JORGE DE LIMA (1895-1953)
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E tudo haveria de ser assim, para contemplar-te sereno, ó morte,
e integrar-me nos teus mistérios e nos teus milagres.
Agora vejo os Lázaros levantarem-se
e...
28 abril, 2009
Palavras poéticas sobre o nada... e o tudo
Quem já viveu e criou seu mito-reconhecido (ou não) como-mito
sabe o quanto de tudo há nesse nada...
E sabe, também, de como há nada nesse tudo.
Sem Nada
Na ciência exata,
na palavra abstrata,
no retalho das horas
ou no inteiro do meu corpo,
te quero.
Como meu inverso complexo
ou o sonho mais simples.
Como meu zelo concreto
ou meu oceano deserto.
Se você desiste,
eu insisto.
Se você se curva,
eu me levanto.
Se você se entrega,
eu me rebelo.
Se você duvida,
eu acredito.
Se você teme,
eu confio.
Não que eu seja melhor,
mas pra não acordar com o arrependimento
batendo em minha porta
e ainda te carregar aqui dentro
sem poder fazer nada.
Pois você vicia
e não quero cura.
Você fascina
e não tenho domínio.
Tenho apenas meus desejos,
que em segredo,
colocarei dentro de ti.
Cristian Ribas
25 abril, 2009
OS SOBREVIVENTES FALAM, por Jorge Volnovich
OS SOBREVIVENTES FALAM
Jorge Volnovich
Os mitos são analisadores da história e através dos mesmos emerge o inconsciente da humanidade. Da mesma forma, os mitos familiares designam e produzem lugares subjetivos, memórias e afetos tanto singulares quanto coletivos numa sociedade. Minha própria história está marcada por um mito: meu avô materno, intelectual e membro ativo da comunidade judaica da Argentina, escreveu um livro. Seu título era “Os sobreviventes falam”.
Desde criança escutava, nos relatos cotidianos familiares, o que achava uma verdadeira façanha e nem imaginava sequer imitá-la. Ter um avô judeu, do povo, do livro, escritor de um livro sobre os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto, era um motivo de orgulho muito antes de haver lido o mesmo.
Devo confessar que, apenas na minha velha adolescência, tive a oportunidade de ler suas páginas, e resultaram tão traumáticas que decidi considerá-las chatas. De alguma forma, o mito superava a realidade – como todos os mitos – e ficava inscrito no desejo familiar de eternizar um vínculo que honrava a gente. Mais do que isso, o livro tornava a nossa família sobrevivente, inaugurando a onipotente idéia de que éramos capazes de sobreviver a todas as doenças, a qualquer desastre, até às guerras que tivéssemos que padecer.
Ah, doce onipotência aquela que acompanha a infância e a adolescência! Garante que sempre sobre-vivemos e não apenas podemos superar toda adversidade, mas que estamos além da vida e além da morte.
E não é o caso que o mito tenha funcionado plenamente no que a mim diz respeito!
Com efeito, como médico e psicanalista de crianças decidi, ou melhor, dizendo, o devir me levou a decidir começar a trabalhar, aproximadamente em 1995, com crianças e adolescentes objetos de maus-tratos, negligência e abuso sexual por parte dos responsáveis em protegê-los, o que envolvia, além da própria família, as instituições educativas, religiosas ou desportivas.
Comecei, então, a escutar os relatos dos meninos e das meninas, assim como dos adultos que foram crianças vítimas de maus tratos, e percebi que, em cada escansão traumática, falava um sobrevivente.
Os sobreviventes falavam para mim numa sociedade que proclamava, e ainda proclama uma forma de vida centrada na tecnologia e no gozo do consumo, como se as megalópoles fossem um gigantesco Shopping Center, enquanto seus relatos revelavam a existência de um campo de concentração e de trabalhos forçados sem esperança. Como sustenta Giorgio Agamben, existe uma vida “nua” oculta pela forma de vida pós-moderna e desta vida “nua” falavam e continuam falando para mim os sobreviventes.
O Rio de Janeiro é uma cidade de sobreviventes. Na sua memória estão inscritos o Massacre da Candelária, a Chacina de Vigário Geral, a extrema pobreza, a indigência e a mendicância, junto com os sucessivos fracassos da democracia representativa, o totalitarismo militar de 64, com seus mortos e desaparecidos, e tantos outros traumas sociais, políticos e subjetivos que, diante disso, qualquer catástrofe natural ou ambiental costuma parecer uma banalidade.
O mais importante é que todos esses “desastres” afetaram profundamente a subjetividade singular e coletiva dos cariocas. Ao mesmo tempo, a elaboração traumática dos mesmos resulta num penoso e triste percurso de exílios a outros países e “insilios” – neologismo criado por Hernan Kesselman - nos condomínios, casas, apartamentos ou comunidades fechadas, de retornos desses exílios e seus respectivos “insilios”, de tentativas frustradas e insistentes de reparar o irreparável.
