27 abril, 2012

Rush - Entre Nous ou sobre estar junto (s) E separado (s)



Um grande, lindo e desafiador paradoxo: uma dialógica das relações contemporâneas.


 


Entre Nous

We are secrets to each other
Each one's life a novel
No-one else has read
Even joined in bonds of love
We're linked to one another
By such slender threads

We are planets to each other
Drifting in our orbits
To a brief eclipse
Each of us a world apart
Alone and yet together
Like two passing ships
Just between us
I think it's time for us to recognize
The differences we sometimes feared to show
Just between us
I think it's time for us to realize
The spaces in between
Leave room
For you and I to grow

We are strangers to each other
Full of sliding panels
An illusion show
Acting well-rehearsed routines
Or playing from the heart?
It's hard for one to know

We are islands to each other
Building hopeful bridges
On the troubled sea
Some are burned or swept away
Some we would not choose
But we're not always free

...............................................................

Entre nós

Nós somos um mistério um para o outro
Cada vida um livro
Que ninguém teve chance de ler
E mesmo unidos nos laços do amor
Estamos ligados um ao outro
Por um fio tão delicado

Nós somos como planetas um para o outro
Girando em nossas órbitas
Para um breve eclipse
Cada um de nós é um mundo à parte
Solitários e ainda juntos
Como dois barcos que se cruzam

Aqui entre nós
Eu acho que já é tempo de reconhecermos
Que, às vezes, temos medo de mostrar nossas diferenças
Aqui entre nós
Eu acho que já é tempo de percebermos
Que os espaços no meio de nós
Devem ser compreendidos
Para eu e você crescermos

Nós somos como estranhos um para o outro
Cheios de situações mutáveis
Num show de ilusão
Encenando rotinas bem ensaiadas
Ou apenas jogando com o coração?
Isso é algo difícil de alguém saber

Nós somos como ilhas um para o outro
Construindo pontes de esperança
Num mar agitado
Algumas pontes foram queimadas ou devastadas
E outras nós não escolhemos
Mas disso, nunca estaremos livres


22 abril, 2012

Eu alquimista de mim, por Clarice Lispector, ou sobre a filosofia do bambu



nome da imagem: baboo texture

Eu alquimista de mim...

Eu, alquimista de mim mesmo.
Sou um homem que se devora?
Nao, é que vivo em eterna mutação,
com novas adaptações a meu renovado
viver e nunca chego ao fim de cada
um dos meus modos de existir.
Vivo de esboços não acabados e vacilantes.
Mas equilibro-me como posso
entre mim e eu,
entre mim e os homens,
entre mim e o Deus.

Clarice Lispector


 


Por ter raízes profundas, o bambu chinês consegue enfrentar uma tempestade sem se quebrar. 

A semente do bambu quando plantada, não desabrocha rapidamente para fora da terra. Ela tem o seu crescimento no subterrâneo durante quatro anos, e fica para fora da terra somente um broto muito pequeno. 

Durante esses quatro anos, a raiz cresce e torna-se forte, procura formar um alicerce cada vez mais forte, coloca as raízes na direção onde consiga mais água e substancias que irão fazer com que cresça. 

Ao fim do quarto ano, o broto começa a desenvolver-se e é capaz de atingir 25 metros num ano, o mesmo comprimento que têm as suas raízes. Ele torna-se alto, fino e oco por dentro e por causa destas características, consegue enfrentar uma tempestade ao dobrar-se perante os ventos fortes. 

Porque falo do bambu chinês? 

O ser humano está cada vez mais imediatista e quer que as coisas aconteçam num piscar de olhos como se fosse esfregar a lâmpada maravilhosa de Aladino e tudo aparecer! 

O bambu ensina-nos que, para se atingir lugares cada vez mais altos, é preciso primeiro fazer os alicerces buscando a formação, tanto espiritual como profissional, e direcionar as nossas “raízes” para os objetivos. 

Podemos aprender também que, assim como a semente do bambu chinês leva quatro anos a criar o seu “alicerce” para depois no quinto ano crescer para o alto, as coisas não acontecem de um dia para o outro, são precisas semanas, meses ou até anos para se ver algum resultado e entender que as oportunidades de sucesso aumentam quando cuidamos bem do “broto do bambu”. 

