de dezenas de livros, tem como obra-prima os seis volumes de “O Método”. Sociólogo, filósofo, epistemólogo, antropólogo e pensador da sociedade contemporânea, ele escreveu sobre quase tudo: das vedetes de cinema ao imaginário da morte. Esta edição do Caderno de Sábado traz
artigos de conhecedores da sua obra e esta entrevista, feita por e-mail, com o sempre jovem e curioso Edgar, que recebeu no distante ano 2000 o título de Doutor Honoris Causa pela PUCRS.

Caderno de Sábado – Qual é a sensação de ter visto quase tudo ao longo de um século: a Alemanha nazista, a guerra, a resistência, o império soviético e seu desaparecimento, os “ismos” – marxismo,
existencialismo, estruturalismo, maoísmo –, o homem na Lua, a televisão, a Internet?

Edgar Morin – A sensação de que não aprendemos com o passado, não tiramos as conclusões necessárias dos erros, que se reproduzem no presente: inconsciência, sonambulismo, ilusão.

CS – De todos esses acontecimentos qual o marcou mais?

Morin – A guerra e a resistência.

CS – O senhor é um homem de livros, dos livros. Teme que o livro, em papel, ao menos, vá
desaparecer?

Morin – A televisão não matou o rádio; o cinema não matou a literatura; o livro nas telas não matará o livro em papel, mas fará com que ele perca espaço.

CS – O senhor sempre combateu por um mundo melhor. Acredita que não há mais utopias. O capitalismo, apesar das suas crises, venceu em definitivo?

Morin – O planeta marcha para prováveis catástrofes, mas, às vezes, o improvável acontece
e muda o destino das coisas.

CS – A França passa por mais uma crise. O governo socialista quer modificar a legislação trabalhista. Trata-se de mais um sinal do fim de uma concepção de mundo?

Morin – Um mundo agoniza, mas um novo mundo ainda não
consegue nascer.

CS – O cinema e a televisão foram objetos dos seus estudos, que abordaram as estrelas, as
vedetes e os olimpianos. Qual personagem desse mundo do imaginário midiático mais o marcou?

Morin – Charles Chaplin.

CS – A sua cultura é gigantesca, enciclopédica. O senhor passou a vida lendo. Que livros mudaram a sua vida?

Morin – “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski; as obras de Montaigne, Pascal, Spinoza, Hegel, Karl Marx e Jean-Arthur Rimbaud.

CS – A reforma do pensamento, necessária à complexidade, defendida em suas obras, está em curso?

Morin – Ela está apenas começando.

CS – A idade mudou a sua maneira de ver a vida e o mundo?

Morin – Ainda não.

CS – A idade muda o olhar dos outros?

Morin – Uns veem a minha velhice; outros veem a juventude da minha velhice.

CS – O senhor tem medo de morrer?

Morin – De vez em quando.

CS – A poesia e os poetas ainda o encantam? Que poema vem em primeiro lugar à sua
mente?

Morin – “O Lago”, de Lamartine
(Veja parte do poema reproduzido abixo).


... A onda pôs-se atentiva, e a voz que me é tão cara.
Proferiu estas palavras: Tempo!, cessa teu voo! vós, horas propícias,
Suspendei a correria: Deixai-nos desfrutar as fugazes delícias
Do nosso melhor dia! Os miseráveis desta terra a vós imploram:
Fluí, fluí por eles;
Levai com seus dias os zelos que os devoram, Esquecei dos felizes.
Mas em vão peço ao tempo um só instante por ora,
Ele escapa-me e parte;
Eu digo a esta noite: sê mais vagarosa; e a aurora
Vai dissipar a noite.
Amemos pois, amemos pois! as horas fogem,
Corramos, desfrutemos!
O homem nunca tem um porto; o tempo, uma margem;
Ele flui, nós passamos!
Tempo cioso, momentos de embriaguez,
Em que o amor em torrentes traz contentamento,
Podem voar distantes com a rapidez
Dos dias de tormento?
O quê! não nos sobrará ao menos
uma mostra?
Quê! para sempre passado? tudo
é perdido? Esse tempo que os doa, esse
tempo que os tira,
Os manterá retidos?
Eternidade, nada, passado, ermo abismo,
Que fizestes dos dias que vós
consumistes?
Dizei-nos: devolvereis os sublimes
mimos
Que de nós arrancastes?
Ó lago! rochas mudas! grutas!
mata escura!
Vós, que o passar dos anos conserva ou remoça, 
Guardai desta noite, guardai, bela
natura,
Ao menos a lembrança!
Que esteja em tuas procelas e quietudes, Belo lago, e nas tuas
risonhas montanhas...
(tradução do poema “O Lago”,
Wagner Mourão Brasil)

* Coordenador Editorial: Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br Editor: Marcos Santuario | msantuario@correiodopovo.com.br

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EDGAR MORIN, UM PENSADOR PARA O BRASIL, Por Edgar de Assis Carvalho**

AAntropologia fundamental de Edgar Morin considera o homem como ser biológico e cultural que
reorganiza o ecossistema que o rodeia, produz saberes, acumula experiências, desilusões, utopias,
afetividades. Esses amplos pressupostos são sistematizados a partir dos anos 1960 com as análises da morte, magia, cinema, comunicação.
Os seis volumes de “O Método”, escritos entre 1977-2004 — “A Natureza da Natureza”, “A Vida
da Vida”, “O Conhecimento do Conhecimento”, “As Ideias”, “A Humanidade da Humanidade”, “Ética” — constituem um projeto inacabado a ser interpretado, criticado, ampliado, até mesmo reescrito, como ele próprio sugere em A Via para o futuro da humanidade,
ensaio de 2011.
A prática da conectividade, da convivialidade, da transversalidade requer a abertura da razão, a
reforma do pensamento, a expansão a criatividade, a extinção do medo do erro, a explicitação da revolta.
Assumir esse desafio implica a rejeicão de qualquer tipo de certeza sobre o futuro do mundo.
O destino do sapiens-demens é obra aberta, rio majestoso, sereno e tempestuoso, ele reitera. A reorganização e a religação dos saberes são sempre biodegradáveis, jamais se convertem em doutrinas fechadas. Há algo, porém, que o distingue dos demais pensadores, expresso na intimidade de diários e ensaios sobre o contemporâneo, a reforma da educação, o mal-estar na civilização.
Intelectuais não costumam falar de si, adoram falar dos outros. Escondem-se sob a suposta autoridade
de conceitos, teorias, métodos. Diários, cartas, rascunhos costumam ser disponibilizados após a morte. Geralmente escritos nos intervalos de viagens, congressos, exílios, esses escritos confessionais desnudam a alma, expõem a fragilidade que caracteriza nossa condição.

 Alertas de Edgar Morin são sempre incisivos nesses sombrios tempos de barbárie e de estados
de exceção com os quais nos defrontamos. Os desafios do século XXI exigem a construção de uma
cidadania mundial, uma política de civilização para a Terra-pátria, texto de 1993.
A universalidade de valores cosmopolitas nunca é obtida pela soma ou subtração de interesses particulares, mas pela multiplicação de pulsões desejantes, guiadas pelas quatro modalidades da consciência: antropológica, telúrica, ecológica, cosmológica. Não apenas a ciência pode dar conta delas, mas as artes, as literaturas e as espiritualidades em geral.
Precisamos, porém, de muita paciência e revolta, para bater de frente nos poderes instituídos.
A reforma da educação exige pensadores empenhados na construção de uma ética de valores
universais que contradiga relativismos e particularismos esclerosados. Ensinar a viver, célebre
expressão de Rousseau, se converte em palavra de ordem a ser reativada e recriada na sociedade
como um todo.

A tarefa não se esgota por aí. É preciso caminhar por cidades sitiadas, universidades sucateadas,
sexualidades recalcadas, intolerâncias raivosas, corrupções generalizadas, para que os dilemas sociais se mostrem como verdadeiramente são, mesmo que essa missão seja penosa, custosa, por
vezes desestimulante.

A presença de Edgar Morin no Brasil exibe a força de suas ideias e utopias, mesmo que a
Universidade não lhes preste a devida atenção. Homenagens, títulos de honoris-causa são expressão
do reconhecimento da obra e do homem. A leitura atenta de seus escritos e entrevistas permitiria
entender muitos dos dilemas brasileiros atuais. Três homenagens recentes marcam minha vida: a primeira, por ocasião de seus 80 anos, no plenário da UNESCO, em Paris, em julho de 2001. Em minha intervenção, destaquei a ressonância de suas obras nesses tristes trópicos, a expansão de núcleos de estudos voltados à leitura de sua obra. A segunda, também em Paris, em 2006, na Maison de l’Amérique Latine. A celebração de seu aniversário transcorreu animada com mariachis que entoavam canções latino-americanas, pois tinha o apoio da Multiversidade do mundo real, inspirada nos fundamentos da complexidade. Edgar estava feliz por nos ter por perto: seus amigos, seguidores e, também, críticos de sua obra. A terceira foi na PUC de São Paulo, em novembro de 2008, no
TUCA, ao receber o honoris causa. Coube a mim saudá-lo em nome de professores e alunos. No
teatro, palco de muitas resistências a poderes ditatoriais, reiterei a convicção de que a partir daquele
momento a Universidade passara a apostar na universalidade da cultura e na unidade do humano.
Aos 87 anos, em seu agradecimento, confessou ser um eterno aprendiz, um caminhante sem caminho,
um herdeiro da utopia. Às vésperas de completar 95 anos, em junho deste ano, não pôde
comparecer ao Congresso Internacional sobre Educação, em Fortaleza, cujo tema era Saberes para
uma Cidadania Planetária. Gravou uma mensagem que guiou muitas das conferências, mesas-redondas, debates lá ocorridos. Visivelmente mocionado, desejou sucesso a todos nós que acreditamos na força propulsora de seu pensamento em prol de uma sociedade pautada pelo reconhecimento, solidariedade, altruísmo, bases de uma sociedade verdadeiramente justa e democrática.

