Mostrando postagens com marcador Crítica e Clínica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica e Clínica. Mostrar todas as postagens

03 outubro, 2014




..............................................................

"O planeta Terra vive um período de intensas transformações
técnico-científicas, em contrapartida das quais engendram-se
fenômenos de desequilíbrios ecológicos que, se não forem
remediados, no limite, ameaçam a implantação da vida em sua
superfície. Paralelamente a tais perturbações, os modos de
vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de
uma progressiva deterioração. As redes de parentesco tendem
a se reduzir ao mínimo, a vida doméstica vem sendo
gangrenada pelo consumo da mídia, a vida familiar e conjugal
se encontra frequentemente "ossificada" por uma série de
padronização de comportamentos, as relações de vizinhança
são geralmente reduzidas a sua mais pobre expressão....

É a relação da subjetividade com sua exterioridade - seja ela
social, animal, vegetal, cósmica - que se encontra assim
comprometida numa espécie de movimento geral de implosão
e infantilização regressiva.

A alteridade tende a perder toda a aspereza.

O turismo, por exemplo, se resume quase sempre a uma
viagem sem sair do lugar, no seio das mesmas redundâncias
de imagens e de comportamento".

....................................................................

Essas são as primeiras palavras de
Félix Guattari em
AS TRÊS ECOLOGIAS".




06 setembro, 2014


FEV/2011

Recebi da amiga Witch e repasso, em vermelho.
O que respondi, está NESSA COR.

CTRL+C e CTRL+V

(Copiar e colar)

Onde "nada se cria, tudo se copia"! Hahahahahahahahahaha, só rindo.

Andei refletindo sobre o ato de postar. Cada pessoa possui um toque especial e é este o frescor que
faz a diferença. Mas torna difícil o ser diferente ou o ser original que vem dessa horrorosa cultura
do ctrl+c e ctrl+v

Pra mim, postar é doar carinho, é fazer um certo esforço pra deixar o post legal, é dividir coisas
bonitas com pessoas que por vezes nem conhecemos pessoalmente.

Costumo comentar os posts que me agradam. Mas algumas pessoas se tornam cada vez mais distantes
quando vejo que gostam de algo que levei um certo tempo pra elaborar, nada comentam e saem por aí
postando como se fossem feito por elas. Por vezes até minha simplicidade sai saracoteando. Basta
dar uma voltinha por aqui. Outras vezes, pior: fazem aquele remelexo danado passando o post de um para o outro.

Valha-me Deus! S O C O R R O!!! Cansei.

Não sou uma pessoa egoísta e acho que toda beleza deve ser divulgada, passada à frente, mas não
assim. Sinto compulsão em alguns... Sinto, em outros, uma doentia vontade em agradar... Por vezes,
também sinto uma certa frieza... Aff, estamos em um site de relacionamento!!!

Não to pedindo pra ninguém (re)inventar a roda, mas sim um certo carinho e ÉTICA
ao postar lembrando que:

"A banalização subestima a reflexão e a criatividade"






Meu desabafo foi incentivado por uma pessoa mais que real em minha vida. Obrigada!



Queridíssima.
Adorei seu post sobre copiar e colar,
com o qual concordo plenamente.

Penso que a banalização da qual fala
JÁ É fato mesmo e é possível vê-la:

1. No acúmulo de mensagens num mesmo dia,
por uma mesma pessoa, sem que
haja qualquer pergunta,
comentário ou resposta...

2. No envio constante, portanto, invariável
(ou quase invariável, o que nesse caso dá no mesmo)
de UM TIPO de postagem: ou só poesias, ou só assuntos
espirituais, ou só vídeos ou só imagens... enfim...

3. No envio "em massa" de scraps, algo que antes se fazia ver
pelo powerscrap e suas variações e hoje aparece como novo
e "mais prático" recurso do orkut com aquelas coisas
de "tantos participantes nessa conversa". Conversa...
kkkkkkkkkkkkkkkkk
Só se for consigo mesmo. Um monólogo egóico?
Já reparou que quase NUNCA há mais do que duas
ou tres respostas, mesmo quando foram enviadas
para mais de 50?

4. Na crescente moda do Facebook e Twitter...
que está roubando longas e queridas amizades, as quais
acabam quase desaparecendo do orkut
em função da nova onda.

5. Outros não citados... rs

Penso que esse seu desabafo,
como o chamou, é um sinal de alerta
que afirma que você não faz parte
dessa massa humana coisificada.

Também acho que, em Análise Institucional
se falaria usando esse termo, esse seu texto
é um "Analisador Espontâneo" (não criado) que
retrata uma outra série de banalizações que
se verificam, operam e repetem na vida dita virtual:
a tarja preta de luto nos perfis (dos enlutados),
a quase ausência de respostas, questionamentos
e comentários que acontecem na vida real das pessoas...
(tudo é muito natural -naturalização do cotidiano -
um SINTOMA fóbico da acriticidade contemporânea)...
e ainda muitos outros... com textos infantilizados e bobinhos
atravérs dos quais não há humor e nem devir criança...
só há... infantilização de adultos... algo como "adolo você".


=  APERTE O PLAY PARA OUVIR A MÚSICA



Fragmentos de Perfect Stranger - Deep Purple

Can you remember remember my name
As I flow through your life

cold spirits of ice

I am returning the echo of a point in time
Distant faces shine

And laughing as the spirits appear

You've got to understand
We must remain
Perfect Strangers

Manifesto básico em prol
de relações virtuais-reais num site
de relacionamentos: Orkut de verdade.

ABAIXO A BANALIZAÇÃO !!!

 





O Milagre Das Folhas

Clarice Lispector

"Estou andando pela rua
e do vento
me cai uma folha
exatamente nos cabelos.

A incidência da linha
de milhões de folhas
transformadas
em uma única,
e de milhões de pessoas
a incidência de reduzí-las
a mim.
Isso me acontece
tantas vezes
que passei a me considerar
modestamente
a escolhida das folhas.




Com gestos furtivos tiro
a folha dos cabelos
e guardo-a na bolsa,
como o mais
diminuto diamante.
Até que um dia,
abrindo a bolsa,
encontro entre os objetos
a folha seca,
engelhada, morta.
Jogo-a fora:
não me interessa
fetiche morto
como lembrança.

E também porque sei
que novas folhas
coincidirão comigo.

Um dia uma folha
me bateu nos cílios.
Achei Deus
de uma grande delicadeza."



05 setembro, 2014




"E aqueles que foram vistos dançando
foram julgados insanos por aqueles
que não podiam escutar a música."

________________Friedrich Nietzsche




17 agosto, 2014

Identidade, exposição e mídia


Estou usando este excelente texto no grupo "Clariciando a Pessoa". Com ele, estamos trabalhando os temas que dão nome a esta postagem.

Fragmentos de "Vontade de imagem e celebrização do cotidiano na tela."

"O mundano como espetáculo: como existir sem ser
visto?
[…] teatro doméstico que é a TV, no pequeno retângulo de vidro, esse pátio dos milagres onde uma imagem varre a anterior sem deixar vestígios, tudo em escala reduzida,
mesmo as emoções (Saramago, 2004).