Ao agir assim, o quinto ano chegará e muitos vão dizer que é sorte ou que alguém ajudou. Na verdade as pessoas dizem isto porque não acompanharam o crescimento das “raízes”. 

Há mais dois ensinamentos a que devemos prestar atenção! 

Primeiro ensinamento: quando digo que o bambu é oco, não estou a querer falar do conteúdo, já que este está nas raízes que demoraram quatro anos para crescer. Oco, no ensinamento do bambu, quer dizer uma pessoa flexível que consegue pensar diferente, livre de rancores e ressentimentos que apenas atrapalham a renovação constante do ser. 

O segundo ensinamento é que por o tronco ser alto (bem preparado), oco (flexível, sem rancores e ressentimentos) e ter raízes profundas (ter conhecimentos e uma boa conduta ética) o bambu consegue enfrentar uma tempestade sem se quebrar. 

Vamos refletir sobre isto com a epígrafe da semana: 
Qualquer árvore que queira tocar os céus, precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos. 
(Carl Gustav Jung) 


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Acredito que "a vida das coisas" determina ritmos, tempos 
e até mesmo espaços de adaptação: eventos, situações, 
pequenas e grandes tragédias que acontecem na nossa vida... 
nos forçam, convidam, estimulam a buscar
novas formas de adaptação.

Penso que em muitas situações é preciso mesmo ter raízes profundas,
gestadas pela passagem do tempo, para se recompor e redefinir 
estratégias de vida e de sobrevivência. 
Acontece, por exemplo, quando alguém que gostamos, amamos...
nos é tirado e o perdemos, seja pela morte, seja pela vida.
Pessoas que se vão... e nos deixam num vazio...
Um vazio oco que está preenchido de experiências
e de cotidianos e de afetos e de conversas e de
companhia que não vão se repetir...
Achamos que vamos morrer também
- tamanha a sensação de término, dor e perda -
para, depois, descobrirmos que podemos sobreviver...
e, mais adiante ainda, descobrirmos que podemos
viver (já não sei se nessa sequencia linear 
 (primeiro uma coisa e depois a outra, já que, por vezes, 
esses estados podem estar sobrepostos, ou seja, 
sobrevivemos e vivemos ao mesmo tempo)!

A analogia com o bamboo e seu desenvolvimento é muito rica e está 
bem expressa no texto acima, de autoria de Maria Luisa Albuquerque.


No entanto, penso que até mesmo de ressentimentos, mágoas e frustrações 
(re) criamos ações adaptativas, já que elas podem ser fonte de 
novas e inéditas posturas em relação aos fatos e acontecimentos 
com os quais vamos nos deparando; nos confrontando...


Penso que há situações em que as raízes nascem espontânea e 
rapidamente, acontecimentos que tem sabor de tempestade e que 
convocam a ações imediatas (não necessariamente imediatistas):

o ônibus que não parou na parada e nos deixa mais meia hora esperando; 
a faxineira que não veio e nos deixou com a casa suja e empoeirada 
por mais um período de tempo; o livro que queremos reler ou que tem aquela citação 
que queremos colocar num post; a irritação que nos abraça quando 
vemos mais fotos de animais do que de pessoas no dia-a-dia do Facebook; 
o grande incômodo que sentimos quando vemos, constatamos 
e somos afrontados com a crescente banalização dos vínculos, afetos 
e formas de comunicação que estão em expansão na sociedade líquida
(Zigmunt Bauman); a chuva que chega sem aviso, inesperada e violentamente, 
nos deixando molhados ou trancados... à espera de que passe... 
dentre outras tantas possibilidades inesperadas.

Também acontece que temos hábitos formados por raízes profundas, 
gerados e repetidos por anos e anos...
esses são muito difíceis - mas não impossíveis - de serem 
mudados: eles podem ser um desafio ao surgimento de oscilações 
no caule do nosso bambu: ventos que sopraram com força e intensidade variáveis 
e que nos desafiam à busca de um novo equilíbrio, aqui entendido não como um 
número que está no meio de zero e cem...

Assim, as raízes são fundamentais para que nos sintamos fortes, seguros e com meios para podermos nos adaptar com flexibilidade, oscilando entre diferentes lados para manter a estabilidade e as nossas condições de existência. São, também, elas, as raízes... fundamento para repetirmos velhos e arcaicos padrões de adaptabilidade, negando-nos às possibilidades de nos dobrarmos às 
circunstâncias que vão aparecendo...

