11 dezembro, 2010

“ECO”, por Luiz Gilberto de Barros & "Grandes mistérios habitam..." por Fernando Pessoa, ou Fish e o uivo do lobo em Tongues




Aaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu




“ECO”

O que grito de mim não me escuta,
É um eco perdido no ar;
Na triste solidão de uma gruta
Que repete o que eu quero gritar.

A palavra nem sempre é astuta,
Ela invade o vazio sem vê-lo;
Vai a pedra, fica a catapulta,
Vai a linha, acaba o novelo.

O segredo da voz é o silêncio,
Trampolim entre a dor e o grito,
Entre a lágrima, os olhos e o lenço,
Entre a chuva, o vento e o granito.

Meu sorriso é o vôo do que calo
Na planície do olhar que me fita,
Ao sorrir, meu silêncio eu embalo,
Meu sorriso é o amor que não grita.

*** Luiz Gilberto de Barros ***

(Direitos autorais reservados
Escola Nacional de Música UFRJ)


Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam


Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.


Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.


Fernando Pessoa 



Música em autoplay: FISH - Tongues

If you really knew how I felt
You wouldn't need to be here asking
Those questions
Those irritating questions, moving in metaphors
Speaking in tongues

Your gunboat diplomacy
You accuse me of heresy, of being irreverent
My opinions irrelevant, when I smile at your smiles
When you're speaking in tongues

As we move to a stalemate
You say a contract's a contract &
this is unnegotiable
I question your morality, you question my reality
You're speaking in tongues


We are speaking in tongues
Am I deaf because I cannot comprehend?
Though I try I just cannot understand

Your entrenched opinions
On the border of arrogance
Dug in against the compromise
A position indefensible, your actions illogical
You're speaking in tongues

You swear contradictions
Your tedious monologues, wielding authority
Demanding subservience, demanding
I make your sense

Demanding speaking in tongues



Aaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu


contranarciso, por Paulo Leminski





contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas


o outro
que há em mim
é você
você
e você


assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós



Paulo Leminski





09 dezembro, 2010

Um mundo no qual acreditar, por Peter Pál Pelbart







UM MUNDO NO QUAL ACREDITAR
PETER PÁL PELBART

Ao criticar os rumos da filosofia contemporânea, em especial um certo cogito da comunicação, Gilles
Deleuze escreve, em conjunto com Félix Guattari: "Não nos falta comunicação, ao contrário, temos
comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente". A vida filosófica de Deleuze pode
ser colocada inteiramente sob o signo deste princípio: a única resistência digna ao presente é a criação. Foi o
que sempre fez, com seu estilo cortante, feito de rajadas secas, análises finas ou conceitos extravagantes. Masafinal, o que criou Deleuze?

Alguns pretenderam reduzir o sentido de sua existência, de sua obra ou de sua geração ao gesto extremo
para o qual a doença o impeliu. Mas o vitalismo de Deleuze passa ao largo dessas interpretações tristes. Para o filósofo a vida sempre foi concebida como uma potência não-orgânica, força impessoal, que extrapola os limites da existência individual, das formas concretas e visíveis que a encarnam, da finitude que lhes é própria. No último texto publicado antes de seu suicídio, Deleuze escrevia: "Não se deveria conter uma vida no simples momento em que a vida individual afronta a universal morte".

No entanto, como sempre em Deleuze, os termos ganham um sentido inusitado e, quando menos se espera,
os vemos revirados do avesso. Pois mesmo esse "vitalismo", tantas vezes assumido por ele, não se refere a
um domínio da natureza, nem evoca qualquer princípio animista ou espontaneísta. Todo o contrário: vida
(ou desejo) como puro artifício, ser como produção, agenciamento, maquinação. Um comentador observou
que essa ontologia é tão nova quanto o universo infinitamente plástico dos cyborgs e tão antiga quanto a
tradição materialista em filosofia.

O pensamento de Deleuze é pluralista: desliza sempre numa multiplicidade substantiva e nos processos que
nela operam. Só há processos e multiplicidade, insiste ele, de modo que a Razão, o Sujeito (ou o Objeto), o
Uno, o Universal não passariam de abstrações, por mais que se tente ressuscitá-las para contrapor-se à única coisa que no capitalismo é de fato universal: o capital. É toda uma geografia mental que se vê aí questionada, e que Deleuze ajudou a subverter com sua filosofia da diferença.