Segundo Debord (1997), da sociedade industrial para a indústria da imagem, é construída a captura do mundano e do cotidiano das pessoas como coisas dignas de exibição, na qual receber o olhar do outro ou fazer ao modo daquele que olhamos movimenta o mercado das sensações, fazendo com que a vida
se torne espetáculo, na medida em que constitui relações sociais entre as pessoas mediadas pelas imagens.
Como aquilo que deve ser mostrado não se dá mais em prol do controle e da disciplina da sociedade, mas para o mercado da visibilidade, ser alvo do olhar do outro é o termômetro da existência: se sou visto, existo ou, como refere Freire Costa (2004, p.84), “apareça ou pereça”. Segundo este autor, na moral das sensações, o enigma não é temer ou adivinhar o que o outro quer, mas “explorar exaustivamente o corpo até torná-lo a ‘cera-mole’ prestes a encarnar qualquer ideal narcísico arbitrário inventado pela moda ou pelo entretenimento”. Diante da exigência de perfeição que se colocou no corpo em detrimento dos sentimentos, o indivíduo vive um permanente estado de insatisfação e receio quanto a sua própria imagem. Não pode se servir do seu passado para que saiba, com mais confiança e conforto, como ele deve ser para que o outro
o reconheça. Desta forma, para obter o reconhecimento imaginário da “moda-espetáculo”, acaba negociando o inegociável, ou seja, a vida ou o gozo, a identidade narcísica ou a homeostase física, o outro ou si mesmo.

Temos, aqui, um deslocamento: as estratégias privadas de existência passam a visar ao compartilhamento que se sustenta no mostrar mais do que no trocar. Sendo assim, a existência se torna o exercício da imagem nas coisas mais simples da vida, numa espécie de exibicionismo premeditado. A vida levada numa enorme
vitrine alimenta a exposição que nos tirou a possibilidade de dissimular a intimidade do olhar do outro, fazendo com que se equipare o que aparentamos ser com a identidade pessoal simplificada pelo
corporal. De tanta exposição, andamos todos perseguidos por um intruso olho que nos julga segundo a performance a ser cumprida.

Conforme Bauman (2001), este compartilhar de intimidades tende a ser o método preferido, e talvez o único que resta, de “construção da comunidade”. Ou seja, dependemos do espetáculo para confirmar que existimos e para nos orientar em meio a nossos semelhantes dos quais nos isolamos. Assim sendo, aquilo que se é não advém da multiplicidade de encontros da vida, mas de um trabalho publicitário pessoal em que a tela brilha, realça as cores, toma nossos olhos, embala nosso desejo e se oferece como alimento da vontade.
Entendemos a vontade como o embate de forças que incluem vários sentimentos: do estado de que nos afastamos, do estado para o qual tendemos e do movimento de afastar-se, bem como do tender e seu correspondente sentimento muscular (Giacóia, 2004). 

A vontade faz da sua diferença um objeto de afirmação, uma vez que a força é quem pode. É sempre pela vontade de poder que uma força entra em relação com outras e as domina ou as comanda. É por vontade de poder que uma força obedece, uma vez que é plástica e se afirma no múltiplo (Deleuze, s/da, p. 78).
Freire Costa (2004) chama atenção para o fato de que é nas variações da vontade que encontramos a nova axiologia dos padrões de normalidade. De um lado, o querer se apresenta como “mestre do corpo” e capaz de gerar transformações existenciais de toda ordem, bastando o sujeito ser suficientemente tenaz na
busca de seus objetos de desejo; por outro lado, um certo discurso acerca das causas orgânicas do comportamento humano isenta moralmente o sujeito ao identificar, nos azares genéticos, os limites
pessoais para exercer a plena vontade no domínio de seu corpo e de sua mente. Desde estas perspectivas, o sucesso é visto como mérito de uma vontade forte, mas o fracasso faz com que cada um se sinta “fisicamente doente”, estreitando sua possibilidade de relacionar a norma social ao seu sofrimento, uma vez que é no biológico que se coloca a causa de seu malogro.

Em tal contexto, o conceito nietzschiano de vontade de potência deixa de ser um princípio pelo qual a vida se projeta para além de si mesma para, ao contrário, colocar o sujeito diante de um espelho identitário, na medida em que “a tela da tv não oferece modelos a imitar, mas se oferece como espelho no qual acreditamos estar refletida nossa própria imagem” (Kehl & Bucci, 2004, p.8). Isto favorece a montagem do mundo das chamadas celebridades onde se existe para o vertiginoso exibicionismo e com a esperança
de visibilidade que dirige as escolhas de vida, seja para se “parecer com” ou “se ver em”.

A imagem outorga a si o poder de distribuir conceitos, redefinindo os ideais de felicidade em que o viver “como cada um bem entende” não é a promoção de vidas autônomas, mas o consumo das crenças que transitam no mundo das celebridades. Para Freire Costa (2004), a celebridade é a “autoridade do provisório”, em que se alia moda e tecnologia a serviço da “moral do entretenimento”. Tal moral se sustenta por pessoas que, idolatrando o momentâneo, desaparecem com ele depois de um apoteótico instante de visibilidade.
Este sucesso independe de seus talentos, uma vez que o fundamental é o potencial de entreter e, assim, não só os objetos, mas as identidades cumprem uma efêmera função de fazer de toda a vida um entretenimento."

Carmen Silveira de Oliveira & Maria Célia Detoni

27 abril, 2012

Rush - Entre Nous ou sobre estar junto (s) E separado (s)



Um grande, lindo e desafiador paradoxo: uma dialógica das relações contemporâneas.


 


Entre Nous

We are secrets to each other
Each one's life a novel
No-one else has read
Even joined in bonds of love
We're linked to one another
By such slender threads

We are planets to each other
Drifting in our orbits
To a brief eclipse
Each of us a world apart
Alone and yet together
Like two passing ships
Just between us
I think it's time for us to recognize
The differences we sometimes feared to show
Just between us
I think it's time for us to realize
The spaces in between
Leave room
For you and I to grow

We are strangers to each other
Full of sliding panels
An illusion show
Acting well-rehearsed routines
Or playing from the heart?
It's hard for one to know

We are islands to each other
Building hopeful bridges
On the troubled sea
Some are burned or swept away
Some we would not choose
But we're not always free

...............................................................

Entre nós

Nós somos um mistério um para o outro
Cada vida um livro
Que ninguém teve chance de ler
E mesmo unidos nos laços do amor
Estamos ligados um ao outro
Por um fio tão delicado

Nós somos como planetas um para o outro
Girando em nossas órbitas
Para um breve eclipse
Cada um de nós é um mundo à parte
Solitários e ainda juntos
Como dois barcos que se cruzam

Aqui entre nós
Eu acho que já é tempo de reconhecermos
Que, às vezes, temos medo de mostrar nossas diferenças
Aqui entre nós
Eu acho que já é tempo de percebermos
Que os espaços no meio de nós
Devem ser compreendidos
Para eu e você crescermos

Nós somos como estranhos um para o outro
Cheios de situações mutáveis
Num show de ilusão
Encenando rotinas bem ensaiadas
Ou apenas jogando com o coração?
Isso é algo difícil de alguém saber

Nós somos como ilhas um para o outro
Construindo pontes de esperança
Num mar agitado
Algumas pontes foram queimadas ou devastadas
E outras nós não escolhemos
Mas disso, nunca estaremos livres


22 abril, 2012

Eu alquimista de mim, por Clarice Lispector, ou sobre a filosofia do bambu



nome da imagem: baboo texture

Eu alquimista de mim...