Mas, caso tenha aprendido alguma coisa escutando os sobreviventes, isto é - que se sentem duplamente culpados - culpados de terem sido parte do ato que os vitimizou e culpados de terem sobrevivido ao mesmo.
Como um pêndulo em seu movimento incessante, o discurso das vítimas aponta no seu compasso o se desculpabilizar por terem sido vítimas, considerando que os agressores não apenas não sentem culpa, e caso tivessem uma outra oportunidade, atacariam de novo. No outro ápice do movimento pendular, a necessidade de se desculpabilizar por sobreviver e não haver morrido como os outros.
O Rio de Janeiro está cheio de vítimas que se sentem culpadas de terem sido vítimas e de sobreviventes que negam sua condição como tais.
Assim sendo, o pêndulo da subjetividade na nossa cidade torna-se uma tentativa permanente de esquecer e de se dissociar esquizofrenicamente, enquanto se exigem reparações impossíveis. Ou procuram-se desesperadamente culpados nos guetos impostos às minorias discriminadas e às maiorias supostamente incluídas.
Os sobreviventes falam e escutando suas palavras percebi até que ponto o esquecimento do trauma os condena a repetir ativamente os maus tratos que sofreram passivamente ou, muitas vezes, a trocar a categoria deste trauma (uma boa pancada) por uma omissão absoluta de qualquer limite às demandas dos outros. Não podemos ficar surpresos de que na nossa sociedade o autoritarismo tenha se transformado em vazio, mergulhando grande parte do nosso povo não apenas na categoria de excluídos, mas, fundamentalmente, na de esquecidos.
Os sobreviventes falam e escutando suas palavras constatei que, muito embora o autoritarismo e a ditadura violenta da paixão patriarcal tenham deixado marcas indeléveis nas mentes, nos corpos e nos corações, não são menos intensas essas marcas a respeito dos que calaram frente às feridas sofridas.
Com efeito, crianças e adultos que alguma vez o foram repetem sem cessar que o agressor é ainda mais perdoável que aquele que teria que tê-lo protegido e não o fez. Não é um erro: o inconsciente sabe que nunca o pior inimigo pode ser mais fatal que o silêncio do melhor amigo.
Os sobreviventes falam e escutando suas palavras ganha sentido para mim o significado da palavra refém.
D
e forma constante, os sobreviventes do Holocausto tentaram explicar que sempre foram reféns do nazismo e de suas próprias esperanças, ainda que não tivessem mais esperanças. Da mesma forma, toda vítima de maus tratos ou abuso sexual transmite a vivência de ter ficado numa armadilha, como refém do agressor, o que a levou a pensar que, embora sofrendo, melhor continuar suportando de forma masoquista a dor do que não achar nenhuma outra saída que não fosse a própria morte.
Podemos pensar que os cidadãos cariocas hoje são reféns de políticos, narcotraficantes, bandidos e até da culpa pela sua própria história?
Para não desmentir Foucault, os micropoderes reproduzem o caráter de refém que adotou a subjetividade singular e coletiva da cidade, que não é diferente no mundo globalizado que vivemos.
As crianças são reféns de um sistema educativo e familiar que diz que dá muito e na verdade oferece muito pouco. Os consumidores são reféns das leis do mercado. Os profissionais, em especial os que trabalham na saúde, são reféns de um Estado que os “libera” para serem autônomos e, ao mesmo tempo, os condena a viverem na precariedade.
Talvez o maior pecado cometido pelos governos atuais e passados seja precisamente não quebrar a condição de refém da nação brasileira, tanto das forças econômicas externas, quanto dos corruptores e corrompidos internos, o que explica parcialmente a cultura da precariedade na qual vivemos. Nesse sentido, sem dúvida, a maior parte dos brasileiros é campeã em sobreviver em condições precárias e ainda mais precárias... Sempre haverá espaço no Brasil para uma maior precarização da vida, dívida humana que o Estado não pode pagar com precatórios.
Os sobreviventes falam e escutando suas palavras ganha corpo e sentido o aforismo: “Não esquecer, não perdoar!” que nutriu as gerações posteriores ao Holocausto e hoje anima o discurso de várias organizações dos direitos humanos, como Tortura Nunca Mais.
Esse lema, “não esquecer, não perdoar!”, não fica restrito à procura de justiça e até de vingança inconsciente, que almeja toda sociedade contra os agressores, mas encontra sua maior potência quando ajuda a considerar sempre presentes as condições que possibilitam o surgimento do fascismo e do totalitarismo nas suas versões tupiniquins. Por isso é bom lembrar que numa cidade de sobreviventes, as leis podem ser bem mais duras, mas não conseguirão inibir os agressores, nem tornar as pessoas mais justas.