** Consultor do Núcleo de Estudos da Complexidade, Titular de Antropologia PUC/SP

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Escafandrista do pensamento
MARIA DA CONCEIÇÃO DE ALMEIDA***


A expansão das ideias de Edgar Morin não se limita ao continente europeu. Basta consultar
o Google, bola de cristal da sociedade- mundo, para ter uma dimensão da magnitude de um
pensamento que ultrapassa fronteiras geográficas, nacionalidades, domínios de conhecimento.
O pensamento e o conhecimento são nômades, não têm nacionalidade nem pátria.
De “O Método”, em seis volumes, a títulos classificados como sociologia, antropologia, política,
educação, escritos de conjuntura, livros socioautobiográficos, diários, cinema, imaginário e cultura
de massa, a mesma obstinação: religar o que o pensamento da disjunção separou, fazer acontecer uma política de civilização e de humanidade, ultrapassar a prosa da vida pelo estado poético de viver, promover uma ecologia das ideias e da ação alimentada pela diversidade cultural e de saberes, questionar as verdades únicas, a ortodoxia e o mito salvacionista da tecnociência. Como no domínio
estendido da matéria e do vivo, também o homem, a cultura, a política, os amores e o pensamento
são marcados pela incompletude, o erro, o inacabamento e a incerteza. Daí porque dirá algumas
vezes: “o único pensamento que vale a pena vive à temperatura de sua própria destruição”.
Ou, quando fala sobre os intelectuais: “sou um deles, mas não sou igual a eles”.

Neste ano que completa 95 anos, esse escafandrista das águas profundas do conhecimento
demonstra que a vitalidade e vigor de um pensamento não se medem pela escala cronológica,
mas se expressa na ousadia de pensar bem, na resistência às palavras-mestras consagradas,
na insubmissão à cretinização da polícia do pensamento. Edgar é um pensador a quem incomoda o culto à sua personalidade. Essa afirmação que me foi repetida tantas vezes por Emilio Roger-Ciurana, nosso amigo comum, eu própria testemunhei ao longo dos anos de convivência intelectual e amizade.
“Faço um esforço constante”, diz Edgar, “para não me pôr num pedestal, porque a estátua
exterior, a que se mostra aos outros, vem da estátua interior, daquela que, inconscientemente,
se esculpe para si”. Herman Melville, autor de Moby Dick escreveu certa vez: “Gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser uma grande baleia para descer a cinco milhas ou mais. Desde o começo do mundo os mergulhadores do
pensamento voltam à superfície com os olhos injetados de sangue”. Gilles Deleuze completa:
“Admite-se facilmente que há perigos nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento também
é um exercício extremo”. Como um bom escafandrista, Edgar Morin tem feito de seu pensamento um potente cilindro para se deslocar nas águas profundas de saberes diversos, incertezas e mistérios da condição humana. Diante da fúria de Moby Dick, consubstanciada na crueldade do mundo, na barbárie, na violência e na crise civilizacional ele tem respondido com exercícios extremos de pensamento capazes de nos encorajar na tarefa de refundação de um mundo melhor e mais justo.
Homem inteiro, adorável, intempestivo, eterno adolescente, amigo. O mergulhador das águas profundas do conhecimento volta à superfície sempre, porque não é um pensador de um só território. Em terra firme também encontra seus alimentos para pensar e viver, como numa história que me contou um dia.

Estava ele em Camoglie, um pequeno porto em Ligura, na Itália, observando um aquário, quando de súbito um peixe se fixou diante dele e durante algum tempo eles se olharam fixamente através do vidro. Foi um encontro arrebatador, um amor à primeira vista, me contou Edgar. Ele não queria sair dali, desejava permanecer, mas o funcionário do local anunciou o fim das visitas.
Um pensador inteiro! Um intelectual que ao mesmo tempo edifica um novo método para as
ciências e se sente arrebatado pelo olhar de pequeno peixe num aquário. Um parceiro. Um amigo. É esse o Edgar Morin que conheço e que alimenta minha vida intelectual, de fato, minha vida inteira, porque posso repetir como ele: “não sou daqueles que têm uma profissão, mas daqueles que têm uma vida”.

*** Professora da UFRN, Coordenadora do GRECOM (Grupo de Estudos da Complexidade)

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Os signos de Morin, por Roberto Ramos****

O Paradigma da Complexidade possui uma interpelação básica. Parece responder e corresponder
a uma pulsão humana: a demanda por um Conhecimento pleno, em sua provisoriedade. Pronuncia o diálogo entre as partes e o todo, e vice-versa. Procura derrubar os limites e as barreiras entre diferentes áreas do saber, com a sua interpelação transdisciplinar.
No universo semiológico do Paradigma da Complexidade, encontramos signos, comprometidos com os diálogos entre o todo e as partes, e vice-versa. São três signos: o Signo-objeto, o Signo-teórico
e o Signo-metodológico.

O Signo-objeto estabelece o objeto de estudo, singularizado pelo próprio Paradigma. É desenhado
pela própria importância do seu Nominalismo. O Nome não é uma opção aleatória, nem empreendimento gratuito. Tem um papel de fundação. Torna real. Concede materialidade. Transcende a sua temporalidade. O papel do nome é primordial. Materializa a condição de real. Garante as trocas simbólicas de conhecer e de ser reconhecido, de interpelar e de ser interpelado. A sua pronúncia não é vazia. Preenche-se de plenitude. Representa o aval de vida, de modo ativo, como realidade biológica e cultural. Revela-se, como um significante primordial, em essência e por excelência. A opção pelo termo, “Paradigma”, carrega uma carga cultural. É a categoria Relação e a Lei da Totalidade Social, que pertencem ao método Dialético. Também, a concepção de Estrutura. Podemos
nos interrogar sobre qual Dialética? A caminhada teórica e metodológica do Sujeito Morin não denega a sua condição de excomunista, discípulo do pensamento marxista. A Dialética se
adjetiva. Aparenta ser marxista.

O Signo-objeto condensa as influências culturais da Dialética marxista e do Estruturalismo. Tal simbiose não é anônima. Possui um nome e um endereço epistemológico: a Dialética Histórico-Estrutural (DHE), como um paradigma síntese, de caráter derivado. É um método, que compatibiliza a Estrutura com o movimento. Passou a contar com maior visibilidade a partir da década de 60, do século XX, através de pensadores importantes. Cabe recordar, entre outros, Claude Lévi-Strauss, na
Antropologia, Jacques Lacan, na Psicanálise, Louis Althusser, no Marxismo, e o próprio Barthes,
na Semiologia.

O Signo-metodológico estabelece o conceito sobre as práticas da produção de Conhecimento.
É instituído e constituído por sete Princípios da Complexidade, inscritos e circunscritos na rubrica
da Transdisciplinaridade. São singularizados, sem valoração de hierarquia: “O Primeiro é o Sistêmico ou Organizacional, o Segundo, o Hologramático, o Terceiro, o Anel Retroativo, o Quarto, o Anel Recursivo, o Quinto, o Auto-eco-organização, o Sexto, o Dialógico, e o
sétimo, o da Reintrodução”. Os princípios trazem duas informações básicas. Oferecem uma concepção de Conhecimento complexo. Além disso, estabelecem uma forma de produzi-lo. Ao aludir o Dialogismo entre o objeto e o sujeito, Morin faz a contramão de dois significantes básicos do Pensamento linear. São os fetichismos do Positivismo, com a divinização da objetividade,
e do Marxismo ortodoxo, com a fé absoluta no determinismo econômico. Há, no texto de Morin, ao evocar o objeto e o sujeito, duas realidades subjacentes. São as Condições Objetivas e as Condições
Subjetivas, evocadas, anteriormente, pela DHE, procurando abraçar o sentido do todo. Não há como desvincularmos o Signo metodológico da Complexidade das suas derivações da DHE.