Eu, alquimista de mim mesmo.
Sou um homem que se devora?
Nao, é que vivo em eterna mutação,
com novas adaptações a meu renovado
viver e nunca chego ao fim de cada
um dos meus modos de existir.
Vivo de esboços não acabados e vacilantes.
Mas equilibro-me como posso
entre mim e eu,
entre mim e os homens,
entre mim e o Deus.

Clarice Lispector


 


Por ter raízes profundas, o bambu chinês consegue enfrentar uma tempestade sem se quebrar. 

A semente do bambu quando plantada, não desabrocha rapidamente para fora da terra. Ela tem o seu crescimento no subterrâneo durante quatro anos, e fica para fora da terra somente um broto muito pequeno. 

Durante esses quatro anos, a raiz cresce e torna-se forte, procura formar um alicerce cada vez mais forte, coloca as raízes na direção onde consiga mais água e substancias que irão fazer com que cresça. 

Ao fim do quarto ano, o broto começa a desenvolver-se e é capaz de atingir 25 metros num ano, o mesmo comprimento que têm as suas raízes. Ele torna-se alto, fino e oco por dentro e por causa destas características, consegue enfrentar uma tempestade ao dobrar-se perante os ventos fortes. 

Porque falo do bambu chinês? 

O ser humano está cada vez mais imediatista e quer que as coisas aconteçam num piscar de olhos como se fosse esfregar a lâmpada maravilhosa de Aladino e tudo aparecer! 

O bambu ensina-nos que, para se atingir lugares cada vez mais altos, é preciso primeiro fazer os alicerces buscando a formação, tanto espiritual como profissional, e direcionar as nossas “raízes” para os objetivos. 

Podemos aprender também que, assim como a semente do bambu chinês leva quatro anos a criar o seu “alicerce” para depois no quinto ano crescer para o alto, as coisas não acontecem de um dia para o outro, são precisas semanas, meses ou até anos para se ver algum resultado e entender que as oportunidades de sucesso aumentam quando cuidamos bem do “broto do bambu”. 

Ao agir assim, o quinto ano chegará e muitos vão dizer que é sorte ou que alguém ajudou. Na verdade as pessoas dizem isto porque não acompanharam o crescimento das “raízes”. 

Há mais dois ensinamentos a que devemos prestar atenção! 

Primeiro ensinamento: quando digo que o bambu é oco, não estou a querer falar do conteúdo, já que este está nas raízes que demoraram quatro anos para crescer. Oco, no ensinamento do bambu, quer dizer uma pessoa flexível que consegue pensar diferente, livre de rancores e ressentimentos que apenas atrapalham a renovação constante do ser. 

O segundo ensinamento é que por o tronco ser alto (bem preparado), oco (flexível, sem rancores e ressentimentos) e ter raízes profundas (ter conhecimentos e uma boa conduta ética) o bambu consegue enfrentar uma tempestade sem se quebrar. 

Vamos refletir sobre isto com a epígrafe da semana: 
Qualquer árvore que queira tocar os céus, precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos. 
(Carl Gustav Jung) 


......................................................................

Acredito que "a vida das coisas" determina ritmos, tempos 
e até mesmo espaços de adaptação: eventos, situações, 
pequenas e grandes tragédias que acontecem na nossa vida... 
nos forçam, convidam, estimulam a buscar
novas formas de adaptação.

Penso que em muitas situações é preciso mesmo ter raízes profundas,
gestadas pela passagem do tempo, para se recompor e redefinir 
estratégias de vida e de sobrevivência. 
Acontece, por exemplo, quando alguém que gostamos, amamos...
nos é tirado e o perdemos, seja pela morte, seja pela vida.
Pessoas que se vão... e nos deixam num vazio...
Um vazio oco que está preenchido de experiências
e de cotidianos e de afetos e de conversas e de
companhia que não vão se repetir...
Achamos que vamos morrer também
- tamanha a sensação de término, dor e perda -
para, depois, descobrirmos que podemos sobreviver...
e, mais adiante ainda, descobrirmos que podemos
viver (já não sei se nessa sequencia linear 
 (primeiro uma coisa e depois a outra, já que, por vezes, 
esses estados podem estar sobrepostos, ou seja, 
sobrevivemos e vivemos ao mesmo tempo)!

A analogia com o bamboo e seu desenvolvimento é muito rica e está 
bem expressa no texto acima, de autoria de Maria Luisa Albuquerque.


No entanto, penso que até mesmo de ressentimentos, mágoas e frustrações 
(re) criamos ações adaptativas, já que elas podem ser fonte de 
novas e inéditas posturas em relação aos fatos e acontecimentos 
com os quais vamos nos deparando; nos confrontando...


Penso que há situações em que as raízes nascem espontânea e 
rapidamente, acontecimentos que tem sabor de tempestade e que 
convocam a ações imediatas (não necessariamente imediatistas):

o ônibus que não parou na parada e nos deixa mais meia hora esperando; 
a faxineira que não veio e nos deixou com a casa suja e empoeirada 
por mais um período de tempo; o livro que queremos reler ou que tem aquela citação 
que queremos colocar num post; a irritação que nos abraça quando 
vemos mais fotos de animais do que de pessoas no dia-a-dia do Facebook; 
o grande incômodo que sentimos quando vemos, constatamos 
e somos afrontados com a crescente banalização dos vínculos, afetos 
e formas de comunicação que estão em expansão na sociedade líquida
(Zigmunt Bauman); a chuva que chega sem aviso, inesperada e violentamente, 
nos deixando molhados ou trancados... à espera de que passe... 
dentre outras tantas possibilidades inesperadas.

Também acontece que temos hábitos formados por raízes profundas, 
gerados e repetidos por anos e anos...
esses são muito difíceis - mas não impossíveis - de serem 
mudados: eles podem ser um desafio ao surgimento de oscilações 
no caule do nosso bambu: ventos que sopraram com força e intensidade variáveis 
e que nos desafiam à busca de um novo equilíbrio, aqui entendido não como um 
número que está no meio de zero e cem...

Assim, as raízes são fundamentais para que nos sintamos fortes, seguros e com meios para podermos nos adaptar com flexibilidade, oscilando entre diferentes lados para manter a estabilidade e as nossas condições de existência. São, também, elas, as raízes... fundamento para repetirmos velhos e arcaicos padrões de adaptabilidade, negando-nos às possibilidades de nos dobrarmos às 
circunstâncias que vão aparecendo...

Manter as raízes é uma necessidade.
Arrancar as raízes, também.
Semear (e esperar) novas raízes, também.

E aqui repito um tema já comum em outras postagens:

Raízes no chão e asas no céu.
Raízes no céu e asas no chão.

Ao hipotético leitor desse post quero dizer:
Seja conforme.
Seja disforme (deforme: que perdeu a forma própria, ou quem sabe, a fôrma própria).
Seja informe (sem forma)!
Simultaneamente!

Um alquimista...