Contra o tabuleiro da Representação que tem orientado o pensamento (com as figuras da Identidade e suas
sombras, do Negativo e seus falsos movimentos) Deleuze propõe o jogo da Diferença. Ele fez da Diferença
um conceito eminente e o elevou a uma suficiência sem precedentes. Por meio dele releu Bergson, Nietzsche
e muitos outros, abrindo o caminho para a elaboração de uma ética da singularidade: não apenas colher as
diferenças constituídas, sejam elas individuais ou coletivas, mas produzir novas diferenciações, fazer do
homem um grande experimentador, um afirmador de modos de existência singulares. É, como disse
Foucault, a "introdução a uma vida não-fascista".

Deleuze pode então distinguir os que pensam à imagem do aparelho de Estado, de suas estrias e direções,
impostas pela homogeneização capitalística e seus valores conformistas, e os que pensam segundo a
potência nômade, num espaço aberto, multivetorial, como nas estepes de um Oriente. Em vez do xadrez
(jogo imperial), o "go" chinês. A admiração de Deleuze pelos nômades, sua relação com o deserto, o
privilégio da exterioridade, da intensidade ("não se mexer demais para não espantar os devires"), a forma
como passam ao largo da História parece dar razão ao tradutor japonês de Mil Platôs: "Eis um grande livro
sobre a Ásia...". Deleuze, o mais oriental dos pensadores. Já não era esta a recriminação feita a Espinosa?

Tudo isto, porém, não é uma cavalgada bárbara vinda do Oriente; as peças fazem parte da tradição do
pensamento ocidental, embora submetidas a atrações e acoplamentos que já fizeram mais de um filósofo
revirar-se em sua tumba. Veja-se o conceito impossível de empirismo transcendental, tão importante no
sistema deleuziano, misto de Hume e Kant. O método transcendental kantiano (fiquemos no mais simples:
remontar de um fato dado às condições que o tornam possível) não só é valorizado, mas também
radicalizado. O projeto declarado de Deleuze consiste em "purgar o campo transcendental de toda
semelhança" com o mundo do senso comum, não deixá-lo, contrariamente ao que teria feito Kant, decalcarse sobre o empírico (por exemplo, rebater-se sobre a unidade e identidade pessoal do Eu), nem depender de princípios ainda relativamente transcendentes, porque mais amplos do que aquilo que eles realmente condicionam. Buscar a condição da experimentação real, e não da experiência possível em geral.

Ora, isto significa que a condição seja dada, constatada, ao mesmo tempo pura e vivida, construída e
experimentada... A intensidade é este princípio transcendental e genético, ser do sensível, objeto da
sensibilidade, que a força a ir a seu limite, transmitindo sua violência às demais faculdades (a memória, o
pensamento), num "acordo discordante" no seio de um sujeito explodido.

Não há como entrar em detalhes sobre essa construção complexa. Basta ressaltar que o desafio consiste em
devolver o pensamento à multiplicidade virtual que lhe dá origem: superfície imanente, intensiva, povoada
de singularidades não-ligadas, que Deleuze também chamou de Inconsciente. Nesse sentido, não deve
surpreender o privilégio atribuído pelo filósofo à intensidade em detrimento das representações.
Reencontramos Nietzsche na vizinhança de Klossowski ou Lyotard, revirando Freud do avesso. Disto
decorre uma das teses polêmicas de O Anti-Édipo: o desejo como maquinação de fluxos e não como um teatro de representações. Desse ponto de vista, é indiferente que se esteja no reino do papai-mamãe ou no império do significante. Mais do que o encadeamento ou a estrutura, importa o acontecimento, um dos conceitos prediletos do autor.

A teoria do Acontecimento elaborado por Deleuze responde a uma exigência que ele formulou do seguinte
modo: cabe à filosofia moderna sobrepujar a alternativa temporal-intemporal, ou histórico-eterno, em favor
de um tempo mais profundo (ou superficial): o intempestivo. Talvez cheguemos assim, indiretamente, a
uma das coordenadas mais perturbadoras do pensamento de Deleuze, embora das mais inaparentes: a
concepção insólita de tempo aí pressuposta, coextensiva a seu conceito de diferença, e que em parte explica
suas recusas (para dizê-lo de modo rápido e grosseiro: hegenialismos, heideggerianismos, estruturalismos
ortodoxos...) Em vez de um tempo homogêneo, linear, cumulativo ou circular, emerge uma arquitetura
temporal turbulenta, plissada, labiríntica, heterogênea.