O Signo-teórico é o conjunto de categorias – conceitos classificatórios – presente no Paradigma
da Complexidade. Pelos seus respectivos envolvimentos complexos, vamos referir o Conhecimento. A conjugação da ação de conhecer está relacionada à linguagem. Não é uma tradução qualquer, mas uma “tradução construtora”, aparelhada de “princípios/regras”. Precisa ter a capacidade de revelação e a autocapacidade do seu relativismo, porque o real, em toda a sua extensão e profundidade, é
indizível. O Conhecimento complexo acolhe as certezas e as incertezas. É provisório e transdiscipilinar. Está voltado para as dimensões objetivas e subjetivas. Envolve os diálogos entre a unidade e a diversidade. Estabelecese, como um sistema aberto às possibilidades de mudanças e
transformações. Um novo Signo-objeto vem à tona. É a Complexidade. Distinguese do objeto da DHE – os eventos históricos, em seus aspectos culturais e ideológicos. É transdisciplinar, em sua essencialidade. Transcende a geografia das Ciências Sociais e Humanas. Procura ocupar os espaços dialógicos com todas as ciências. Morin não inventou a Complexidade, mas teve um mérito apreciável. Transformou-a em um objeto do estudo científico. Concedeu-lhe relevância. Delimitou-a, concedendo o benefício à incerteza e desenhando a sua fisionomia transdisciplinar. Emergiu um novo Signoobjeto para a cientificidade. Saiu da imersão das entrelinhas e do oculto nos bastidores textuais. A Complexidade ascendeu à condição de objeto científico, em sua inscrição de relevância. Portanto, o Paradigma da Complexidade é uma opção metodológica. Apresenta um signo- objeto, um signo-teórico e um signo-metodológico compatíveis. Traz algumas características essenciais,
para a concepção e a produção do Conhecimento complexo, com influências do Estruturalismo
e da DHE. Propõe a sua provisoriedade, acolhendo as certezas e as incertezas. É um diálogo
da unidade e da diversidade, através da Transdisciplinaridade, com as suas completudes e com
as suas incompletudes.

**** Ph.D Professor Famecos- PUCRS

(Todos os textos usados nessa postagem foram transcritos do Jornal Correio do Povo deste sábado, dia 02 de julho de 2016. As imagens são minhas).



Veja, no link abaixo, uma homenagem que fiz ao filósofo Edgar Morin há anos atrás, a qual eu reitero na íntegra:





31 janeiro, 2015

Sand e o papel do Intelectual e sobre ser Charlie Chaplin (e não Hebdo)


"A cultura é o espaço da criação e da polêmica. Não há criação nem polêmica sem rupturas. Shlomo Sand é intelectual.
O papel do intelectual é colocar em crise as certezas da sua época e promover rompimentos de paradigmas.Intelectual é aquele que sai do seu domínio específico, estuda qualquer tema de interesse social, não respeita discursos de autoridade, pula as cercas das especializações limitadoras e debate tudo o que é de interesse geral. O intelectual usa a inteligência contra a arrogância e só reconhece o melhor argumento. A racionalidade é a sua crença.

Historiador, judeu nascido na Áustria, Sand passou seus primeiros anos num campo de refugiados. militante de esquerda, recusou compensações pelo holocausto. Em termos de atentados, fanatismo religioso, reinvindicações étnicas e multiculturalismo, ele defende a laicidade, a democracia universal e o direito a cada um a opinar sobre tudo.
Sempre que alguém diz ao seu oponente, "você não é especialista nesse assunto" , está passando recibo de que perdeu na argumentação e deseja restabelecer as ordem do arame farpado.
Shlomo Sand propõe que se enfrente o autoritarismo dos donos dos campos do saber com a autoridade da inteligência que não se intimida. Boa parte dos assuntos não resiste a algumns dias de reflexão. Ele pode estar enganado, mas não teme debater. Depois dos atentados que abalaram a França, no começo de janeiro deste ano, Sand manifestou-se dizendo que prefere ser Charlie Chaplin a Charlie Hebdo. Mais uma provocação certeira.
...

Edgar Morin, 93 anos, é outro judeu que defende a necessidade de visões globais complexas e não teme andar na contramão. Sand segue esse tom. Como amarrar todos os fios que se espiralam entre colonialismo, etnocentrismo, ocidentalismo, islamismo radical, antissemitismo, conflitos do Oriente Médio e em outros pontos do planeta, ocidentalização do mundo e islamização da Europa?"
Na entrevista abaixo "ele expõe seus pontos de vista e tenta mostrar as origens dos rastros do ódio e da violência."

Juremir Machado da Silva no Caderno de Sábado do Jornal Correio do Povo deste 31 de janeiro de 2015

Sand: Israel não é uma verdadeira democracia


Entrevista do Caderno de Sábado com Shlomo Sand
Por Juremir Machado da Silva

Raízes do sangue e do ódio

Judeu, historiador, professor da Universidade de Tel Aviv, autor de vários best-sellers, entre os quais “A invenção do povo judeu” e “Como deixei de ser judeu”, Shlomo Sand, 68 anos, é um intelectual polêmico que não teme enfrentar as posições dominantes nem a ira de alguns dos seus colegas de profissão. De Nice, na França, onde passava alguns dias ao sol e escrevendo um livro sobre a relação da história com a ciência, ele concedeu, por telefone, esta entrevista ao Caderno de Sábado. Como sempre, foi implacável.
Passado o impacto da tragédia de Charlie Hebdo, Sand faz o balanço da relação do Ocidente com a religião islâmica e do conflito israelo-palestino,

Caderno de Sábado – Por que, após os atentados de Paris, o senhor declarou, contra boa parte da intelectualidade, não ser Charlie?

Shlomo Sand – Logo depois dos atentados de Paris, escrevi um texto intitulado “Eu sou Charlie Chaplin”. Expus a minha recusa ao slogan “eu sou Charlie”, que reuniu pessoas solidárias aos cartunistas de Charlie Hebdo assassinados por extremistas. O crime cometido não tem justificativa nem desculpa. Dito isso, eu fiz a seguinte pergunta: devo me identificar com as vítimas e ser Charlie porque os mortos representavam a encarnação da liberdade de expressão? Algumas das caricaturas de Charlie Hebdo eram de mau gosto. Apenas algumas delas me faziam rir. Havia na maioria das charges publicadas pelo jornal uma raiva manipuladora com o objetivo de conquistar mais leitores. A caricatura de Maomé com um turbante-bomba publicada por um jornal dinamarquês em 2006 já me havia parecido uma pura provocação. Algo como relacionar judeu com dinheiro. Tudo isso só tem servido para associar islamismo e terrorismo. Incita ao ódio, dissemina preconceito, desrespeita a fé do outro. Sendo assim, não sou Charlie.

Caderno de Sábado – O que deve prevalecer, a liberdade de expressão, de sátira, de humor, ou o respeito às crenças e às diferenças?

Sand – O limite da liberdade de expressão é a difusão do racismo. Duvido que Charlie Hebdo se atrevesse, como escrevi no meu artigo logo depois dos fatos, a publicar uma caricatura do profeta Moisés de quipá com ar de agiota numa esquina. Concordo com a proibição, na França, a que o humorista e polemista Dieudonné faça piadas com o holocausto, mas não posso admitir que ele seja agredido. Se fosse, porém, eu não sairia com um cartaz dizendo “eu sou Dieudonné”. O limite ao humor é a incitação ao ódio, ao racismo e ao preconceito. Uma coisa é satirizar uma religião dominadora e opressiva. Outra, atacar a crença de grupos dominados e humilhados. O Ocidente está acostumado a apoiar as piores opressões no Oriente Médio. Dito isso, precisamos lutar contra o extremismo de organizações como o Estado Islâmico, sem esquecer que europeus deixaram esse crescimento acontecer bancando, muitas vezes, os bombeiros incendiários.

Caderno de Sábado – O Ocidente tem então responsabilidade no que aconteceu como sustentam alguns intelectuais de esquerda?

Sand – É disso que estou falando. O Ocidente não faz o papel de Voltaire no Oriente Médio ou no mundo islâmico. É preciso não ridicularizar grosseiramente o islamismo na Europa onde vivem milhões de muçulmanos em condições precárias, realizando os trabalhos mais insalubres. Por tudo isso, não sou Charlie. Minha simpatia fica com os muçulmanos que vivem em guetos e poderão ser vítimas do ódio desencadeado pelos atentados. Minha referência é outro Charlie, aquele que nunca zombou de pobres e humildes, Charlie Chaplin. É fundamental lutar contra o terrorismo, que existe e produz devastação, tomando-se o cuidado de não estimular racismo e ódio. Além disso, a Europa não pode esquecer seu passado colonialista recente e os rastros que isso deixou. A Europa acompanhou os Estados Unidos ajudando a criar o caos no Iraque e na região. Com apoio de aliados “esclarecidos”, grandes defensores da “liberdade de expressão”, como os sauditas, ajuda a preservar fronteiras ilógicas estabelecidas por interesses imperialistas. A minha conclusão é simples: o Ocidente não é a vítima ingênua e inocente como gosta de se apresentar. A França é responsável pela situação atual do Mali. Precisamos dar uma basta à hipocrisia que dá aos ocidentais sempre o bom papel. Intelectuais e escritores desempenham um papel nisso.

Caderno de Sábado – Livros como o romance de Michel Houellebecq, “Submissão”, que trata da ascensão ao poder na França de um presidente muçulmano, em 2022, incitam o medo do islamismo?

Sand – Michel Houellebecq, mesmo que não seja a sua intenção, contribui para que as pessoas sintam medo do islamismo. Ninguém pode escrever um livro tendo como tema uma ameaça de judeização do mundo, mas o autor de um romance sobre uma ameaça de islamização ganha todos os espaços de mídia. A questão é: como lutar contra o terrorismo? A resposta, como venho mostrando nas minhas reflexões sobre o conflito israelo-palestino, está em entender as origens do conflito. Sem desconstruir os mitos não se chega ao cerne dos problemas maiores.

Caderno de Sábado – Como viu a participação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu nas manifestações de Paris depois do atentado contra a mercearia judaica e contra Charlie Hebdo?