Ao mesmo tempo, quando falam os sobreviventes também é possível perceber a dignidade de seu discurso. Embora vivendo em condições precárias, alguma coisa dessa dignidade se torna corpo e merece que não seja letra morta o que chamamos “direitos humanos”. Mas quando me refiro aos direitos humanos, estou aludindo aos direitos de todos os habitantes deste planeta, não apenas aos meus direitos ou aos nossos, como bem assinala Gregório Baremblitt.
Talvez a maior dignidade do discurso dos que sabem que são sobreviventes deva-se ao fato de que não têm álibi, condição essencial, segundo Jacques Derrida, para retornar a certa condição humana perdida. A sociedade carioca, a que nega a condição traumática da história e a vida que tem que viver, fez do álibi um sinônimo de existência, considerando o cinismo que impregna as palavras dos políticos, dos intelectuais, dos profissionais, dos sindicalistas e, fundamentalmente, dos meios de comunicação.
Não falo de hipocrisia - porque em última instância os hipócritas vivem de álibis para sustentar o saber recalcado e esquecido - mas de cinismo porque, ainda sabendo o que acontece na nossa cidade, o desmentem sempre. Como Diógenes, nós, os cariocas, procuramos um discurso honesto e não conseguimos achá-lo nem em nós mesmos.
Talvez esse discurso só seja honesto, quando parte dos sobreviventes que sabendo da sua condição falam dos traumas que ninguém quer escutar.
De fato, o discurso do sobrevivente fica em oposição à razão neo-eficientista que domina nosso planeta, pela qual todo ser humano é uma sofisticada máquina eficiente, sujeito apenas às palavras de ordem com as seguintes instruções: caso não funcione corretamente, “desligue e ligue de novo”, e caso nem assim tenha jeito, “compre um outro, novinho em folha”. Com a potência performática deste tipo de discurso os cariocas devem ficar ligados ou des-ligados e muitas vezes descartados, no caso de apresentarem defeitos insalváveis.
Pelo contrário, escutar um sobrevivente significa mergulhar permanentemente no sentido trágico da existência, o que o consumo nega num universo de banalidades efêmeras.
Em cada frase, em cada silêncio existe uma dor e uma falta de reconhecimento dos outros para com essa dor, que desenvolve um universo paranóico que não permite nenhuma dissociação criativa, a menos que seja absolutamente esquizofrênica. Não é fácil suportar, no dia a dia, o falar um sobrevivente e, sem dúvida, muito menos fácil é compreendê-lo nesse pouco de heroicidade outorgado pelo saber demais sobre a morte e a vida.
É necessário, então, que um sobrevivente seja compreendido por um outro sobrevivente?
Muitos de meus amigos e colegas que entregam suas vidas e seu trabalho à proteção dos direitos de crianças e adolescentes neste país, sabem muito bem que o trauma dos sobreviventes é contagioso e costuma penetrar na carne dos que tentam dar um continente a seu discurso. Também sabem da vontade de beber o xarope do esquecimento por parte de uma sociedade ansiosa por reivindicar o pragmatismo de um corpo cheio de reais ou, pelo contrário, se identificar à figura do justiceiro por mão própria, ou promovendo leis mais duras contra os adolescentes cada vez mais novos.
Com efeito, são tantas as armadilhas cotidianas que finalmente costumamos cair nelas e, nesse sentido, devo reconhecer que, caso o inconsciente não arme ciladas, os psicanalistas são especialistas em gerá-las e cair nelas. E quando falo dos psicanalistas, faço-o não só em função de minha própria implicação, mas também pelo fato de sermos, em muitas ocasiões, responsáveis em escutar falar os sobreviventes e acabamos adocicando a crueldade do político real, numa rede interminável de fantasias familiares ou masoquismos irrestritos.
Não acreditem que falo dos psicanalistas, dos psicólogos ou dos psiquiatras apenas, mas também o faço de uma sociedade que coloca a sobrevivência como um problema de Saúde Mental!
Não é assim! Trata-se de um problema político-social-econômico e subjetivo, que nenhum tipo de hipercodificação - tipo stress pós-traumático - presente no CID-10 ou DSM-4, conseguirá resolver, a menos que pretendamos estigmatizar e enquadrar a vítima no seu nome de vítima. Aliás, a mais moderna parafernália de cura para os sobreviventes leva o nome de resiliência, uma outra palavra de ordem performática, destinada a absolver o Estado da responsabilidade para com seus cidadãos, e ao conjunto da sociedade da culpa frente à desigualdade social, criando a fantasia de que uma potência individual endopsíquica e biológica possa transformar um sobrevivente num mestre de si mesmo e dos outros.