Manter as raízes é uma necessidade.
Arrancar as raízes, também.
Semear (e esperar) novas raízes, também.

E aqui repito um tema já comum em outras postagens:

Raízes no chão e asas no céu.
Raízes no céu e asas no chão.

Ao hipotético leitor desse post quero dizer:
Seja conforme.
Seja disforme (deforme: que perdeu a forma própria, ou quem sabe, a fôrma própria).
Seja informe (sem forma)!
Simultaneamente!

Um alquimista...



08 abril, 2012

Feliz Páscoa com as bençãos do Mestre.





Grande é a Luz do Criador em todos os universos. 
Deus é a Luz maior que tudo envolve e vibra
constantemente como sublime amor. É eterna luz
pulsando 

tanto nas celular como nas galáxias. "
Ramatís

..............................................

Estamos sempre aprendendo, mesmo quando não sabemos.
Com Ele a nos guiar.





Que o Mestre caminhe à minha frente, 
para abrir os meus caminhos.


Que ele caminhe ao meu lado,
 para me fazer companhia.


Que ele caminhe atrás de mim, 
para me proteger.


E, quando eu não puder caminhar, 
que ele me carregue no colo,
com seu grande amor...  de modo que só 
as suas pegadas fiquem na areia.




E que assim seja!

24 fevereiro, 2012

Tradições cruéis e O Olhar do touro, por Juremir Machado da Silva, ou sobre os prazeres sublimados das touradas


Tradições cruéis  


Adiós! Fim de uma tradição. As touradas estão proibidas em Barcelona e em toda a Catalunha. Vale uma revelação estonteante: as tradições têm começo, meio e fim. Não são eternas. Nem intocáveis. Nascem, crescem e morrem. Dependem das sensibilidades de cada época. Houve um tempo em que maltratar animais era considerado normal. Os bichos eram instrumentos e brinquedos dos homens. Era comum que marmanjos se divertissem "judiando" de animais. A Farra do Boi, praticada em Florianópolis, sempre foi uma dessas maldades protegidas pela tradição trazida de além-mar. A doma violenta, no Rio Grande do Sul, foi durante muito tempo a única maneira de adestrar cavalos, mas era também um modo de liberar certa perversidade, inconsciente ou não, típica do bicho homem, um ser que encontra prazer na agressividade e na violência lúdica.

Ernest Hemingway, Prêmio Nobel da Literatura, que gostava de touradas e de fanfarronices, escreveu que "matar limpamente, de modo a produzir prazer estético e orgulho, sempre foi um dos grandes prazeres de parte da raça humana". Hemingway foi um homem do seu tempo. Em "O Sol Também Se Levanta", ele pintou com maestria esse gosto dos seus contemporâneos por sangue animal: "Montoya desculpava tudo num toureiro que tivesse afición. Desculpava os ataques de nervos, o pânico, os erros inexplicáveis, toda a sorte de lapsos. Em suma, àquele que possuía afición, Montoya perdoava tudo. Perdoou-me imediatamente por todos os meus amigos. Sem dizer coisa alguma, considerava-os simplesmente como algo um pouco vergonhoso entre nós, como o ventre rasgado dos cavalos, nas touradas". A guerra também não era uma vergonha. Filmes recentes mostram a "fissura" de soldados americanos pelas situações bélicas de extremo perigo.

No Brasil, atualmente, os rodeios, tão ao gosto dos "caubóis" do interior de São Paulo, representam uma moderna tradição de crueldade. Hemingway racionalizava o seu gosto alegando que o touro tinha a sua chance e que o toureiro arriscava a sua vida. Estatisticamente falando, os riscos enfrentados pelo touro sempre foram maiores. Os animais já foram escravos dos homens. É verdade que agora alguns homens querem se tornar escravos dos animais. Faz parte certamente da chamada dialética senhor e escravo. Os seres humanos submetem ou são submetidos. Uma síntese atual seria a submissão voluntária. É outro papo. As tradições cruéis estão com os dias contados. As perseguições a touros e bois pelas ruas das cidades podem ser rotuladas de bullying contra quadrúpedes condenados.