Sand – Terrível. Netanyahu nem sequer compreende o fato de que judeus possam viver em outros países. Na cabeça dele, todo judeu fora de Israel está em situação temporária fora de casa e deveria voltar para o seu lugar. Ele não entende o conceito de cidadão e de cidadania.

Caderno de Sábado – Um dos assassinos dos atentados de Paris, o que invadiu a mercearia de produtos judaicos, fez menção à questão da Palestina. O senhor é um estudioso das relações entre judeus e palestinos. Vê uma saída para esse conflito que parece sem fim?

Sand – Não. Não vejo saída. Seria preciso uma forte pressão internacional para salvar Israel de si mesmo. Essa pressão teria de vir dos Estados Unidos, mas isso não acontecerá, pois Barack Obama não é presidente que se poderia imaginar. Ele cedeu rapidamente ao lobby sionista e aos interesses da indústria armamentista. Israel não percebe as próprias contradições. Desde 1947, instalou um regime de apartheid que não para de se acentuar. Temo pelo futuro de Israel. As reações e revoltas poderão se ampliar atingido até a Galileia.

Caderno de Sábado – Não vê Israel como uma verdadeira democracia?

Sand – Claro que não. Israel é uma etnocracia, o Estado dos judeus, o que se baseia numa visão etnocêntrica. Uma democracia é de todos os seus cidadãos independentemente das suas crenças ou “raças”. As medidas recentes com o objetivo de enfatizar o caráter judaico do Estado de Israel enfatizam esse elemento inaceitável de separação. Israel e Líbano são dois países com elementos liberais e democráticos, mas Israel não pode ser visto como uma verdadeira democracia na medida em que não aceita o fundamento universalista do regime democrático. Os assentamentos, que continuam, e a lógica empregada pelo sistema dominante alimentam esse apartheid que tem consequências cotidianas deploráveis para palestinos vivendo em condições precárias e insustentáveis. Qualquer um pode ver isso. Repito, só a pressão internacional poderá levar Israel a ser democrático. Quanto ao conflito, precisamos de dois Estados com base nas fronteiras de 1967. Fora disso, nada poderá funcionar mesmo.

Caderno de Sábado – Como superar a questão dos refugiados palestinos que gostariam de ter direito de retornar à terra de pais ou avós?

Sand – Temos de ver a situação com moderação. Todos os refugiados não podem voltar, pois isso significaria o fim de Israel. Mas precisamos fazer com que uma parte desses descendentes de palestinos possa voltar. O princípio é simples: em 1947, a terra onde está Israel era deles, dos palestinos, que foram expulsos de lá. Essa história de direito de dois mil à terra de Israel é uma bobagem. Ninguém tem esse tipo de direito. Ou todos os brasileiros de origem europeia deveriam sair do país e devolver o Brasil inteiro aos índios? Os Estados Unidos também deveriam ser evacuados? Não existe isso. Os judeus não são um povo, não são uma raça. Há judeus russos, poloneses, judeus saídos do Iêmen, de origens distintas. Só a religião é comum entre eles. Os brasileiros não são uma raça. Nem os judeus. Boa parte dos judeus de hoje não descende de ninguém que jamais tenha vivido na Palestina, mas de pessoas convertidas ao judaísmo em outros lugares.

Caderno de Sábado – E a lei de retorno para judeus?

Sand – Só devem poder ir viver em Israel judeus perseguidos. É um critério factível e sustentável moralmente. Os demais têm as suas nacionalidades e não são nem devem ser israelenses. Os fundamentos que justificam a existência de Israel são o holocausto e o fato consumado. Dado que Israel existe, precisa continuar existindo. Para isso, temos de conciliar israelenses e palestinos no mesmo espaço. Como a terra era dos palestinos e não se pode receber de volta todos os refugiados, cabe juntar dinheiro e indenizar todos os que foram despojados. Um mítico direito de dois mil anos atrás não pode se sobrepor ao direito de propriedade legítimo de 1947. Israel precisa assumir o seu papel na tragédia da população palestina.

Caderno de Sábado – Não acredita numa unidade genômica dos judeus?

Sand – De jeito nenhum. Essas pesquisas de DNA, essas pesquisas que falam de um DNA comum a todos os judeus, são uma empulhação. Tudo isso faz parte de um mito perigoso, o mito do povo judeu como raça.

Caderno de Sábado – Seus colegas o odeiam?

Sand – Historiadores apegados aos mitos sionistas me odeiam, mas meus livros são best-sellers em Israel. Estou escrevendo um livro sobre história e ciência para mostrar que história não é ciência. Ideologias, mitos e emoções permeiam boa parte dos relatos.

Fonte: Jornal Correio do Povo 31.01.15

22 janeiro, 2015

O Corpo: sobre nossos limites... Do Blog RAZÃO INADEQUADA



Mara Lafourcade Rayel - "porto dos poros I"
Mara Lafourcade Rayel – “porto dos poros I”
- por Rafael Lauro e Rafael Trindade

Se pudermos dizer que aprendemos alguma coisa, com certeza será sobre nossos limites. Não, o limite não está nem fora nem dentro, está “entre”. A fronteira não é nada mais que o limiar, o ponto de encontro, a linha. Mas todos os limites são cruzados diariamente, a vida vibra, está sempre em ressonância com outras coisas. A vida não respeita limites…
A cerca não limita nem protege, ele faz contato, ela estabelece a fronteira entre nós e o mundo. Se a cruzamos, nos cruzamos, se não a ultrapassamos, ficamos na porta, mas à espreita. Não encontramos obstáculos quando a cruzamos, o obstáculo é encontrar as portas! Não se tratam de portas trancadas, mas ocultas, esperando ser descobertas, desobstruídas. Estamos no mundo e precisamos de uma sabedoria, uma boa maneira de agir, não de uma chave-mestra.
Não acreditamos mais no mal, há apenas mau jeito: uma perna quebrada é um mau jeito, o que fazemos disso? O que nós podemos tirar disso? O problema está no meio, nos limites, assim como a solução, que se encontra nos limiares, nos encontros, na relação. A vida insiste em desfazer a ordem que lutamos para instaurar. A vida se faz em problemas e nos exige a criatividade de solucioná-los.
Queremos aprender a cada vez mais estender nossos limites, ampliar-nos, esticar-nos. Só assim nos vemos livres. Queremos estender nosso ser, apenas assim nos vemos felizes. Queremos deitar no horizonte! Surfar na tangente! Tornar nosso aquilo que não somos. Tornar nosso ser outro. Transformar ser em estar, perecer em bem-estar.
Limite e infinito não mais se opõem, se cruzam constantemente. O infinito nos atravessa, nos corta, nos chama, mas não mais nos atropela. Somos compostos de forças resistentes que criam densidade, um lugar que tende à definição, mas que nunca se sedimenta. De alguma forma nos deformamos até descobrir que somos eternos. Massa de manobra da potência de ser. Cimento da realidade, tijolos da existência. A confusão é total, mas existe um equilíbrio qualquer.
Queremos abrir os braços. Ir para além-do-homem, passar por cima, sobrepujar. Se nos fizemos um experimento foi para encontrar uma reação explosiva, e deixar a casca homem para trás. Desde então, somente aceitamos falar de limites elásticos, de catapultas de afetos, flechas de diferenciação, de membranas permeáveis. E aqui se apresenta um ponto importante: buscamos a concentração perfeita. Não podemos ser invadidos pelo mundo a todo momento, nem nos tornar pedregulhos impenetráveis. Prudência e experimentação, medida e desmedida, envolvimento e afastamento devem ser dosados. O meio interno e meio externo estão em um perpétuo conflito mediado pela concentração.
O que é nosso corpo? Antes de tudo,  uma multiplicidade irredutível. Até onde vai nosso corpo? Até onde o esticarmos! – nós ocuparemos todo o espaço que nos for concedido ou que conquistarmos, mais ou menos como o ar. Se chegamos até você, é porque nossos dedos digitam e temos um monte de silício organizado à nossa disposição. Sua retina capta os nossos códigos, seu intelecto os decodifica à sua maneira, nos encontramos, estão dados os limites. Aquilo que somos nos ultrapassa e te atravessa. Te atropelamos? Esperamos que não… te afetamos, essa é a nossa proposta! Queremos criar laços, fazer aliados, expandir limites, aumentar os volumes, criar densidades!
O que pode o corpo? Pode aquilo que tem potência. O corpo é aquilo que é capaz de fazer e se define também por sua capacidade de ser afetado. Não há separação entre nós e o mundo ao nosso redor: a comida e o ar são o mundo invadindo o corpo; a voz e os movimentos são o corpo penetrando a existência. Somente um ignorante colocaria um “e” ontológico entre o corpo e o mundo. Só separamos sujeito e predicado na gramática – eu sou a ação, eu sou a existência! Falar de outras realidades é abster-se desta, é diminuir-se, é encurtar o caminho para o fim da existência.
Fechar-se não é isolar-se, é deixar passar poucos afetos. Não há escapatória. A fortaleza é uma casca morta e insensível. Abrir-se é perder-se, deixar-se estuprar pelo mundo. Poucos perguntaram: quais são suas máquinas desejantes? Não estou aplicando um teste de personalidade, estou perguntando: “o que te afeta?”. O marco que estabelece seus limites são as máquinas que não se conectam com você. Sua pele é a membrana permeável que permite que estes afetos passem ou não. Nossas fronteiras são pontilhadas, passam fluxos imperceptíveis a todo momento. Nosso corpo é um porto, aberto para o mar.