12 outubro, 2011

A invenção da infância, por Juremir Machado da Silva e sobre os processos de infantilização


A infância é uma invenção recente. O amor materno universal, instintivo e intemporal é um mito. Ideias como essas saltam das páginas de dois grandes livros, "História Social da Criança e da Família", de Philippe Ariès, um dos maiores historiadores do século XX, e "Um Amor Conquistado - O Mito do Amor Materno", da historiadora Elisabeth Badinter. Até o século XIX, as crianças eram tratadas como adultos em miniatura. Até o século XVIII, logo depois do nascimento, as crianças eram separadas das mães e criadas até certa idade por amas. Ariès e Badinter não pretenderam com seus estudos relativizar a importância da infância ou do amor materno. Buscaram mostrar que tomamos por natural, com frequência, aquilo que é cultural. Ariès diz que "um homem do século XVI ou XVII ficaria espantado com as exigências de identidade civil a que nós submetemos com naturalidade". O sobrenome é uma invenção da Idade Média. O próprio homem, como o entendemos hoje, é, conforme a fórmula consagrada pelo filósofo maior Michel Foucault, uma invenção recente, cujo fim talvez também esteja próximo.

Delírios? Bobagens? Afirmações incompreensíveis? Não. Usemos o cérebro, que é feito para isso, embora tenha cada vez menos uso, assim com o crânio nesta época sem chapéus. No passado não muito distante, homens de 30 anos ou mais casavam-se com meninas de 12 ou 13 anos de idade. Hoje, com a nova visão da infância, isso daria cadeia por pedofilia. Nunca a infância foi tão valorizada e protegida. Paradoxalmente as meninas são erotizadas precocemente. Vestem-se como adultas sexy em miniatura. A infância está, ao mesmo tempo, mais longa e mais curta. A adolescência, outra invenção recente, não para de ser alongada. O projeto de lei da meia-entrada para jovens de até 29 anos consagra no Brasil um novo limite para a entrada na idade adulta. A infância agora vai até os 17 anos. A adolescência até os 29. A idade adulta está reduzida ao intervalo dos 30 aos 59 anos de idade. Depois, começa a terceira idade. O tempo se renova. É uma pizza fatiada ao gosto dos fregueses de cada época.

O apego aos bebês nunca foi tão grande. Só comparado ao apego aos cachorros de estimação. Ao mesmo tempo, algumas mulheres sentem-se travadas na sua liberdade profissional, sexual ou existencial pelos filhos e, quando não os rejeitam, entregam-nos às novas amas, as babás, que, ao contrário de antigamente, precisam estar muito próximas, ao alcance da mão, para que a mãe possa viver instantes fugazes de intensa maternidade. Para onde vamos? Será que a idade adulta vai desaparecer? Passaremos da adolescência diretamente para a terceira idade? Quem está certo? Badinter lembra que até o grande Freud se enganou muito, pintando o homem como ativo e a mulher como "passiva, masoquista, distribuidora de amor no lar e capaz de secundar o marido com devotamento". Um bom machista do seu tempo tentando ser objetivamente científico. Badinter garante que o devotamento exclusivo e total da mulher acabou, assim como o dogma da necessidade de uma referência masculina e outra feminina para a criança. Estamos na época da divisão das tarefas e da fusão dos papéis. Confusão ou emancipação? História.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

......................................................

Acrescento às palavras de Juremir, que mais uma vez funcionou como porta-voz de idéias e pensamentos que tenho, uma opinião de Felix Guattari, com a qual concordo plenamente. Ele diz que as crianças não são infantis:  os adultos é que são infantis. O comportamento nas redes sociais bem o demonstram: fotos e imagens de super-heróis  remetendo à infância, uma forma de apropriação midiática que toma conta das tentativas de expressão daquilo que as crianças possuem em profusão: curiosidade, facilidade de aprendizagem, capacidade de se espantar com o novo, desejo ardente de vida e de auto-expressão, bem como intensa capacidade de resistir aos modelos e modos de comportamento exigidos pelos adultos.
Quem já não viu uma criança torcer o nariz, fazer uma careta ou francamente virar as costas para uma pessoa que lhe é completamente desconhecida ou com quem não tem a mínima intimidade como resposta a uma solicitação de um adulto de que diga oi ou dê um beijinho... no tal estranho, conhecido ou amigo do referido adulto?


Segundo Guattari, o processos de infantilização começa mesmo na tenra infância quando se decide pela criança o que e como ela deve gostar, se comportar e enfim, quando se toma as decisões dela por ela.


No que concerne aos adultos infantilizados, os processos se dão de maneira semelhante, ou seja, alguém decide por "nós" o que devemos fazer e como nos comportar: o estado, a ligação do call center que oferece sempre produtos inéditos para o nosso bem estar, qualidade de vida e segurança, os médicos e profissionais liberais e consultores de todos os tipos, os bancos e o sistema financeiro, o condomínio, as entidades de classe, o motorista de ônibus que para fora da parada e quer que venhamos ao encontro de onde ele estacionou - sem reclamar, discutir ou questionar... enfim, a lista é longa.


O que esses procedimentos que caracterizam os ditos processos de infantilização têm em comum é a tentativa de naturalizar o que não é natural, de individualizar o que é coletivo, de banalizar o que é questionável, ridicularizar o que foge à regre instituida, massificar e inscrever em referências gerais e generalizantes aquilo que é singular, ou, pior, aquilo que tenta sê-lo.
Assim, o que acontece é que o devir criança, mulher e outros devires sociais minoritários (de minorias) vão perdendo capacidade de expressão.
O devir criança, sempre é bom lembrar, nada tem a ver com imitar a criança, se vestir de criança ou se fantasiar com roupas e comportamentos assim chamados "de criança".
Supor, por exemplo, que as crianças são puras e anjinhos é tão ilusório como acreditar na existência de "caras-metade" com as quais devemos nos casar - quando as acharmos - para vivermos felizes para sempre.


Só para citar duas e bem distintas  "áreas do conhecimento", a psicanálise e o espiritismo... nos mostram e ensinam que as crianças não tem nada de anjinhos e que, decididamente não são puras.
Oh sim, elas podem estar com expressões de pureza e ostentar um ar ingênuo; podem até mesmo SER puras em algumas situações, mas, daí a generalizar... não dá, mesmo!
Mas esse ar de pureza e de ingenuidade também é visto em rostos adultos, adolescentes e idosos.
Então?
São expressões do devir e nada tem a ver com as questões da idade cronológica dita como pertencente a infância e nem com a de identidade.


Então, nesse dia da criança,   a minha "homenagem" a todos-de-qualquer-idade- que escapam, mesmo que eventualmente, aos processos de infantilização e que buscam fugir, evitar, romper, desviar de todos esses modos de padronização dos jeitos de viver a própria vida: a todos que tentam singularizar.


Cesar Ricardo Koefender

14 agosto, 2011

As invasões bárbaras ou sobre como somos reiteradamente convidados (SENÃO FORÇADOS) a pensar como os outros querem




"A tarefa do intelectual é dizer não ao espírito de rebanho. 
Cabe-lhe contrariar o senso comum. A tarefa do político é buscar 
novos caminhos que contrariem o conformismo".


Juremir Machado da Silva, em Jornal
(Correio do Povo,13/8/2011 



O título dessa postagem, as invasões bárbaras, tomado emprestado do maravilhoso filme homônimo (trailer no final do post) - que é a continuidade do também maravilhoso "o declínio do império americano" , ambos do diretor Denys Arcand - remete a uma variação atual do que se pode chamar como "ditadura do pensamento de direita", ou seja, um tipo de prática disseminada na mídia e nos comportamentos cotidianos que se caracteriza pelo modo  linear, cartesiano e produtivista, já que rejeita a crítica, a discordância e a desobediência e propõe a adaptação SEMPRE CRIATIVA aos desafios da vida.
Nesse sentido, encontramos as novas tecnologias da passividade (que induzem à passividade - disfarçada de resiliência e dissimilada com a idéia de aguentar firme e não reagir e, especialmente não resistir, com... outros modos de comportamento) e as novos discursos operacionais que buscam o compromisso das pessoas com a produção e a reprodução dos e das formas predominantes de agir, pensar, trabalhar. Viver. 