Aqueles que faturam com touradas, apoiados em argumentos antropológicos relativos ao respeito às diferenças culturais, tentarão reverter a proibição aprovada na Catalunha. O argumento mais forte, contudo, é de natureza econômica e "social": as touradas criam empregos, movimentam a economia, alimentam famílias, garantem o sustento de crianças e melhoram as receitas públicas. Qual o direito prioritário: o dos animais, o da tradição cultural ou o da produção de riqueza? Qualquer um que não seja cínico sabe a resposta. Os aficionados poderão matar as saudades lendo Hemingway.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br, em 23/02/2012

...

O olhar do touro

-Eh, touro - provocava uma voz feminina quando o animal, arfando, parecia contemplar a plateia em convulsão.

O bicho estava a não menos de 5 minutos da sua morte. Quinze minutos antes, entrara na arena circular da Plaza de Toros de Santa Maria, no centro de Bogotá, como uma fera negra bela e exuberante. Explosão de vida.

Foi no último domingo, 19 de fevereiro. Depois de conhecer a linda cidade litorânea de Cartagena de Índias e de tomar muitos banhos nas águas caribenhas da ilha colombiana de San Andrés - a mil quilômetros de Bogotá, muito mais próximo da Nicarágua -, fomos ver uma tourada. Minhas leituras de Ernest Hemingway e minha curiosidade de escritor e jornalista me empurraram para o local. Entrei lá tentando pensar no aspecto poético do jogo cantado por artistas como Garcia Lorca ou louvado por pintores como Pablo Picasso. Vi só a face da barbárie.

Dizem os organizadores, para se defender dos que pregam o fim das touradas, inclusive o prefeito de Bogotá, que se trata de dar uma morte honrosa a um guerreiro, o touro. E que muito mais cruel é morrer nos matadouros industriais. Muito lero, uma baita racionalização. Na prática, um animal poderoso, mas encurralado, sem ponto de fuga, saltando do corredor da morte para o abate sob tortura diante dos aplausos frenéticos de homens, mulheres, velhos, jovens, ricos, pobres, colombianos e estrangeiros. Lá estávamos nós, constrangidos. Lá estava também, em férias, o nosso ministro da Educação, Aloísio Mercadante, com a família.

O touro é provocado pelo matador e seus assistentes, auxiliares poltrões que sempre podem se esconder atrás de barreiras providenciais. O animal é ferido no dorso com uma lança pelo "picador", que entra numa montaria com a proteção de uma saia medieval e aceita passivamente as investidas da vítima ferida. Depois, baixando mais a cabeça por causa dos golpes do "picador", é torturado pelos bandarilheiros, que lhe enterram os chamados ferros, farpas, lâminas de cinco a sete centímetros com arpões na ponta e hastes coloridas. O matador exibe sua arte. Dança com o touro. A massa grita "olé". Por fim, o toureiro enfia a sua espada no animal, cuja respiração se acelera pavorosamente. Os assistentes cercam e estimulam o bicho, que cai e recebe a punhalada final. Grotesco.

O matador, durante a luta, encontra tempo para virar as costas e caminhar até o público para vangloriar-se, receber rosas, cumprimentar as autoridades. Ao final, é festejado como um herói e pode sair nos ombros do público. A tourada é uma cerimônia de abate com direito a espetáculo, aspectos "lúdicos" e histeria coletiva. Vibra-se com o sofrimento do animal e comemora-se a sua morte. Animais comem animais. Sou carnívoro. Não pretendo ser vegetariano. Mas não sou favorável à tortura. Já tinha visto touradas em filmes e na televisão. Li muito sobre touradas. Estar no local da tortura e execução é totalmente diferente. Senti nojo e certa revolta. É uma luta desigual. As chances do animal são quase nulas. O toureiro é um idiota que se acha superior. Saí da Plaza com aquela velha certeza: a humanidade não é confiável.


Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br, em 24/2/2012


*



Finalmente estão terminando essas barbáries. Nunca gostei e nem entendi (?) o sentido daqueles homens magérrimos e elegantes entrarem vestidos com aquelas roupinhas coladas ao corpo numa arena (arena!) para matar com violência os muito mais elegantes e fortes touros.
Seria algo atávico e filogeneticamente herdado dos caçadores: herança  do tempo em que...
Acho que até pode ser, já que é histórico e social esse desejo do homo sapiens (homo sapiens demens, segundo as palavras de Edgar Morin) dominar a natureza, mas, considero  ser muito mais outra das expressões hegemônicas do domínio masculino. Numa palavra: machismo.
Redundância? Simplificação? Reducionismo?

Não é frequente assistirmos a mulheres matarem touros.
A tourada é um esporte (?) masculino que tem repercussões no imaginário masculino e feminino. Os homens os invejam e admiram e as mulheres os desejam. Desejam?
O quê deles elas desejam?
Será que os homens também desejam... algo deles?
A força? A coragem? A elegância? O poder? O apelo erótico?

Que força? Que coragem? Que elegância? Que poder?
Ficar enfurecendo o bicho e ficar dando pulinhos ou passos para o lado enquanto ele passa pelo tecido vermelho? Francamente!

No tempo dos romanos, do império romano, quem entrava na arena eram  homens e mulheres para serem mortos por outros homens (e não por outras mulheres) ou pelas feras, tigres e leões... para delírio das massas. Uma catarse coletiva, certamente.

Esse "mal-estar na civilização" (Freud) que se dá através da sublimação dos impulsos agressivos e sexuais certamente tem gerado um campo de "barbáries civilizadas" e socialmente aceitas... que agora começam a ser proibidas, por lei. Fim da farra! Pelo menos é o que se espera.

No Afeganistão e no Paquistão, só para citar dois países que eu sei, há a tradição do "esporte" da briga (rinha) de galos entre si e também do enfrentamento de espécies diferentes, como um galo e uma cobra. Outra forma de tourada que leva ao êxtase os expectadores. Ou os torna ricos - alguns deles - com as apostas que são feitas.

Certamente que o dinheiro e todos os aspectos econômicos envolvidos têm sua contribuição para a ocorrência dessas coisas: é preciso dinheiro para formar touros e toureiros, cobrar ingressos, organizar "o espetáculo" , enfim, para fazer essa máquina funcionar.

Também tem sua contribuição "para fazer essa máquina funcionar" a necessidade de sublimação de ambos os impulsos, agressivos e sexuais. Algo como ´"é melhor matar o touro do que uma pessoa". (Ouvi de um homem, só a titulo de exemplo, que deu um chute violento num porco e o matou... porque estava furioso com a mulher e as filhas).
Nessa linha de raciocínio, vê-se que os crimes contra humanos - assassinatos -são quase sempre feitos às escondidas e sem testemunhas e, claro, sem aprovação social (exceção feita aos países que aprovaram a pena de morte).
Até que... começaram a ser feitos em público e na presença de muitos, como é o caso de adolescentes que atiram em alunos e professores nas escolas e de talibãs que executaram (durante o período que estavam no poder) "os impuros e infiéis adúlteros" ...  também em "praça pública".
Faltou pouco, me parece, para que "o prazer" em matar o touro se transformasse em prazer em matar o humano: neste último caso, a multidão era convocada e obrigada a assistir a execução para se disciplinar e aprender o rigor da lei islâmica, a sharia, em voga no Afeganistão durante o regime talibã (e que pode voltar
a ser adotada na Líbia atual, pós Kadhafi, embora o conselho de transição se defina como sendo de "muçulmanos moderados").

E o componente erótico, sexual, nisso tudo, onde está?
Não sei. Não sou psicanalista (embora tenha feiro uma parte da formação e a abandonado) e deixo isso para quem se interessar em abordar o tema com "mais proficuidade".
Alguns indicadores, no entanto, que tem a ver com essa "abordagem do caráter erótico sublimado das touradas transformadas em esporte" são:
- fazer sexo animal: envolve arranhões, puxões de cabelo, palavras de baixão calão, subjugação e domínio de uma das partes sobre a outra (que podem se inverter, nos humanos).
- prazer sentido na forma de arrepios , suor, calor, expectativa.
- presença do medo e da antecipação do desfecho, um prazer  (o momento em que o touro vai morrer é o ápice das preliminares, de todas elas, uma espécie de orgasmo - uma morte do eu, que se entrega ao outro e se dá para o seu gozo - que também é o "meu gozo").
- a presença inquestionável da sedução arrebatadora, àquela à qual não dá para resistir e que  culmina com a ausência da liberdade de escolha (o touro não se senta no chão e se recusa à batalha esperando passiva e ativamente que o toureiro e seus ajudantes desistam de o importunar e provocar). Nos humanos, me parece, esta estaria ligada ao desejo, nem sempre consciente, de ser arrebatado, "vencido" pela sedução do outro.