mara lafourcade rayel - porto dos poros II
Mara Lafourcade Rayel – porto dos poros II


14 janeiro, 2015

Nietzsche: O além do homem, o além do humano, do ser humano (super-homem) e +


Me sentindo provocado por uma postagem no Facebook, feito por uma amiga... resolvi procurar e achei esses três belos textos de , os quais copio abaixo... na íntegra e com todas as imagens e créditos para o autor supracitado no seu blog

Nietzsche – o além-do-homem [ou, o super-homem]      

"Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 13
Matteo Pugliese
Matteo Pugliese

Por que demoramos tanto para falar do super-homem? Bem, não é tão fácil, este conceito tão famoso de Nietzsche (e tão mal interpretado) exige a articulação de tantos conceitos que seria impossível começar por ele. São necessárias a noção de Eterno Retorno, como ferramenta para se chegar ao Super Homem, a ideia de amor-fati, para superar todo o ressentimento, e, claro, o conceito de Vontade de Potência.
É por isso que aconselhamos antes a leitura destes textos, sem eles, jamais teríamos a capacidade de entender o que significa dizer que “o homem é uma corda, atada entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 13). Nietzsche matou Deus, e agora quer dar fim aos seguidores dele:
“Grande, no homem, é ele ser uma ponte e não um objetivo: o que pode ser amado, no homem, é ser ele uma passagem e um declínio” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 13
As duas traduções mais comuns para Übermensch são super-homem e além-do-homem; nenhuma delas é perfeita, mas as duas trazem a ideia de superação, de alguém que se eleva, a criação de um novo tipo. Usaremos aqui os dois nomes como sinônimos. O super-homem não é uma forma superior de homem, mas é aquele que deixa a forma homem para trás, se desfaz desta casca que se tornou demasiadamente apertada.
Ao desenvolver este conceito, Nietzsche estabelece plena oposição com o europeu moderno. Este é o alvo de sua crítica, o filósofo também o chama de último-homem, ou homens-superiores. Zaratustra ridiculariza este homem apaixonado por sua cultura, suas leis e seus valores cristãos (já escrevemos aqui sobre a psicologia do homem do ressentimento). O último-homem (último poque depois dele vem o além-do-homem) é o europeu domesticado, obediente, anestesiado, entupido de cultura, aferrado ao seu tempo. Este está em franco declínio, e Zaratustra ama aqueles que querem declinar, pois é deles que nascerá o super-homem: valente, impetuoso, ativo, vivaz.
O niilismo está em seu estágio mais avançado: o homem não quer mais ir para além de si, não quer criar, “seu solo ainda é rico o bastante para isso, mas um dia este solo será pobre e manso, e nenhuma árvore alta poderá nele crescer” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 18). O super-homem é aquele que vence o niilismo, supera a forma homem, velha e desgastada, supera todos os humanismos, toda a cultura que o prende em si mesmo, é ele quem “lança a flecha do seu anseio por cima do homem” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 18). Já o homem do ressentimento é aquele cujas forças reativas predominam, ele é escravo de seu tempo, não consegue ir para além da conservação.
O homem moderno orgulha-se demais de si próprio, está acomodado, conformado, abraça seus ídolos supersticiosos como único meio de sobrevivência. Chegamos ao extremo da massificação e uniformização. Também existe, claro, muito medo e insegurança, poucos aventureiros. O valor dos valores deve ser revisto: é afundados nesta sociedade moralista que devemos viver? Não! A afirmação do super-homem é a negação dos valores vigentes: ousadia no lugar de segurança, auto-disciplina ao invés e auto-piedade, esquecimento em vez de ressentimento. Zaratustra aconselha ao homem mergulhar dentro de si para encontrar a potência necessária para declinar, deixar esta forma velha e empoeirada e criar novos valores. Isto fica claro nesta famosa passagem:
Eu vos digo: é preciso ter ainda o caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante, eu vos digo: tendes ainda o caos dentro de vós” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 18
Matteo Pugliese5
Matteo Pugliese

O além-do-homem é aquele que supera todo o ressentimento, é a criança da última das três metamorfoses, é a inocência do devir. Todos os modelos são deixados para trás, todos os ídolos são quebrados: só há espaço para a criação. O homem se torna artista, dono de si; não qualquer espécie de ditador, desmentindo qualquer vínculo com o nazismo (pobres daqueles que leram duas linhas de Nietzsche e o acham pessimista ou próximo do nazismo, este ainda tem um longo percurso pela frente).
O super-homem é aquele que apreendeu o verdadeiro sentido do eterno retorno: o retorno da diferença. Há um completo domínio das forças reativas, elas obedecem ao além-do-homem, faz-se uma herarquia. As forças que querem criar se tornam mais fortes que as forças que querem conservar. Expressão da diferença no lugar de conservação do igual. O ser passa a se afirmar na diferença, o devir é o devir da potência na diferença.
Os mais preocupados perguntam hoje: ‘como conservar o homem?’. Mas Zaratustra é o pimeiro e único a perguntar: ‘Como superar o homem?'” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 272
É necessário o dizer-sim do bom jogador, amor-fati, aquele que aprendeu a jogar não pelo resultado do lance de dados, mas pelo prazer que o jogo proporciona, independente do resultado. A dor o cativa, o torna mais forte, ele não amaldiçoa o sofrimento, ele o abençoa, pois é sua possibilidade de provar-se e ir além. Todo “acaso é cozinhado em sua panela”, ele pode aproveitar-se até mesmo da dor, é um tempero a mais na vida, é mais uma tonalidade que ele dispõe ao pintar novos horizontes.
Mas Nietzsche nos avisa desde cedo, não há super-homens ainda (até porque ele é muito mais uma atitude do que uma estado de ser). Nascemos em um lodaçal onde podemos nos aprimorar e tornarmo-nos mestres de nós mesmos, o super-homem é uma possibilidade circunscrita que acontece esporadicamente. Quem sabe não estamos abrindo caminho para ele? Quando a Vontade de Potência se manifesta plenamente, podemos dizer que o além-do-homem se anuncia através de nós.
Ir para além do homem é ir para além da forma homem pregada pelos humanismos que existem por aí, ultrapassar as ideias fechadas, os conceitos que mais parecem prisões. O que pode o homem? Mais nada, o melhor a fazer é ultrapassá-lo.
Após a morte de Deus, seu trono ficou vago, e foi preenchido por toda sorte de superstições. O niilismo ainda está presente, mas o além-do-homem atravessa todo este lodaçal como um raio de luz que não se deixa contaminar pelo niilismo. O além-do-homem atinge o ponto definitivo da morte de deus. Finalmente toda transcendência é deixada de lado: deus, religião, moral, lei, castração, verdade, ciência, humanismo, justiça, bem e mal.
A morte de deus foi anunciada, mas só com o advento do super-homem ela se torna definitiva. Com o declínio do último-homem, o ocaso de seus valores, o homem supera a si mesmo superando deus e todos os valores ascéticos. Por fim, a longa e gelada noite termina com os primeiros raios de sol, anunciando a filosofia do meio-dia.
O homem se acha no meio de sua rota, entre animal e super-homem, e celebra seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança; pois é o caminho para uma nova manhã./ Então aquele que declina abençoará a si mesmo por ser um que passa para lá; e o sol do seu conhecimento permanecerá no meio-dia/ ‘Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem'” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 76

Matteo Pugliese4
Matteo Pugliese


A psicologia do Homem do Ressentimento

O ressentimento, a ninguém é mais prejudicial que ao próprio ressentido” – Nietzsche, Ecce Homo, §6
Nietzsche