As invasões bárbaras, como uso o termo aqui, refere-se ao massacre cotidiano a que somos submetidos quando abrimos o email e o jornal que lemos. São textos e matérias, PPSs e todo o tipo de mensagem positivista que induzem a pensar sem raciocinio crítico e que buscam a repetição dos modos operantes e dominantes de utilizar o pensamento, através da repetição tanto dos conteúdos quanto das formas de apresentação em que "são embalados".
Não bastasse isso, ainda há uma espécie de produção de um modo de consciência ingênua que prega a "crítica pela crítica" , ou seja, que relativisa o conteúdo de modo a "deixar passar" aquilo que nele poderia ser fonte de outras formas de pensar e agir.
Ainda está embutida, nesse tipo de engodo, a idéia de que a crítica-por-si-só é sinônimo de criticidade, ou seja, do uso do pensamento crítico como ferramenta de conhecimento, elaboraçõao de hipóteses e confronto de idéias contrárias, algo inerente ao próprio livre pensar e a produção de conhecimento.
Fica em mim uma sensação de mal-estar e de constante estranhamento, como se eu fosse alguém "fora do mundo" - apesar de estar completamente nele.
Fica essa sensação de que subestimam a minha capacidade de raciocinar, de discordar, de avaliar e julgar com premissas e conceitos e sensibilidades diferentes das que eles impõe.
Não bastasse isso, ainda vêm com a assintura de Ph.Ds, tecnólogos do aprimoramento de pessoas e de "gestão de pessoas" e coisas afins.
Que cansaço e que tédio me dá isso!


Na contramão disso tudo, já que há Doutores (comuns e unificados) e doutores (singularizando e diferenciando seu saber e as formas de expressá lo e dele se utilizar), há, no mesmo jornal que lemos, uma atmosfera diferenciada (aqui experessa na citação de Juremir Machado da Silva, acima) que aponta que outros jeitos possíveis de "ser estar" no mundo e na vida... estão ao nosso alcançe... com raciocínio crítico, criticidade e resistência a esses modos de produção "de rebanhos": massas não pensantes que vivem como bois e vacas, olhando para o chão e ruminando "o mesmo" de todos os dias.


Assim sendo, reitero a sensação que estou fora do mundo, DESSE MUNDO de que falam os textos, em azul, abaixo: e esse estranhamento me é muito bom! sentir!


Parte desse estranhamento vem com o que estou escrevendo aqui e, parte, com o fato de eu não ter ido ao google para ver quem são e o que fazem os autores (todos com reconhecimeto profissional e valorizados pelos seus fazeres profissionais) dos textos em azul: o que eles escreveram já me basta para VER o quão distante e discordante deles eu me sinto, posiciono e vejo.
Defendo o raciocínio crítico, a impessoalidade e a capacidade de discordar e questionar como elementos componentes da "minha esquerda" (Edgar Morin) e do meu modo de ser na vida.
Não que essas invasões bárbaras não me afetem...

...................

"Resiliência é o termo que descreve as forças psicológicas e 
biológicas que nos permitem superar com sucesso as mudanças 
ocorridas na vida e a nos sentir mais preparados para enfrentar 
desafios futuros. É o que nos ajuda a lidar melhor com situações 
estressantes, pois é preciso que os processos fisiológicos do 
corpo humano, ativados pelo stress, funcionem bem nas mais 
diversas situações. Afinal, a resistência às mudanças é um 
fenômeno universal. Agindo de forma resiliente, conseguimos fazer 
com que o stress seja uma força a nosso favor e não contra nós".
(Correio do povo, 14/08/2011)

Palavras de Jorgi Matias Lima, palestrante e instrutora de cursos 
nas áreas de Gestão de Equipes, Liderança e Coaching, tema 
abordado nos workshop que realiza em empresas de todo o Brasil e, 
no RS, com a Universidade Feevale.

Vejam bem: nosso corpo e suas funções fisiológicas precisam ser bem submetidas aos interesses da produtividade e do forçado bem estar para enfrentar os estresses da vida: um outra maneira e mais atual de mostrar que os "corpos dóceis" (Foucauld) da sociedade disciplinar sobrevivem na sociedade de controle (Foucauld e Deleuze).
Já não podemos sofrer e PRECISAMOS enfrentar o estresse de peito aberto, vontade inquestionável de subvertê-lo e, ainda, ficar bem o tempo todo.
Ora, aqui se pode pensar a resiliência como "o cuidado de si", como nos disse Foucauld, mas, agora sim, de um jeito muito diferente...

........................


Resiliência em dez dicas


Um profissional resiliente, quando submetido a situação de 
estresse, a administrará de maneira sensata, sem impulsividade, 
visualizando o problema como um todo. Essa capacidade certamente 
lhe propocionará forças para enfrentar a adversidade e o tornará 
capaz de apresentar soluções criativas e eficazes.


A boa notícia é que todos nós podemos nos tornar resilientes. 
Seguem algumas dicas:


• Mentalize seu projeto de vida, mesmo que ele não possa ser 
colocado em prática imediatamente. Sonhar com seu projeto é 
confortante e reduz a ansiedade;


• Pratique esportes e métodos de relaxamento e meditação para 
aumentar o ânimo e a disposição. Os exercícios aumentam o nível de 
endorfinas, hormônios que proporcionam sensação de bem-estar;


• Procure manter o lar em harmonia, pois este é o "ponto de apoio” 
para recuperar-se;


• Aproveite parte do tempo para ampliar os conhecimentos, pois 
isso aumenta a autoconfiança;


• Transforme-se em um otimista em potencial;


• Assuma riscos (tenha coragem);


• Apure o senso de humor (desarme os pessimistas);


• Separe bem quem você é do que você faz;


• Use a criatividade para quebrar a rotina;
• Permita-se sentir dor, recuar e, às vezes, flexbilizar para em 
seguida retornar ao estado original.


Lembre-se, resiliência é a arte de transformar toda energia de um 
problema em uma solução criativa.


Destaque-se, seja resiliente!
Leonardo Soares Grapeia

......................

Resista A Necessidade de Criticar
(Richard Carlson, Ph.D.)


Quando julgamos ou criticamos outra pessoa, não são os seus 
defeitos que estamos denunciando, mas o nosso: a nossa necessidade 
de sermos críticos.
Se você costuma ir a encontros e ouvir críticas que normalmente 
são levantadas em relação ao comportamento de outros, e depois vai 
para casa e pensa a respeito do bem que essa prática fará para a 
tentativa de tornarmos este mundo um lugar melhor, provavelmente 
chegará à mesma conclusão que eu: Zero ! Nenhum bem. 


E não é só isso. 
A crítica não só não resolve nada, como contribui para a irritação 
e a desconfiança em relação ao nosso mundo.
Afinal, ninguém de nós gosta de ser criticado. Nossa relação 
normal à crítica é nos tornarmos defensivos ou desencorajados. Uma 
pessoa que se sinta atacada,  normalmente tem duas reações: ou 
retrocederá, por medo ou vergonha, ou atacará e irromperá em 
raiva. Quantas vezes você criticou alguém e ouviu a seguinte 
resposta: " Muito obrigado por apontar minhas falhas, eu realmente 
apreciei sua contribuição?"