Resumindo, diria que se a agressividade fosse melhor tolerada - e portanto não reprimida (a sublimação vem da necessidade de reprimir impulsos agressivos E sexuais) - respeitada e até estimulada nas nossas relações interpessoais, familiares e sociais, o rumo das coisas seria outro: outras "coisas da vida" poderia se transformar em outras "vidas das coisas" já que a raiva, o ódio passam e se esvaem.
Se pudermos aceitar, ouvir, falar, expressar, discutir, comunicar nossos desagrados, discordâncias e mal-estares (e permitir que os outros o façam) - formas atenuadas da raiva e do ódio - certamente as coisas teriam desfechos menos trágicos, mesmo que igualmente dramáticos (de drama, de intensidade, de palco
 - ambiente -  para expressão).
Mas, para isso, precisamos desinstitucionalizar o lugar da agressividade nas instituições da família, da religião, da escola, da comunicação  (linguagem), do trabalho...  uma tarefa árdua e difícil, mas possível e necessária que deve ser interminável.

Quando um bebê grita furioso porque está com sono nos compadecemos e acolhemos sua necessidade de ficar quieto e o colocamos para dormir. Muitas vezes ele se recusa a fazer isso, então o tranquilizamos com palavras, música, sorrisos, palavras mansas... e ele aceita ir pra cama. É claro que não estou sugerindo que façamos isso com um adulto. Estou dizendo que não recusamos a raiva do bebe e seu mal-humor porque ele está cansado: nós a aceitamos, entendemos, respeitamos e a transformamos com nossa experiência...
Praticamente ninguém deseja que um bebê pare de chorar ou gritar porque está com sono... e que fique no seu melhor estado de humor e alegria e felicidade.
Mas fazemos isso com os adultos, adolescentes, chefes, empregados, pais, mães, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos: queremos simpatia, educação, bom humor, afabilidade e disposição "o tempo todo". E, paradoxalmente, mesmo sabendo que não teremos isso, acabamos por desvalorizar atitudes ou sentimentos - em nós e nos outros - considerando-os como sendo meros acasos e que não valem à pena serem retomados, já que são fluídicos e de difícil apreensão... num mundo tão mutável e rápido, onde a comunicação e os estímulos são constantes e diversificados...
Por que sentir desprazer e se incomodar com o prazer do outro em comunicar sua raiva? (isso supondo-se que o outro consiga sentir prazer ou bem estar... sem cair no que é mais comum: sentir-se culpado - antes ou depois, não importa). E aqui é importante distinguir que sentir prazer ou bem estar em falar e comunicar a raiva não é sinônimo de sentir prazer com e pela raiva.

Também não estou fazendo apologia e propaganda do direito de cada um fazer "o que bem entende" - porque disso também já temos o bastante.  Além da conta...

Não sou do tipo defensor dos direitos dos animais e nem tenho bicho de estimação. Na verdade, não sou muito ligado neles. Gosto de vê-los no zoológico, especialmente os felinos, ursos, antílopes... Também gosto da fauna marinha. Dos peixes, crustáceos e mamíferos, como os golfinhos e baleias.
Mas também não gosto - e gosto menos ainda - de vê-los sofrer e de ver seu habitat sendo destruído.
Paradoxalmente, parece que cachorros e gatos não compartilham desse sentimento. Quando vou na casa de pessoas que os tem, eles invariavelmente andam em torno de mim, especialmente os gatos, mesmo os tidos como ariscos e que se escondem quando chega alguém estranho... teimam em vir se  esfregar nas minhas pernas, e, pasmem, me lamber. Ou o que é pior: pular no meu colo!
Alguém já sentiu aquela língua áspera de um gato? To fora. Fora! Da língua e de dar colo.

Também tenho minhas restrições e discordâncias com a humanização dos animais e aquele tipo de antropomorfismo que insiste em tratar os bichos como pessoas (ou melhor do que elas).