Nietzsche fez um diagnóstico do homem moderno. 
Seus pensamentos são essenciais para entender 
o niilismo em que vivemos e o motivo pelo qual 
o animal homem é um bicho doente. Através 
 da interpretação do mundo pela 
Vontade de Potência, Nietzsche tem condições 
de responder porque o homem ressentido dominou 
e como superar nosso pessimismo atual.
O ressentimento vem daquele homem que perdeu
 a capacidade de criar e de experienciar o presente. 
A Vontade de Potência é a força que se efetiva 
no devir, onde está o mundo está a verdade, 
por isso as forças ativas são ativas, porque 
afirmam o presente. O tipo ressentido é aquele 
que possui alguma inibição ou bloqueio 
para suas forças ativas se expressarem. 
Podemos separá-los em três níveis:
O primeiro nível de niilismo é o do homem 
 ressentido no exato sentido da palavra: re-sentir. 
O esquecimento é uma força ativa no homem que 
o livra de perder-se no passado. A força ativa 
 do esquecimento é o que apaga as marcas 
no homem e o permite novamente experienciar 
o devir. Mas o homem reativo não consegue 
esquecer, ele re-experiencia novamente porque 
suas forças ativas não conseguem superar suas forças 
reativas, responsáveis pela criação das memórias. 
Sendo assim, este homem perde a capacidade 
de metabolizar o que lhe acontece e passa a 
rememorar eventos passados. Lembrar é sempre 
ruim: até mesmo uma boa lembrança, porque 
nega o aqui e agora. O homem ressentido sente 
a frustração do peso de sua bagagem. A identidade 
que preocupa-se em manter, os valores 
de bem e mal, ideais são consequência da perda 
do devir pela memória hipertrofiada do homem reativo.
O segundo nível constitui a má-consciência. 
Dá-se quando a criação de ideais é usada para 
maldizer o mundo, gerando um mal-estar inerente 
à condição humana. O mundo nunca conseguirá s
atisfazer o homem cheio de ideais, por isso 
este indivíduo desaprende a amar a vida e passa 
a maldizê-la. Ele não sabe exatamente por quê, 
mas o mundo é ruim e não o satisfaz. Ele não 
consegue encontrar a solução, mas o mundo parece
 ter infinitos problemas. Ele não suporta que 
o tempo passe porque isso demonstra 
a impermanência que o homem da abstração 
não aguenta. Este tipo de ressentimento acontece 
porque as marcas que constituem o homem 
(sua memória, seus ideias, sua moral) impedem 
que a Vontade de Potência flua naturalmente. 
O homem domesticado é cruel consigo mesmo 
(como animal batendo nas grades): “sofro, 
 portanto deve haver um culpado”. Essas forças 
que se voltam contra ele são as mesmas que o
 machucam e debilitam.
Que tipos de pensamentos a doença inspira? 
A última forma de ressentimento o demonstra 
com o advento da figura do sacerdote. Somente 
ele foi capaz de mudar a direção do ressentimento, 
dar-lhe sua forma final. É uma atitude cruel por 
parte do padre, mas a única capaz de salvar o
 homem doente: dar sentido ao ressentimento, 
para diminuir sua dor. Como todo aquele que 
sofre procura por um sentido, o homem 
reativo também procura uma resposta para s
ua angústia. Qualquer sentido é melhor que 
a falta de sentido e o mesmo acontece com 
o homem reativo: ele não sabe por quê sofre. 
O padre lhe diz então: “você sofre porque 
é um pecador, se você sofre é porque é culpado”. 
A vontade está salva, há um sentido, mesmo que 
seja niilista: o homem sofre para em sua próxima 
vida ser salvo. A forma e o sentido do ressentimento, 
dada pelo padre, tem efeito sedativo, mas a interpretação 
 não é o remédio, é uma das causas da doença.
Nietzsche procura saídas para o homem moderno 
não sufocar-se em sua própria angústia. 
Um dos remédios para o ressentimento? 
A busca pelos momentos de espontaneidade: 
“Aja duas vezes antes de pensar”. 
O hiperdesenvolvimento da consciência levou 
à incapacidade de sentir e agir. O ressentido 
carrega consigo todo o lixo do qual não 
consegue desvencilhar-se. Já o homem ativo tem 
sempre o organismo limpo para novas 
experimentações porque se utiliza de umas 
das fórmulas desenvolvidas por Nietzsche para 
a grandeza do homem: Amor-Fati.

Gravura do livro "Memórias do Subsolo" de Dostoiévski.  Para Nietzsche, este livro representava a descrição perfeita do homem ressentido.
Gravura do livro “Memórias do Subsolo” de Dostoiévski. Para Nietzsche, este livro representava a descrição perfeita do homem ressentido.

Nietzsche – amor-fati      

 Nietzsche na varanda

Minha fórmula para a grandeza no homem é amor-fati: não querer nada de outro modo, nem para diante nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário -, mas amá-lo” – Nietzsche, Ecce Homo, Porque sou tão esperto, §10.
As implicações do eterno retorno levarão inevitavelmente a outro conceito muito importante que Nietzsche chamou de amor-fati (do latim, amor ao destino). Se tudo retorna eternamente, e exatamente como é agora, então é imprescindível ao homem seu destino. Se não existe nada além desta existência, há de se concluir que apenas ela merece nosso amor.
Aprender a amar nosso destino, encontrar beleza no necessário, esta é a grande lição de Nietzsche já no fim de sua produção intelectual; talvez seu último grande ensinamento. Dizer sim à vida, porque só ela que existe e somente ela traz valor em si mesma. Esta lição serve tanto para momentos de felicidade como para momentos de desespero. Transformar o “foi assim” em “eu quis assim” dá um sentido próprio ao que aconteceu (ver Zaratustra – Da redenção).
O controle do passado implica aceitar o que lhe foi dado e tirado. Todos os acontecimentos se inserem numa ordem causal da natureza, assim como você, portanto, nada poderia ter acontecido de outra forma, nada poderia ter sido diferente, não adianta lamentar-se. É preciso afirmar até mesmo o erro, afinal de contas, ele não é um erro! Ele era absolutamente necessário naquele momento e só pode ser interpretado como um erro se tomarmos formas superiores para nos guiar (mas Deus está morto).
A exortação de apropriar-se do que aconteceu nos torna capaz de seguir adiante. O bom e o ruim, a dor e o prazer, são inerentes à vida, amar o que lhe acontece e acontecerá é o primeiro passo para tornar-se quem é. “Em vez de esperar que um poder transcendente justifique o mundo, o homem tem de dar sentido à própria vida; em vez de aguardar que venham redimi-lo, deve amar cada instante como ele é” (Marton, Nietzsche e a transvaloração dos valores).
“O homem é algo que deve ser superado” (Zaratustra, prólogo). A forma homem é velha e caduca, ela vai errar sempre porque ainda está presa em ídolos metafísicos, presa à forma. É preciso deixar a forma-homem para trás para afirmar aquilo que passou e mais, amar aquilo que passou, porque assim deveria ser, por toda a eternidade. Redimir o passado, desatar os nós do ressentimento, dissolver a má-consciência, para que mais serviria o amor-fati? Existe tarefa maior?
Devemos afirmar a vida, negando toda calúnia, toda desvalorização, toda acusação que possa ser feita contra ela. Mas este ensinamento foi muito mal compreendido. O amor-fati não implica em resignação, sua lição não é de aceitação passiva, muito menos acovardar-se. Não devemos abaixar a cabeça e aceitar, muito menos virar a outra face (Mt 5,39). O amor-fati diz para o indivíduo amar a vida, porque só ela existe e fora do todo não há nada. Significa afirmar o que tinha que ser sem deixar de afirmar a vontade de potência, em si e no mundo.
E negar os negadores é uma forma de afirmar! Por isso a luta também faz parte deste amor; não se pode apenas entender que existem paradoxos e contradições, é necessário amá-los. Devemos amar a luta, a revolta, a insubmissão. E que dizer “Não” seja apenas um passo para se dizer “Sim” cada vez mais alto! Porque temos cada vez mais vontade de dizer “Sim!”. Vontade de estar no mundo! Vontade de amar! Amor-fati
Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores, Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” – Nietzsche, Gaia Ciência, §276.

Ilustração de Maximillien Leroy
Ilustração de Maximillien Leroy.
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Se você gostou, não deixe de visitar o blog do autor: tem muitos textos ótimos.


13 janeiro, 2015

2015 com luz para iluminar a sombra


Comecei 2015 desejando luz (não religiosa) numa postagem do Facebook, transcrita abaixo.



Amigos e amigas!
Que em 2015... a luz (espiritualidade) ilumine a sombra (Psicologia: termo usado por C. G. Jung para designar a parte da personalidade que não gostamos e/ou não queremos admitir possuir).
Meu desejo de luz para todos, mais transparência e menos opacidade.

Essa estranha imagem possibilita pensar que todos somos (ou podemos ser... um) Buda, o iluminado. Vai nesse sentido o meu desejo de Luz.
Vejam o que é a sombra na Física e as analogias que podemos fazer com a sombra, de Jung, e com os votos de luz:
"Uma sombra é uma região escura formada pela ausência parcial da luz, proporcionada pela existência de um obstáculo. Uma sombra ocupa todo o espaço que está atrás de um objeto com uma fonte de luz em sua frente. A sombra muda de posição conforme a origem da luz.
A sombra é algo inexistente, porém, é o nome que damos para a ausência da luz, a silhueta que é formada quando um corpo bloqueia a luz, portanto pode ser considerado incorreto dizer que um objeto "produz sombra".
Exemplos de bloqueios da luz feitos por corpos: Corpo completamente opaco: não permite a passagem de luz. Corpo meio transparente: permite, parcialmente, a passagem de luz, dependendo da opacidade. Quanto maior a opacidade de um corpo, maior será o bloqueio de passagem da luz e mais nítida será a sombra.
A sombra pode ser de diversos tamanhos, dependendo da distância em relação ao corpo bloqueador da luz e da distância da luz em relação ao corpo.
Existem dois tipos de sombra: a sombra própria e a sombra projetada. A sombra própria é aquela que é formada pelo próprio objeto, por efeito de incidência da luz no objeto. A sombra projetada é quando um objeto em contacto com a luz forma uma sombra que é projetada posteriormente num plano ou até mesmo num outro objeto."
Fonte Wikipédia


Poucos dias depois... o ano começa com os atentados em Paris e com todas as consequências que vamos descobrindo e vendo a cada dia... mais e mais e mais.

Vendo 
os modos 
como
os fatos 
vão se sucedendo, 
parece-me que a sombra está dançando sozinha,  louca e descompromissada... ALHEIA A QUALQUER LUZ NO AMBIENTE.
Assim, o que inexiste passa a existir a ganha vida própria.

Então surgem algumas questões:


O que é liberdade de expressão? Como funciona? Tem limites? Não tem limites? É negociável, ou não? É uma utopia ativa ou uma prática possível e cotidiana ilimitada?
É igual em todas as democracias, ou não?
Eu sou e ao mesmo tempo não sou Charlie!