A crítica, como xingamento, nada mais é que um péssimo hábito. É 
algo que nos acostumamos a fazer: somos íntimos da sensação. É 
algo que nos mantém ocupados e nos fornece assunto para conversas.


Se, no entanto, você ocupar um minuto observando de como realmente 
se sente logo após criticar alguém, perceberá que fica um pouco 
abatido e envergonhado, um pouco como se fosse você a pessoa 
atacada. O motivo dessa sensação é que ao criticarmos, fazemos uma 
declaração ao mundo e para nós mesmos: " Preciso ser crítico ". 


Não é algo que tenhamos em orgulho em admitir.


A solução é perceber o momento em que estamos sendo críticos. 


Perceba quantas vezes você costuma ser crítico e como se sente 
mal. O que eu gosto de fazer é transformar tudo num jogo.  Eu 
ainda me pego no ato de ser crítico, mas quando sinto o sentimento 
aflorando, tento me lembrar, dizendo "Aí vou eu , de novo ". 
Por sorte, consigo transformar, na maior parte das vezes, minha 
crítica em tolerância. 

Isso aqui me deixou tão anestesiado que nem consigo escrever nada.
O texto fala por si só e, vejam, como há uma concepção negativa da criticidade 
e como ela é pessoalizada e transformada em "ferramenta do mal", 
já que visa destruir e não des-cons-tru-ir. 


Finalizando: 

“... estamos sendo, sem medo de gastar este
sentimento infinito de ondas do mar...” 
Clarice Lispector
.....................





Por mais que se tente dizer o que se vê, 
o que se vê jamais reside no que se diz.
M. Foucault


A pintura é poesia silenciosa, 
e a poesia, pintura que fala.
Simónides de Ceos

Video trailer: As Invasões Bárbaras


01 abril, 2011

Repercussões das declarações do deputado, ou sobre preconceito, auto-exame e informação e conhecoimento





As declarações do De(s)pu(do)-t-(r)ado Bolsonaro* dão pano pra 
manga.
Mais do que discutir ou comentar declarações infames desse citado 
homem Público, sim, são declarações preconceituosas, quero falar 
sobre essa grande prática disseminada em TODOS os cantos do 
planeta. 

Pelo começo.
O que é preconceito?

Preconceito wikipédia:

De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma 
generalização superficial, chamada "estereótipo". Exemplos: "todos 
os alemães são prepotentes", "os americanos formaram grandes 
grupos arrogantes", "todos os ingleses são frios". Observar 
características comuns a grupos são consideradas preconceituosas 
quando entrarem para o campo da agressividade ou da discriminação, 
caso contrário reparar em características sociais, culturais ou 
mesmo de ordem física por si só não representam preconceito, elas 
podem estar denotando apenas costumes, modos de determinados 
grupos ou mesmo a aparência de povos de determinadas regiões, pura 
e simplesmente como forma ilustrativa ou educativa.

Observa-se então que, pela superficialidade ou pela estereotipia, 
o preconceito é um erro. Entretanto, trata-se de um erro que faz 
parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou seja ele tem 
uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento 
fundamentado num argumento ou raciocínio.

Aurélio:

preconceito . [De pre- + conceito.] S. m. 1. Conceito ou opinião 
formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos 
fatos; idéia preconcebida. 2. Julgamento ou opinião formada sem se 
levar em conta o fato que os conteste; prejuízo. 3. P. ext. 
Superstição, crendice; prejuízo. 4. P. ext. Suspeita, 
intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, 
religiões, etc.: O preconceito racial é indigno do ser humano.

Michaelis:

1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos 
adequados. 2 Opinião ou sentimento desfavorável, concebido 
antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3 
Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se 
pratiquem. 4 Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada 
em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou 
antipatia para com indivíduos ou grupos. P. de classe: atitudes 
discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe 
social. P. racial: manifestação hostil ou desprezo contra 
indivíduos ou povos de outras raças. P. religioso: intolerância 
manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões.

Assim, antes de mais nada e para ficar bem definido, parto da 
idéia de que TODOS os seres humanos tem preconceitos. Isso me 
parece inquestionável. 
Assim como também me parece inquestionável que TODOS os seres 
humanos possuem ALGUM tipo de preconceito e não TODOS eles.

Como vimos acima, se as idéias preconcebidas (eu gosto muito de 
separar o prefixo, assim: pré-concebidas) são baseadas em 
superstição, crendice e idéias de referências e em falta de 
informação e/ou ignorância, cabe algumas perguntas:

- Como podemos nos livrar deles?
- Como abrir mão daquilo que está pré, ou seja, antes, do 
conceito?
- Como deixar de só julgar...mas perceber e se afetar por idéias e 
conceitos que já definiram o que está sendo?
- Como descobrir quais são os nossos preconceitos?
- Como discutir os preconceitos do outro e tentar revertê-los para 
que sejam novos conceitos para ele?

Todas essas perguntas então interligadas e transversalizadas por 
questão múltiplas que dificultam as respostas e, mesmo que queira 
comentar sobre isso, não tenho a prepotência de respondê-las todas 
e "fechar a questão" do preconceito, até porque esta é uma questão 
que está sempre em aberto.

Uma das respostas: Educação!

Outra: questionamento.
Outra: contextualização.
Outra: auto exame profundo e permanente: auto-conhecimento.
Outra: informação e raciocínio crítico.
Outra: flexibilidade.
Outra: saúde (mental).
Outra: aprender a compartilhar, discutir e confrontar
desnaturalizando o cotidiano..

Assim como as perguntas, as respostas também estão interligadas e 
transversalizadas por múltiplos fatores, o que caracteriza sua 
complexidade... e a consequente dificuldade em "dar conta" da 
temática.

Contextualizando as palavras do despudorado deputado e exercitando 
o questionamento de valores de referência e sua práticas:

Ter funcionários negros e/ou um cunhado negro (essa palavra já é, em 
si própria, um representante do preconceito... já que "negro" tem 
conotações pejorativas, ligadas social e historicamente à 
exploração da imagem, da pobreza e ligadas ao trabalho escravo, 
bem como a uma suposta e historicamente produzida supremacia  e 
superioridade dos "de pele clara") ou afro-descendentes (uma 
palavra recente que visa combater institucionalmente o 
preconceito) NÃO É INDÍCIO de falta ou superação do preconceito 
racial.

O deputado disse: 
-"Meu filho namora quem quiser, desde que não seja um homem."

Ora, faltava só ele dizer que seu filho namora quem quiser, desde 
que não seja negra (se dissesse negro, seriam DOIS preconceitos).

Acho que ele não tem "peito" para explicitar os dois 
concomitantemente (já que ele poderia namor qualquer MULHER, desde 
que ela não tivesse o comportamento da preta Gil - e aqui está a 
dissimulação do preconceito, na medida que se drigige para outro 
objeto, o comportamento dela e não sua negritude).

As expressões "bitoquinha em macho", "ativo e passivo", "joga nas 
duas" e gayzinho", veja abaixo, já falam por si só, baste ter 
olhos de ... Ver. 