O Acontecimento não está enganchado na cadeia contínua dos presentes, com sua direção única (a boa
direção, o bom senso, a flecha do tempo), e sugere uma temporalidade paradoxal, atópica, incorporal,
sempre passada e sempre por vir, em que a tripartição diacrônica se vê subvertida. A própria filosofia como
Acontecimento: "O tempo filosófico é assim um grandioso tempo de coexistência, que não exclui o antes e o
depois, mas os superpõe numa ordem estratigráfica". É a assunção ativa de uma tal "ordem" que causa
estranheza não só entre os historiadores da filosofia, de quem, aliás, Deleuze nutriu-se em abundância, mas
também entre os cinéfilos que continuam intrigados com seus dois livros sobre cinema (afinal, o que é uma
"imagem-tempo", um "lençol de passado", um tempo liberado do movimento, um "cristal do tempo?"). Para
não falar nos psicanalistas, a quem a idéia de um inconsciente construtivista e a priorização dos devires em
relação à história poderia soar extravagante, mas nem por isso menos sedutora ou operativa, sobretudo
numa clínica das psicoses.

O mesmo vale no campo político. Ao ignorar os discursos pomposos ou lamurientos sobre o futuro da
revolução na história e priorizar o devir revolucionário (único capaz de "conjugar a vergonha ou responder
ao intolerável"), reabre-se uma linhagem intempestiva, uma lógica não dialética do devir, em que se talham
constantemente múltiplos blocos de espaço-tempo, novas subjetividades. É o que explica por que Deleuze,
ao contrário de muitos de sua geração, jamais renegou Maio de 68, nunca se interessou pelo tema de um fim
da História (nem, de resto, por uma filosofia da história).

Quando perguntado pelo militante italiano Toni Negri: "Qual política pode prolongar na história o
esplendor do acontecimento e da subjetividade?", Deleuze respondeu com a mais heraclitiana e nietzschiana
das inspirações: "Acreditar no mundo é o que mais nos falta, nós perdemos completamente o mundo, nos
desapossaram dele". E acrescenta, como um duende: "Acreditar no mundo significa principalmente suscitar
acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempo, mesmo de superfície ou volume reduzidos". O que terá sido o acontecimento-Deleuze?

05 dezembro, 2010

Silêncio, mais um pouco sobre o





- "Por vezes, o silêncio 
é a melhor resposta!"

- Sim, desde que
 - e somente se - 
esgotaram-se
todas as possibilidades 
de diálogo permanente.

E, ainda faço uma ressalva: 
desde que o silêncio
não seja usado como 
um canhão apontado contra
você com o intuito de 
culpabilizá-lo.




- A outra questão é: 
tem coisas que 
simplesmente 
não vale
 a pena 
falar.

(De "Iniciação aos poderes manifestos e ocultos do silêncio" P. 25)

03 dezembro, 2010

"A prece" de Clarice Lispector, ou sobre pensar, as perguntas, o silêncio e as respostas




Meu Deus me dê a coragem de viver trezentos 
e sessenta e cinco dias e noites, 
todos vazios de tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como plenitude.
Faça com que eu seja a tua amante humilde,
entrelaçada a ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo e receber como resposta 
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de te amar, 
sem odiar as tuas ofensas 
à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim 
me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

(Clarice Lispector)

 
É claro que pensar é um pecado.
E, para muitos, dos mais imperdoáveis, principalmente 
quando as perguntas vêm seguidas e acompanhadas de algumas afirmações.
É sabido que perguntas geram perguntas 
e perguntas geram respostas, as quais, novamente, geram perguntas,
numa infindável busca de apreensão da realidade e do conhecimento.
Algumas vezes, as perguntas - e as respostas - produzem sabedoria.
A sabedoria pode vir ou não acompanhada do silêncio.
O silêncio é um gestor de perguntas, mais do que de respostas.
As respostas, é claro, também surgem dos silêncios ativos.

O que é um silêncio passivo?
No plano psicológico, é uma resposta reativa ao choque que as perguntas
desencadearam por desestabilizarem idéias preconcebidas 
e maneiras de sentir e se comportar fortemente arraigadas.
É um silêncio tenso, por vezes agressivo e omisso, que comunica
inabilidade de falar e ausência de vontade de enfrentar os acontecimentos
que possibilitaram a emergência das perguntas desconstrutoras 
"das coisas da vida" e instituíram "a vida das coisas".