Uma "tsunami" de cartoons tem invadido o mundo nesses últimos dias, desde o terrível atentado na França, o qual gerou comoção. Compreensíveis (tanto a proliferação de manifetações de solidariedade - com ou sem cartoons - como a comoção.
Enquanto isso e antes disso... o Boko Haram sequestrou (mais dezenas) de meninas na África, crianças foram mortas em escola no Paquistão, mulheres são presas na Arábia Saudita por dirigirem automóveis....
Por que esses fatos não causam tamanha onda de solidariedade?
Eis (mais uma) pergunta para a qual eu não tenho resposta.
Mas tenho uma pista: ocorrem fora dos grandes destinos turístico ocidentais e não tem apoio da mídia.
Quem tem mais poder, de fato?
A caneta que escreve ou a arma que mata?
Ou são poderes diferentes?
Que mundo doido (e complexo) vivemos.


Cada um na sua vida e no seu ofício usa "as armas" de que dispõe.
Na minha e no meu uso a palavra.
É muito comum que eu seja o único ser no mundo que faz determinadas perguntas ou colocações na vida dos meus "pacientes".
Como de resto, é importante saber quando e como perguntar...




Sim, sim e sim: combater o terror e todas as formas de sujeição e discriminação que recaem sobre as pessoas. Sim, sim e sim: levantar a pena, usar a palavra... escrever, desenhar e...
Mas... tem um problema difícil: por vezes é exatamente isso que, ao invés de derrubar e combater o terror... o aciona, aumenta e fortalece.
É incerto o que vai acontecer: se, quem, onde, quando e de que jeito... não sabemos.
Durma-se com um barulho (mudo) desses...


E começam a aparecer, também, algumas posições: (para se aprofundar, siga os links abaixo)

"Entender o atentado de 7 de janeiro, um dos mais graves já ocorridos na França, apenas como um ataque à liberdade de expressão é uma meia verdade e envolve um grande risco político de interpretação."

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/atentado-contra-extrema-esquerda-na-franca/

Eu me encanto com a diversidade humana e seus jeitos de pensar, argumentar, ver os fatos e assumir posições. Aqui um texto muito inteligente e que retrata algumas das coisas que venho pensando.

"A quem serve a liberdade de expressão?
Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan “Eu sou Charlie” se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França."
Zuni


http://descolonizacoes.blogspot.com.br/2015/01/por-que-nao-sou-charlie-hebdo.html

Parece-me desnecessário argumentar o motivo de alguém "ser Charlie":
Assim, estou na contramão, lendo mais o que sai da massificação e do senso comum... buscando outros lados. Este é outro texto bem interessante e que retrata a complexidade do assunto e da diversidade humana.



https://ninja.oximity.com/article/Je-suis-Ahmed-1

E... aí, recebi este link de uma amiga:

Cesar, segue o link da matéria e a tradução, como te disse, "á la" google tradutor, mas acho que já ajuda a compreender um pouquinho.

Edgar Morin: "A França atingiu o coração de sua natureza secular e liberdade"
A fórmula para Francois Hollande está certa: "A França foi atingida no coração. " Ela foi atingida no coração de sua natureza secular e sua ideia de liberdade, precisamente no ataque contra o desrespeito semanal típico, escárnio atingindo o sagrado em todas as suas formas, inclusive religiosa. Mas o desrespeito pela Charlie Hebdo está no nível de riso e humor, dando um caráter estúpido monstruosamente no ataque.
Nosso sentimento é não prejudicar a nossa razão, como a nossa razão não deve reduzir a nossa emoção. Não insuperável contradição.
Houve problemas no momento da publicação das caricaturas. Devemos deixar a liberdade ofender a fé dos crentes no Islão por degradar a imagem de Seu Profeta, ou a liberdade de expressão faz substituições de todas as outras considerações? Então eu manifesto meu senso de contradição não insuperável, especialmente porque eu sou daqueles que se opõem a profanação de lugares e objetos sagrados.
Mas, claro, isso não faz nada para moderar o meu horror e nojo do ataque contra Charlie Hebdo .
Dito isto, o meu horror e nojo não podem deixar de contextualizar o ataque imundo. Isso significa o surgimento, no coração da França, a guerra no Oriente Médio, a guerra civil e a guerra internacional, quando a França interveio na esteira dos Estados Unidos.
A ascensão do Daech é certamente uma consequência da radicalização e apodrecimento de guerra no Iraque e Síria , mas as intervenções militares no Iraque e no Afeganistão têm contribuído para a quebra de compostos nações étnica e religiosamente, como Síria e Iraque .
Os Estados Unidos eram feiticeiros aprendizes e coligação diversa sem força real eles dirigem-se ao fadado ao fracasso, uma vez que não atender a todos os países interessados, também viu que estabelece uma meta de Paz restauração impossível da unidade do Iraque e da Síria, como o único desfecho pacífico real (atualmente inviável) seria uma grande confederação de povos, etnias, religiões do Oriente Médio sob garantia de united nations, único antídoto para o califado.

Coincidência
França está presente por sua aviação, pelas partes muçulmanas francesas para a Jihad por franceses muçulmanos Jihad, e agora, é agora claro que o Oriente Médio está presente no interior da França pela atividade mortal, que começou com o ataque contra Charlie Hebdo , como já o conflito israelense-palestino está presente na França.
Além disso, não é uma coincidência, no entanto acidental, entre o fundamentalismo islâmico assassino que acaba de se manifestar e islamofóbicos funciona Zemmour e Houellebecq, tornam-se os sintomas agravados de virulência, não só na França mas também na Alemanha , na Suécia , a islamofobia.

O medo vai piorar
O pensamento reducionista triunfa. Não só os fanáticos assassinos acreditam combater os cruzados e seus aliados judeus (os cruzados massacraram), mas islamofóbicos a reduzir árabes para sua suposta crença, islão, islâmico reduzir pela islâmico fundamentalista islâmico, em terrorista fundamentalista.
Este anti-islamismo está se tornando mais e mais radical e obsessivo e tende a estigmatizar uma população ainda maior em número do que a população que foi estigmatizado por anti-semitismo judeu antes da guerra e Vichy.
O medo vai piorar em francês de origem cristã, para aqueles de origem árabe, para aqueles de origem judaica. Alguns se sentem ameaçados por outros e um processo de decomposição está em andamento que pode ser capaz de parar o grande comício programado sábado 10 de janeiro, porque a resposta para a decomposição é a reunião de todos, incluindo todos os grupos étnicos, religiões e composições políticas.


En savoir plus sur http://www.lemonde.fr/…/la-france-frappee-au-c-ur-de-sa-nat…

En savoir plus sur http://www.lemonde.fr/…/la-france-frappee-au-c-ur-de-sa-nat…

Na sequencia... apareceu Eu não sou Charlie, do Leonardo Boff:

https://leonardoboff.wordpress.com/2015/01/10/eu-nao-sou-charlie-je-ne-suis-pas-charlie/

No domingo... DIA DA MARCHA:

Marcha em Paris pela unidade acontece com diversidade de manifestações. Eu sou Charlie, eu sou Ahmed, eu sou judeu, eu sou muçulmano e eu sou francês... 

ENTÃO, O QUE PENSAR, DIZER, CONCLUIR DISSO TUDO?
Já dá para concluir algo?

Se uma mesma pessoa, durante uma semana, lesse de manhã quatro jornais diferentes e ouvisse três noticiários de rádio diferentes; à tarde, frequentasse duas escolas diferentes, onde os mesmos cursos estariam sendo ministrados; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais diferentes de televisão, comparando todas as informações recebidas, descobriria que elas "não batem" umas com as outras, que há vários "mundos" e várias "sociedades" diferentes, dependendo da fonte de informação.
Uma experiência como essa criaria perplexidade, dúvida e incerteza. Mas as pessoas não fazem ou não podem fazer tal experiência e por isso não percebem que, em lugar de receber informações, estão sendo desinformadas. E, sobretudo, como há outras pessoas (o jornalista, o radialista, o professor, o médico, o policial, o repórter) dizendo a elas o que devem saber, o que podem saber, o que podem e devem fazer ou sentir, confiando na palavra desses "emissores de mensagens", as pessoas se sentem seguras e confiantes, e não há incerteza porque há ignorância.
- Marilena Chauí -

"As regras do jogo ocidental
Postado por Juremir em 13 de janeiro de 2015 - Blog do Correio do Povo