Sobre o Kit escolar contra a homofobia, cabe dizer algumas coisas:
Informação, educação, conhecimento e contextualização são 
fundamentais para combater preconceitos. Assim, informar as 
crianças e adolescentes sobre bissexualidade, transexualidade e 
homossexualidade é o mesmo que também discutir gênero, 
conjugalidade, casamento, direitos civis, relçaões estáveis, laços 
afetivos,  homoafetividade e homoerotismo (por que não existe a 
expressão heteroafetividade e heteroeroticidade?). Ou seja, é 
fazer uma discussão sobre SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS.
Abordar esses temas nas escolas é colocar em discussão a 
supremacia do masculino sobre o feminino - a chamada hegemonia 
masculina, que tem algumas outras postagens nesse blog); é a
possibilidade de conhecer que não existe só uma ou duas formas de 
viver a própria sexualidade e a identidade de gênero; é também 
abrir as portas para que se possa falar sobre as diferenças em 
relação aos própios heterosexuais, que 
NÃO PENSAM, NÃO DESEJAM,
NÃO FANTASIAM, NÃO VIVEM O PRÓPRIO CORPO 
E NÃO TEM CARACTERÍSTICAS 
PSÍQUICAS IGUAIS ENTRE SI, sejam homens (meninos, garotos) ou 
mulheres (meninas, garotas).

Freud já nos ensinou que a vida sexuada e sexual (no sentido não 
genital) já começa nos primeiros dias de vida!
Ora, e é na primeiira infância e na adolescência, 
com as mudanças hormonais e a chegada das "características sexuais 
secundárias" que a identidade de gênero se desenvolve, cria 
materialidade e se concretiza (não que ela esteja definitivamente 
pronta e seja imutável para o resto da vida).

Deleuze e Guattari nos ensinam que existem tantas formas de ser 
homem e de ser mulher quanto são o número de pessoas que habitam 
esse planeta!
Ou seja, mesmo entre os heterosexuais existem milhões de 
diferenças.
Óbvio.
Por que seria diferente entre os homoafetivos e 
cia?

Aqui um parênteses: claro que tenho minhas dúvidas de que a 
maioria dos professores consigam fazer esse trabalho de forma, por 
assim dizer, imparcial, ou dito de outra forma, sem sucunmbir aos 
próprios preconceitos. A condição salarial - de trabalho - e de 
auto-estima profissional dos professores também atravessa suas 
práticas, condições de estudo, aprimoramento pessoal e 
autoconhecimento.

Já que TODOS possuem algum preconceito, certamente falar desses 
temas significa estar mechido, afetado, instigado, estimulado a 
observar a própria sexualidade e os próprios valores. Uma tarefa 
nem sempre fácil e da qual não se sai incólume. 

Mesmo entre os profissioanis da Psicologia (minha área) e da 
Psiquiatria e de outras formações em saúde (médicos de todoas as 
especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas, por exemplo) 
encontro desinformação, desconhecimento e preconceitos. Muitos não 
tem a mínima idéia, por exemplo, de como um transexual ou um homossexual vive sua 
relação com o corpo, suas fantasias sexuais, sua percepão 
identitária, suas relaçãos de identificação com os pais, pai e mãe 
ou figuras substitutas; de como vive sua própria percepção de 
diferença (dos outros, meninos e meninas, "dominantes").
E detalhe: não que TODOS tenham que saber TUDO ...
Evidente.

Quero dizer, com isso, que existe, mesmo entre os profissioinais 
da saúde, um grande e importante despreparo para lidar, abordar, 
entender, conhecer a realidade em pauta. Por que com os 
professores seria diferente? Ou mais fácil estar preparado?

Voltando às declarações do deputado des-infor-mado...

Informar-se, conhecer, estudar, enfim... sobre os temas que compõe 
o kit a ser apresentado aos alunos NÃO ESTIMULA HOMESSEXUALISMO, 
TRANSEXUALISMO E BIXESSUALIDADE.

Dizer isso é o mesmo que dizer que quem estuda o catolicismo vai 
ser estimulado a ser catáolico e mudar de religião, supondo-se que 
o estudante fosse, por exemplo, espírita, evangélico, budista. Ateu.

Também é o mesmo que dizer que quem estuda medicina fica doente e 
desenvolve, senão todos, muitos dos sintomas que estuda.
E assim, pateticamente, pode-se fazer cogitações que variam ao 
infinito.
Ora, ora, ora...

Mais um parenteses: claro que o estudo (e a prática) religioso (a) 
é censurado (a) e combatido (a) em muitos países.
Por exemplo, na Índia e na Indonéia (isso sem falar nos países 
muçulmanos - que estão desabando nos seus governos), países de 
maioria não cristã ( leia-se aqui católica), os praticantes dessa 
religião são combatidos, discriminados e, muitas vezes, perseguidos.

Na índia, muitos cristãos católicos e mesmo evangélicos (sim, a 
Assembléia de Deus e suas variações já chegou lá) são combatidos 
porque seus comportamentos diferem dos hinduístas, 
majoritariamente dominantes, porque eles, por exemplo, vão uma vez 
por semana ao templo (Igreja - na Missa ou no Culto) e, isso, para 
muitos, quer dizer que eles tem menos fé, já que, o usual, no 
Hinduísmo, é a prática de rituais e visitas, senão diárias, pelo 
menos algumas vezes por semana.
Cristãos e budistas também são discriminados por sairem do sistema 
de castas, ou seja, aqueles que seriam os intocáveis, harijans e 
dalits passam a ter outra inserção social, política, pública. 
Enfim... outra vida que não a que responde ao status quo 
dominante.

Voltando ao Kit a ser distribuido nas escolas...

Penso que a idéia do kit é ótima na sua intenção. Ponto.
Mas, o problema, me parece, está exatamente na concepção de 
DISTRIBUIR e de KIT.

Distribuir "a mesma coisa para todo mundo" (ainda que, imagino eu, 
sejam diretrizes, orientações... sujeitas a aprimoramento e 
adequação em cada escola e por cada professor de acordo com as 
suas características e a dos seus grupos de alunos) é complicado e 
já guarda um certo tipo de estereotipia.

Kit é uma palavra altamente questionável exatamente no mesmo 
sentido.
Um Kit vem pronto. Está definido antes de chegar aos seus 
destinatários. É, portabnto, um outro pré!

Será um kit - ou todos eles - um preconceito?

Claro que não!

O que será preconceituoso será a forma impensada, pragmática, acrítica, 
descontextualizada com que será usada, ou pior, descartada e 
inutilizada.
O que será preconceituoso, será a forma de abordagem que os 
professores usarem ao trabalhar com seus alunos.
Se falarem SÓ nos três temas que compõe o tal kit... fim.
Preconceito.
Tudo de novo.

Assim, o tema principal que transcorre nesse post é o devir, ou 
seja, aquela energia, vibração, ação, idéia, prática, exercicio, 
experimentação que está à margem - na periferia, fora do núcleo - 
do que é dominante, mas que é, também e simultaneamente - outro 
paradoxo - nuclear-atômica à existência da nossa humanidade não 
pessoalizada e que está nos caminhos que tentam instaurar alguma 
singularidade, ou seja, produção de diferença.

Ainda importante dizer que a constatação de que todos temos 
preconceito não é uma defesa - do seu uso - e nem uma absolvição - 
das consequencias pessoais, afetivas, relacionais, jurídicas, 
existenciais - da sua prática.
Não interessa condenar o deputado e nem absolve-lo. Ele é um porta 
voz. 
Condenável é sua atitude - demonstrada - de não re-ver suas 
posições.