O que é um silêncio ativo?
É aquele que afeta os processos de pensamento 
e as maneiras de sentir para produzir diferença.
Uma ruptura com os modos de agir predominantes e viciados 
que se caracteriza por uma importante e aguda necessidade de 
retomar assuntos pendentes desde uma perspectiva construtora de inéditos.

Ambos os silêncios estão atravessados pelo tempo. E pelo espaço.
Geralmente o silêncio ativo é mais longo e, o ativo, mais curto.
Assim, conclui-se que longos silêncios passivos são sintomas de fobia,
ou seja, há um obstinada e teimosa tentativa 
de evitar - atitude de evitação fóbica - 
as possibilidades de mudanças que estavam se engendrando... 
com as perguntas... que foram realizadas 
antes do silêncio como resposta.

E o espaço, onde entra nisso?
Quando o tempo é muito longo, o espaço se dilui. Acaba.
No mundo acelerado no qual vivemos, "os sujeitos sem pausa", no desespero, 
quando forçados a isso pela realidade-que-sempre-se-impõe - 
acabam fazendo silêncios longos demais e, assim, perdem-se no tempo
e acabam por, matar junto com ele, o espaço.
Uma triste realidade que produz rompimentos até mesmo 
nos vínculos mais estáveis, 
amorosos, de companheirismo e
com grandes doses de afinidades.
Até mesmo casamentos - e amizades - são 
desfeitos dessa maneira.

Tempos diferentes para pessoas e situações diferentes.
Sim, mas, sendo diferentes, nem sempre são conciliáveis.
Importante atentar - estar sob atenção - para isso, pois, do
contrário, as coisas da vida facilmente 
se transformam em vida das coisas. 

As vezes o silêncio é a melhor resposta?
Sim, desde que não esteja acompanhado de rancores profundos, 
desidealizações, desmitificações - de mito - e orgulho.

 E as respostas?
São fundamentais.

É minha opinião que certamente Deus recebe em seus braços
o pecado de pensar... e o perdoa, quando não... o estimula!

Pertinentes:
O que você está comunicando para si próprio com esse silêncio?
O que está comunicando ao outro?
É e são as mesmas coisas? Do mesmo jeito?
Em tempos e espaços semelhantes?
Quais perguntas lhe travam?
Como o (a) afetam?

O silêncio ativo é uma grande companhia para a solidão
porque nele há vida, processualidade, 
trabalho de auto-re-(desre))conhecimento.

Pensar dói. Mas não pensar dói mais.
Será?

Nota: 
Aqui pensar nada tem a ver com 
a "masturbação mental" infrutífera
e despotencializante que gera inércia 
e que está presente nos processos obsessivos.
Aqui refiro-me ao pensamento que gera pesquisa 
e busca de respostas  - e novas perguntas! - acerca
do supostamente óbvio 
(tido como óbvio e inquestionável e naturalizado)
na tentativa de extrair dele (do "óbvio") 
aquilo que ele tem de inédito e inusitado.
Uma dança constante de transformação 
dos modus operandis de ser. 
É um estímulo à desconstrução-que-se-faz-construção.

Será que Deus considera pecado pensar?

Nota 2:

A maioria das pessoas nem cogita de se fazer algumas perguntas.
Nem ao outro.
As respostas poderiam desestabilizar demais 
e, por isso, entrar na rota-de-fuga fóbica se torna
"mais fácil". Bem mais fácil.

Será que eu estou sendo manipulado pelo outro?
Será que eu o (a) estou manipulando?
Estarei "optando" por esse silêncio para
poupar o outro da minha discordância, raiva, frustração?
Será que estou acolhendo os sentimentos do outro
mesmo com as perguntas que ele me faz?
Ou que faço, esperando que ele saiba e possa responder?
Será que amo ou sinto atração?
Será que amo o meu desejo ou o desejo do outro?
Será que amo (o outro) ou a imagem que criei dele? 
Ambos?


Estou "começando a pensar" que Deus 
não considera pecado pensar.
Se o fizesse 
porque nos daria 
a faculdade de desenvolver o raciocínio crítico 
e a possibilidade de experimentar percepções críticas?