A regra do jogo ocidental democrático é cristalina: cada um pode acreditar no que quiser. Mas não pode tentar impor a sua crença a outros. Tem o direito, porém, de tentar convencer os demais a compartilhar a mesma fé se ela não infringir qualquer lei. Não posso defender um credo racista. Para o restou, posso crer em tudo. Em contrapartida, qualquer um pode criticar essa crença, mostrar seus limites e caricaturá-la em charges ou piadas.
O sagrado de cada um não pode se sobrepor ao profano de outros.
É um sistema complexo. Aquele que descrê não pode invadir o espaço do crente para dentro dele tentar desqualificá-lo. Cada um no seu quadrado. Nenhum cartunista pode pregar charges contra o islamismo dentro de uma mesquita. Isso nem passa pela cabeça de pessoas razoáveis. Se acontecer, haverá punição e rejeição da sociedade. O islamismo pode proibir que seus adeptos coloquem Maomé em imagens. Essa interdição, porém, só pode valer para quem é muçulmano. Os demais não estão obrigado a obedecer a determinações de autoridades às quais não devem respeito. Um adepto que não segue os valores da sua fé pode ser expulso.
É uma questão interna. Fato.
Por que fazer aquilo que ofende o outro? Essa pergunta tem sido repetida incansavelmente depois dos atentados de Paris. Porque na regra do jogo ocidental cada um tem direito até mesmo a blasfemar. O que pode fazer o ofendido? Protestar, criticar, processar, fazer campanha para que ninguém leia o jornal ofensor nem ouça aquele que ofende. Quem não aceita essa regra do jogo não pode viver no mundo ocidental, pois esse é o fundamento das sociedades abertas. Ceder em relação a isso equivale a deixar o outro, aquele que não aceita essa regra do jogo, fixar as novas normas. Tem gente dizendo que ofender o sagrado alheio é provocação desnecessária. Lembra a posição de quem, falando de um estupro, reconhece a monstruosidade do ato, mas enfatiza que a estuprada poderia ter evitado provocar o agressor com o seu modo de ser, com as suas roupas sumárias e as suas atitudes.
No jogo ocidental, eu posso idolatrar um deus e meu vizinho pode escrever um livro contra esse mesmo deus ou ironizá-lo em um milhão de piadas. Se eu for convincente, poderei convencê-lo a fazer outra coisa. Se não for, terei de me controlar e aceitar a diversidade de opiniões. O Ocidente é politeísta. Nesse universo ocidental construído ao longo de séculos, com grande ajuda dos iluministas franceses, só deve valer o argumento que convence. Aceitar a proibição de satirizar o sagrado significaria transformar a fé privada em valor público universalizado. Eu, pessoalmente, não tenho gosto por rir das crenças de quem quer que seja. Mas aceito que outros não pensem como eu. Esse modelo tem a vantagem de dar espaço a todas crenças e também à contestação delas.
Um modelo respeitoso restritivo torna todos reféns de uma crença. É o modelo teológico.
Voltarei combateu a intolerância religiosa.
Hoje, deve-se combater a intolerância com a religião.
Desde que a religião seja capaz de também ser tolerante.
O que está em jogo? A capacidade de o Ocidente continuar fixando as regras do seu jogo sem se tornar refém do que recusa. Não se trata de recusar o diferente, mas de preservar as regras de casa."
(Tem erros de ortografia nesse texto que eu não corrigi. Postei tal como copiei e colei)

Pergunto, de novo: já dá para concluir algo?

"Capa do novo 'Charlie Hebdo' terá Maomé com placa 'Eu sou Charlie'
Edição terá 3 milhões de exemplares e será traduzida para 16 idiomas.
Jornal francês foi alvo de atentado que deixou 12 mortos.

A capa da próxima edição do jornal francês "Charlie Hebdo" trará uma caricatura de Maomé segurando uma placa que diz "Eu sou Charlie" e terá o título "Tudo está perdoado", segundo divulgou o "Libération" no Twitter nesta segunda-feira (12).
A sede do jornal foi alvo de atentado que deixou 12 mortos na última quarta-feira.
A equipe do "Charlie Hebdo" trabalha na próxima edição em espaço cedido na sede da redação do "Libération". A charge da capa é assinada pelo chargista "Luz".
O próximo número do jornal terá 3 milhões de exemplares - normalmente são 60 mil - e criticará, como de hábito, políticas e religiões, e incluirá caricaturas de Maomé, segundo informou o advogado da publicação. A nova edição será vendida em 25 países, de acordo com a France Presse.
"Não cederemos em nada, senão tudo isto não faria sentido", disse Richard Malka. "Rimos de nós mesmos, das políticas, das religiões, é um estado de ânimo", afirmou o advogado.
O Charlie Hebdo "dos sobreviventes", como é conhecida a edição que sai na próxima quarta-feira, será "traduzido para 16 idiomas", de acordo com o médico e cronista Patrick Pelloux.
Para Malka, "nunca temos o direito a criticar um judeu por ser judeu, um muçulmano por ser muçulmano, um cristão por ser cristão, mas podemos dizer tudo o que quisermos, as coisas mais horríveis, e as dizemos sobre o cristianismo, o judaísmo e o Islã, porque além da unidade dos belos lemas, esta é a realidade do Charlie Hebdo".
O advogado disse que o jornal rebeceu pedidos de 300 mil cópias em todo o mundo, e que normalmente o jornal tem tiragem de 4 mil exemplares fora da França.
O número de quarta-feira está sendo preparado exclusivamente por membros da equipe do jornal e não incluirá desenhos de cartunistas externos que publicaram incontáveis esboços em homenagem às vítimas depois do atentado.
Nos Estados Unidos, o Clube de Imprensa de Los Angeles anunciou que o jornal receberá este ano o prêmio Daniel Pearl à coragem e à integridade jornalística. O anúncio foi feito na presença dos pais do jornalista americano, assassinado em 2002 no Paquistão.
O editor-chefe do jornal, Gerard Biard, disse se sentir "profundamente honrado" em receber este tributo. "Evidentemente, vamos aceitá-lo", afirmou."
Fonte G1 Mundo

Dá? Para concluir, algo?
Eu respondo assim:

Quando a liberdade de expressão fere a liberdade de expressão... que fere a liberdade de expressão e que feriu a liberdade de exprssão... entramos num circuito ativo-reativo-reativo de guerra pela liberdade de expressão, que talvez não termine. Ou termine em começo de uma nova guerra... já não mais pela liberdade de expressão, mas pela absolutização da liberdade de expressão.
Eu acho que teremos novos atos terroristas, infelizmente.

Quando tomamos a liberdade de expressão como um desejo de absoluto, custe o que custar, estamos criando um conflito onde quem perde é a possibilidade do exercício da diferença e da própria liberdade de expressão, já que ele assim tomado, o desejo de absoluto, já não é mais liberdade de expressão e sim imposição das partes nos seus antagonismos.
Diz o bom senso que, se estamos na frente da jaula de um felino irritado, não se fica batendo com um pedaço de madeira nas grades (para irritá-lo mais ainda.)...
Esse exemplo pode não ser muito bom, mas é o único que achei agora para expressar a minha opinião... de que essa coisa toda ainda está muito longe de ter uma solução.
Que tipo de solução se pode ter entre duas formas de terrorísmo, a que pega em armas e a que pega em canetas?
A provocação deliberada em nome da liberdade de expressão é algo mais do que isso. Parece-me uma forma autoritária de impor a diferença ao outro, tudo MUITO bem racionalizado.
Ora, sabemos que a racionalização é a doença da razão, onde, com argumentos plauzíveis e em parte lógicos e corretos (baseados na realidade) tenta-se justicar ações e reações, esquecendo-se que, no núcleo deles, há erros inequívocos.
Torcendo tudo e tirando as coisas do lugar em que coloquei... acho que a Charlie Hebdo, até então vista como sendo uma publicação de extrema esquerda com 60 mil exemplares impressos... está sucumbindo ao Capitalismo Mundial Integrado e querendo capitalizar economicamente a dita liberdade de expressão...
3 (ou mais) milões de impressões? Para defender a liberdade de expressão?

Também quer capitalizar as formas de ver, perceber/sentir/olhar/viver o mundo e a vida...
Isso não é mais uma guerra de/pelas liberdades. É uma guerra de prisões. Entre prisões.
Eu, definitivamente, NÃO SOU CHARLIE!

Então... apareceu outro atentado... 



Uma das coisas que eu penso sobre isso é que a Nigéria não tem uma "tradição reconhecida" em defender a liberdade, tal como a França, por exemplo. Isso faz com que "O Açoite Terrorista" doa muito menos nos egos da mídia... naqueles que noticiam e espalham as informações. Vira banalização porque lá, na Nigéria o inimigo é reconhecido, chama-se Boko Haram e tem-se uma "idéia" de onde ele está e como e para onde está se movendo. Faz muito que estão falando nisso e nas atrocidades que são cometidas por esse grupo... assim como faz anos que estão noticiando sobre o taliban e os problemas no Paquistão e no Afeganistão... Assim um jornal que sofre atentado tem mais repercussão do que pessoas que sofrem atentados...
Na França... os terroristas não estão localizados e não se pode rastrear ou antever seus movimentos: o inimigo é invisível e desconhecido, não localizável e, portanto... pode aparecer em qualquer lugar... como, de fato, foi o que aconteceu... pegando todo mundo de surpresa. Além do mais... a Nigéria fica na África e não é um local de destino turístico como Paris e a França.
Lembrei dos problemas que os europeus estão tendo com imigrantes legais e com os que querem entar no continente ilegalmente... Eles estão doidinhos para não receber mais africanos... que fogem das guerras, dos terroristas, das doenças, do clima quente e de tantas coisas mais...
Enfim... esse é o meu pitaco... mesmo não sendo a geografia e a história as minhas áreas de formação.

Chego ao final deste post dizendo o mesmo que falei lá em cima, por ocasião do ano novo: que 2015 nos traga luz e ilumine a nossa sombra!
Precisamos disso e muito.
Acho que alguns dos textos, idéias, posições e artigos... aqui mostrados... fazem isso.

Obrigado a todos que colaboraram... enviando links, comentários, imagens.

2015 de luz para nós e (NA) nossa sombra!