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18 outubro, 2014




Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar...

- Ana Luísa Amaral –








"... As reticências
são os primeiros passos
do pensamento que continua
por conta própria
o seu caminho."

Mário Quintana






"Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso..."


Mario Quintana



Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso



que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

- E. E. Cummings -





“(...) De vez em quando eu vou ficar esperando você
numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça,
então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você
e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou
ficar calado um tempo enorme. “

Caio Fernando Abreu 



Ginástica



Ah! Com que extremado esforço nos elevamos
acima de nós, para o inalcançável
e retornamos aos nossos limites,
e nos curvamos até o chão.

Vamos e voltamos, delicados e impetuosos,
disciplinando a força, dominando o equilíbrio,
atrelando à levitação do sonho
o peso do corpo, melancólico.

Discípulos da música, respiramos sua cadência,
e a nossa densidade parece-nos, de súbito,
transparência e cristalização.

Vamos e voltamos, inspirados e deleitosos,
e decerto quereríamos definitivamente ir:
mas o jogo é de ir e ficar.

- Cecília Meireles -






Pressa!


Ai de mim que tenho essa pressa,
Enevoada de um tempo que urge,
Ai de mim, que assim não vejo,
E se vejo é de relance, de passagem.

Ai de mim que sem raízes, vôo,
E sem chão não me assento,
Ai de mim que sobrevivo,
E assim não vivo, dou passagem.

Ai de mim que tudo me encanta,
Mas que tudo me passa,
Ai de mim se não florir agora,
É primavera lá fora, de passagem.

[Santaroza]








ALEGORIA DO DIA E DA NOITE


São dois cavalos de variado porte,
Cavalgando-os por sonhos, pesadelos,
Descubro o colorido de seus pêlos,
Atento aos pontos cardeais da morte.

Talvez ao branco, ao preto me reporte,
Levam-me (sem ouvir os meus apelos)
Aonde não sei. Quem poderá detê-los?
Assim talvez à ilha do sonho aporte.

Soam os dois quais músicas em dueto
E, ao vê-los, minhas lágrimas estanco,
Atos do herói que antes não fui – cometo,

Poemas de amor do coração arranco.
– Sou noite e morte no cavalo preto,
Sou dia e vida no cavalo branco.


Colombo de Souza
in Antologia Poética 












“Vivi, olhei, li, senti...
Terás então de ler de outra maneira,
Como, Não serve a mesma para todos,
cada um inventa a sua, a que lhe for própria,
há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir
mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem
que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a
corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar
à outra margem, a outra margem é que importa,
A não ser, A não ser , quê, A não ser que esses rios não tenham
duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela,
a sua própria margem,e que seja sua, e apenas sua,
a margem a que terá de chegar.”

José Saramago,
in A Caverna






Eu tenho cada vez mais menos respostas, mas também tenho cada vez
mais menos perguntas. Disso eu não duvido: tenho cada vez mais menos
certezas. Quanto mais o tempo passa, eu fico menos à vontade para
alimentar dores e com muito mais preguiça de sofrer. Quanto mais o
tempo passa, menos faço por onde adiantar
a morte, mais tento fazer por onde aproximar a vida.

[Trecho de "Simplesmente ser"-Ana Jácomo]




Hoje compartilho das insônias que me tomam alegre nessas vias escuras obscurecidas de luzes. Compartilho das insônicas como quem encontra as agonias de uma felicidade incontida no peito de quem se vê no amor dos prados. A dor daqui é tanta que dos olhos as fechaduras se esfarrapam em outonos desfolhados, verões de uma noite abrasada; e, sozinho, nesse canto noturno, qual ave despetalada, junto meus cacos: luzes, candelabros, querelas, calos, prantos, lírios, lava, vício, sorriso, asa... faço de tudo isso um vaso de mastros, elevo-me, vasto... e, triste ou indizível, sei comigo: sou feliz.
Carlos Tenreiro




Rumo ao sumo

Disfarça, tem gente olhando.
Uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

Paulo Leminski



.
SERENAMENTE
.
"Serenamente cruzo as mãos e espero

Pouco importa o vento, a maré ou o mar

Não me insurjo contra o tempo ou contra o destino

Porque o que é meu... às minhas mãos virá ... "

(A.D)

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VAIDADE...

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

(Florbela Espanca)


"Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis-me aqui.
Vivo."

Caio F. Abreu.




CANTIGA


A vida é linda,
mesmo doendo
nos desencontros
e despedidas,
mesmo sangrando
em malogrados,
áridos hortos,
searas maduras
de sofrimento.
Chegar ao porto
da vida finda
cantando sempre,
sonhando ainda.

Helena Kolody