Só para voltar ao início:

Dizia eu sobre comentar "essa grande prática disseminada em TODOS 
os cantos do planeta", a prática do preconceito:

Valores de refência (aqueles que dão bases; servem de substrato; 
fornécem território; apontam linhas de raciocício e geram 
conceitos e os reproduzem) todos possuimos. E muitos. Para tudo.

Temos idéias do que seja ser homem. mulher, negro, branco, 
amarelo. Europeu, asiático, americano.
Temos idéia do que seja ser (um bom e um mau) profissional, 
pessoa, cidadão, vizinho, pai, mãe, irmão, tio.
Temos idéias religiosas, familiares, históricas e sociais sobre 
convivência, bondade, maldade, provocação, falta de educação, 
inteligência, burrice, sexo, desejo, consumo, ecologia.
Temos idéias sobre ser casado, solteiro; sobre tristeza, solidão, alegria, felicidade... enfim.
Temos idéia sobre QUASE TUDO.

Alguém diria?
-Vai nascer um heterozinho! (?)

A questão que me interessa 
não é TER as idéias nem ESTAR NA POSSE delas.

O que me interessa é o que fazemos e não fazemos com elas e a 
despeito delas.

Ainda poderia escrever sobre o grande e importante jeito
através do qual 
"NÃO TER PRECONCEITOS" 
virou lei, moda e palavra de ordem, ou seja, sobre as estratégias 
nem sempre conscientes através das quais os preconceitos se dissimulam.
E sobre a quase inexistente relação entre homossexualidade e pedofilia.
Mas vou deixar essa para outra ... postagem.

Cancei.
Agora vou visitar uma feira internacional de artesanato, onde 
expositores e trabalhadores de mais de vinte países estão 
comercializando seus produtos.
Mas não só seus produtos.
Vendem (sem pagamento financeito) seus hábitos, sua língua, sua 
cultura, seus jeitos, seus sorrisos, sua seriedade, seus olhares, 
seus corpos (movimentos, jeitos de andar, se mexer, 
movimentar...).

Com cada um deles e no encontro entre nós, as referências, minhas 
e deles, estarão presentes.
Gêneses de preconceitos-os-mais-variados estarão
num estado se semi-invisibilidade, em mim  e neles.
E a cada um desses encontros e desencontros está uma possibilidade de 
trabalhar, por assim dizer, as idéias préconcebidas e as práticas 
de busca de diferença.

Isso quer dizer que o preconceito - de todos os tipos e em todas 
as suas nuances - está ligado ao passado (está pronto ANTES DO 
ENCONTRO).
E quer dizer, também, que está no presente, igualemente a cada 
encontro, porque atualiza sua virtualidade e se manisfesta no 
aqui-agora-comigo-entre nós.

Um desafio constante, sempre renovado e atual.

Avante.


*Bolsonaro afirma que Kit do MEC estimula pedofilia e 
homossexualismo
01/ Abril 2011
O Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) acusou o Ministério de Educação 
(MEC) de incentivar o homossexualismo. O MEC vai distribuir nas 
escolas um kit contra a homofobia contendo vídeos e guias de 
orientação. Nos filmes são tratados temas como a bissexualidade, a 
transexualidade e a homossexualidade. A entrega do kit nas escolas 
públicas do Brasil foi aprovada pela Unesco.
Unesco é favorável à distribuição de kits contra homofobia nas 
ecolas

“As crianças estão formando o caráter e o material vai incentivar 
relações homossexuais”, afirmou o deputado.
Devido a seu currículo, Dilma deveria ter Beira-Mar como Vice.

29/03/2011 - 18:44   
Bolsonaro diz que confundiu perguntas em programa de TV
Acusado de ter agido de forma racista, deputado afirma que não 
ouviu pergunta corretamente, mas reafirma críticas a Preta Gil e à 
homossexualidade
Gabriel Castro

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) tem um longo histórico 
de declarações preconceituosas. Nesta segunda-feira, ele voltou à 
carga no programa CQC, da TV Bandeirantes. O deputado respondia a 
uma sequência de perguntas de telespectadores. A última delas foi 
da cantora Preta Gil. Ela queria saber o que o parlamentar faria 
se o filho dele namorasse uma negra. Bolsonaro reagiu: "Preta, não 
vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro 
esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não 
viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.

A reação foi imediata. Preta Gil disse que vai processar o 
deputado. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciou que 
pedirá a cassação do parlamentar. O deputado Jean Wyllys afirmou 
que pedirá ao Conselho de Ética da Câmara que apure o caso. Nesta 
terça-feira, Bolsonaro conversou com jornalistas no Congresso 
Nacional. Não parecia estar preocupado com a possibilidade de ser 
punido. Impenitente, disparou outras frases de teor 
preconceituoso, intercaladas por risos de quem parece gostar do 
efeito de suas declarações. Leia trechos da entrevista.

Qual foi o contexto da resposta do senhor que gerou toda essa 
controvérsia? Eu não vou dizer que a TV Bandeirantes editou. O 
erro, com toda a certeza, foi meu. Foi uma bateria de perguntas 
sobre cotas e homossexualismo. Todas as perguntas foram gravadas, 
eu sentei na frente de um laptop e respondia para o laptop. Quando 
entrou a Preta Gil, já preparei a resposta para nem ouvir o que 
ela estava dizendo e dar um "cacete" nela. O que eu entendi foi o 
seguinte: "Se o seu filho tivesse um relacionamento com um gay, 
como você se comportaria?"

Então, como o senhor reagiria se tivesse um filho que namora uma 
negra? Aceito meu filho ter relacionamento com qualquer mulher, 
menos com uma com o comportamento da Preta Gil. Pelo que eu já vi 
em jornais aí, ela já foi tudo.

Na resposta que deu durante o progama, o senhor também criticou a 
família de Preta Gil. Por quê? Quem é o pai dela? Gilberto Gil. 
Aquele que vive dando bitoquinha em macho por aí. Um ministro de 
estado dando bitoquinha em macho!

Então o problema do senhor é com a homossexualidade, não com os 
negros? Não tenho nada a ver com racista. Tem um montão de 
afro-descendente trabalhando comigo no Rio de Janeiro. Eu não 
quero é que os boiolas coloquem no currículo escolar a disciplina 
de combate à homofobia que, na verdade, estimula o 
homossexualismo. Meu filho namora quem quiser, desde que não seja 
um homem. Você ficaria feliz de ver seus filhos homossexuais? Eu 
não aceito um filho homem ter um relacionamentro com outro homem, 
acabou. É direito meu. Você acha que se a minha mulher engravidar 
eu falo "Meu amor, se nascer um gayzinho, vai ser o orgulho da 
família?"

O senhor teme ser punido? Eu estou entrando agora com uma 
representação no Conselho de Ética, para que eu possa ser ouvido 
lá e acabe com essa polêmica. Ou eu vou deixar que um deputado 
homossexual, não sei se é ativo ou passivo, queira crescer em cima 
de mim?

O senhor se refere a Jean Wyllys? Não sei. Eu falei um deputado 
homossexual. Não sei se é ativo, passivo ou joga nas duas.
Ele é o único homossexual assumido do Congresso. Ele é seu amigo?
Não. O senhor já escapou de várias punições por declarações 
semelhantes.  Mais de 20 vezes.
Acha que agora será igual? Meu anjo da guarda é forte, porque eu 
estou sempre do lado da verdade.