08 março, 2011

Clarice Lispector sobre o Perfumar-se (revisited)



Eu me perfumo
para intensificar
o que sou.
Por Isso não posso
usar perfumes que me
contrariem.
Perfumar- se é
uma arte,


exige algum conhecimento
de si própria.
Uso um perfume
cujo nome não digo:
É meu. Sou eu.
Não digo o nome
Também por segredo.
É bom perfumar-se
em segredo.
( Clarice Lispector )

07 março, 2011

Regulamento, por Flora Figueiredo ou... quando a poesia fada sobre a incerteza



Regulamento

Eu não juro nada
por coisa alguma,
pois que todo caminho 
é de incerteza.
A ordem se desarruma,
a história se desajeita,
o arranjo troca e vira a mesa.
Tampouco prometo.
Nesse jogo de regras e tratos,
rolam os dados,
mudam os fatos,
num ciclone célere, inclemente.
Só o que posso fazer 
é me entregar completamente
a toda causa que eu me dedicar,
a cada tempo que eu puder viver,
a cada amor que me fizer amar"

Flora Figueiredo 

Clarice Lispector e e Fernando Pessoa sobre as mudanças





A prova de que estou recuperando a saúde mental,
é que estou cada minuto mais permissiva:
eu me permito mais liberdade e mais experiências.
E aceito o acaso.
Anseio pelo que ainda não experimentei.
Maior espaço psíquico.
Estou felizmente mais doida.

* Clarice Lispector *




Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que
a Primavera é gente
Para poder supor
que ela choraria,
Vendo que perdera
o seu único amigo.
Mas a Primavera
nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam,
ou as folhas verdes.
Há novas flores,
novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete,
porque tudo é real.

*Fernando Pessoa *




Partir! 
Nunca voltarei, Nunca voltarei 
porque nunca se volta. 
O lugar a que se volta é sempre outro, 
A gare a que se volta é outra. 
Já não está a mesma gente, 
nem a mesma luz,
 nem a mesma filosofia. 
 Partir! 
Meu Deus, partir! Tenho de partir! 

* Fernando Pessoa *




O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos,
 Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível 
faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar 
bem de ir vendo tudo. 
 Mesmo a ausência dela é uma 
coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que 
não sei como a desejar. 
Se a não vejo, imagino-a e sou forte 
como as árvores altas. 
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito 
do que sinto na ausência dela. 
 Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol 
com a cara dela no meio.

* Fernando Pessoa *

04 março, 2011

Presença, por Mário Quintana, ou sobre amores criados






Presença

É preciso que a saudade desenhe
tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que,
apenas, levemente,
o vento das horas
ponha um frêmito
em teus cabelos




É preciso que a tua ausência
trescale sutilmente, no ar,
a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito
guardadas
não se sabe por quem
nalgum móvel antigo…




Mas é preciso, também,
que seja como
abrir uma janela
e respirar-te,
azul e luminosa, no ar.




É preciso a saudade
para eu sentir
como sinto – em mim –
a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges
és tão outra
e múltipla
e imprevista
que nunca te pareces
com o teu retrato…
E eu tenho de fechar
meus olhos
para ver-te.

Mário Quintana






Até mesmo


Um amor



Inventado, criado


É amor.


E pode perdurar.


Quando a idealização e 
a imaginação


são forças potencializantes

de formação de real (idade).





03 março, 2011

Sono, por Fernando Pessoa




Sono

Porque é que um sono agita
Em vez de repousar
O que em minha alma habita
E a faz não descansar?

Que externa sonolência,
Que absurda confusão,
Me oprime sem violência
Me faz ver sem visão? 


 

Entre o que vivo e a vida,
Entre quem estou e sou,
Durmo numa descida,
Descida em que não vou.

E, num infiel regresso 
Ao que já era bruma, 
Sonolento me apresso 
Para coisa nenhuma.

Fernando Pessoa