Também já me passou pela cabeça: "acho que prefiro um cachorro do que determinadas pessoas".
Enfim... coisas da minha vida.

Então, onde é mesmo que quero chegar com esse texto? Não sei, talvez a lugar algum. Talvez queira apenas discorrer sobre coisas que penso e vejo e, desse jeito, expressar um outro olhar de touro, o meu (sou do signo de touro).

* Clique meu durante uma tarde com Pedro e Elisa pelos "potreiros" de interior gaúcho.

02 janeiro, 2012

Dueto Quadrante para Um Fauno... e outras coisas mais




Dueto Quadrante para Um Fauno

Metade em mim é curva
A outra metade é reta
Não o que se mede
Nem o que escapa ou perde
É a metade correta
Do ponto que se reflete.


Metade em mim é terra
a outra metade é mar.
Não por onde se navega
Ou se colhe desventura
O caminho que me profana
É o destino que se aventura.


Metade em mim é labirinto
A outra metade é encontro.
Não o que se nega no espelho
Nem na face se escreve
A linha que se desfia
No mesmo rumo se tece.


Metade em mim é palavra
Que se completa com o silêncio.
A pedra é o que se define
O verbo só se revela
Não por acaso ou sorte
De quem persegue ou apela.


Metade de mim se perdeu
A outra metade não conta.
Não por desejo ou claridade
O fogo da noite é tormenta
toda alma tem a idade
Do corpo que se inventa.


Metade em mim se comove
A outra metade é atenta.
Não que a mão traga pronta
a sina de cada verso
Embora a rima esconda
O metro do universo.

Ubirajara Mello de Almeida


.........................................

Metade em mim é flor
A outra metade é dor
Não o que se sente
Nem o que faz chorar ou rir
É a metade ferida
Que ainda me faz sorrir.


Metade de mim é aço
A outra é chão
Não por onde se trabalha
Ou se é reconhecido
A metade que me inflama
É a sorte da paixão


Metade de mim é espelho
A outra metade é imagem
Não o que se nega no espectro
Nem na sorte lançada
A via que se caminha
É teia embaraçada.


Metade de mim é silêncio
Que se completa com poesia
O livro que o define
Só a letra revela
Pelo desejo da família
Que se cumpre na elegia.


Metade de mim encontrei
A outra metade me amedronta
Não por querer ou vontade
A luz da noite é amena
Todo tempo que passa
Deixa uma saudade pequena.


Metade de mim voa
a outra metade é lenta
Não que Hermes interrompa
A viagem em cada passo
Embora as asas ligeiras
Correm e não deixam rastro.

Jandira Mello de Almeida Cahet




Metade de mim é lógica
A outra metade é emoção
Não o que se vasculha
Nem o que me invade
É a metade incontrolável
Que dá razão à sensibilidade.


Metade de mim é terra
A outra metade é pântano
Não por onde se desfaleça
Ou se caia e feneça
É onde o medo aparece
E o desafio enternece.


Metade de mim é razão
A outra metade é sentimento
Não o que se nega à entrega
Nem que vive só de momento
É a forma de conhecer
Que se tece sem lamento.


Metade de mim é discurso
Que se completa com ação
O silencio que os define
É oriundo da reflexão,
o autoconhecimento
que provoca o pensamento.


Metade de mim é asa
A outra metade é raiz
Não por desejo
e nem mesmo por contradição
Cada um é uma casa
Onde habita o coração.


Metade de mim se encanta
A outra metade se cansa
Não que a vida seja mansa
Basta caminhar como criança
Embora o escrito não precise fiança,
O tamanho dos feitos é que o alcança.


Metade de mim é paz
A outra metade erupção
Minha alma é grande e tudo faz
E busca a comunhão
Mas quando dela se desfaz
Fica em ponto de ebulição.


Metade de mim é Natal
A outra metade, ano novo
Um desejo de permanência,
Lindo como cristal,
Mesclado com a imanência
De alcançar outro manancial.

Metade de mim é diamante
A outra metade é cascalho
Como pode o pretenso amante
Ser lapidado de um só talho?


Metade de mim gostou
A outra metade quer mais
Desse escrito que terminou
Mas que já soa como demais

Cesar Ricardo Koefender