Isto porque o problema da sobrevivência em nossa cidade, neste continente, em nosso universo, não é um problema menor que possamos atribuir às camadas pobres da população deste mundo. Muito menos de todos aqueles que se seguram na inclusão social pagando o preço enorme de serem normais e da loucura. A questão é que o discurso dos sobreviventes institui, antes de qualquer coisa, o discurso da resistência política e subjetiva aos mecanismos de captura alienantes, que tentam globalizá-los e adaptá-los através de uma tecnocracia cientificista, dentro dos códigos do stress pós-traumático. Como núcleo duro, trágico, ferida aberta à dor, o sobrevivente resiste, insiste e diz: “eu não me importo com o stress pós-traumático, muito menos com a resiliência. Nunca Mais!”.
Os sobreviventes falam: O livro que meu avô escreveu, o livro com os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto, é como um Nunca Mais. Talvez as jovens gerações não consigam ler seu texto duro ou considerem o mesmo chato pela intensidade traumática que propõe, mas sempre seu lema será um grito de dor e de esperança.
Os sobreviventes na nossa cidade são um mito, e dia a dia percebemos que a realidade supera o mito. Sustentam essa hiper-realidade homens e mulheres em farrapos, crianças e adolescentes na rua, milhares de vozes e rostos que não se conformam com as migalhas da justiça social e da outra. Alguns estão tatuados, como os sobreviventes dos campos de concentração: são os adolescentes que, em vez de números, portam na superfície do corpo as imagens da sua identidade.
Outros têm tatuada a alma e falam de um outro mundo possível: são os loucos que, ainda em pleno século XXI, têm negada sua liberdade e continuam recolhidos em hospitais psiquiátricos, que são verdadeiros campos de concentração, como sustentava Franco Bassaglia. Ainda mais, quando o Presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, assim como o Presidente da Associação de Psiquiatras atacam qualquer tentativa de levar adiante a reforma psiquiátrica com um discurso obscurantista, como bem assinala Eduardo Losicer num belo artigo a respeito.
Não faltam na longa listagem de excluídos todos os brasileiros estrangeiros na cidade maravilhosa, condenados a morar nos guetos desta megalópole, chamados antigamente favelas e, hoje, comunidades, como se mudando a semântica, mudasse a ideologia que anima esse confinamento.
Ainda lembro dos desenhos realizados pelas crianças numa Associação de Moradores de uma dessas comunidades, onde os foguetes espaciais e bonecas terrenas eram confundidos com desenhos da polícia, das armas e das questões da vida e da morte na favela. Esses desenhos, ratificando a condição de testemunhos de sobrevivência, como alguma vez relatou uma colega nossa, são semelhantes aos desenhos feitos pelas crianças nos campos de concentração nazista, que podemos observar na mais velha sinagoga de Praga.
Enfim, são tantas as vozes brasileiras que sustentam esta realidade mítica, que não seria suficiente apenas um trabalho deste tipo para contar todos os testemunhos de sobrevivência.
Mas como falava no início destas dolorosas palavras, meu próprio mito familiar foi criado para enaltecer. Da mesma forma, o sobrevivente é testemunha do privilégio da vida sobre a morte, da resistência aos ícones da estupidez humana, da transformação da vergonha em manifestações de dignidade.
A nós - que escutamos o discurso duro e traumático dos sobreviventes, seja nos grandes centros urbanos como nas comunidades mais afastadas e marginalizadas, sejam estes crianças, adolescentes ou adultos - a nós compete também sobreviver e saber que as palavras que nós mesmos dizemos estão carregadas dessa dimensão trágica que nos implica.
Isto é, pois, o que me foi ensinado ou o que tenho aprendido escutando os sobreviventes: a sobrevivência é um mito ativo que não está reduzido ao grito e à dor. Exige justiça e a obrigação de rejeitar a impunidade que sempre é o principal segredo do totalitarismo, como o foi antes do patriarcado e hoje o é do mercado.
Disso, falam/falamos os sobreviventes.
O Pensamento Complexo de Edgar Morin e sua Ecologia da Ação, por Angélica Sátiro
O PENSAMENTO COMPLEXO DE
Edgar Morin E SUA ECOLOGIA DA AÇÃO
por Angélica Sátiro*
A Revista Linha Direta vem realizando um interessante trabalho de intercâmbio e divulgação de idéias de pensadores contemporâneos através de sua seção HIPERTEXTO.
Preservando um espaço que vai além de uma simples entrevista, convida intelectuais inquietos e produtivos, agentes de mudança e de transformação para "dialogar" com nosso leitor. Nesse número, fomos brindados com um presente: o sorriso amável do francês Edgar Morin.
Edgar Morin (Paris, 1921) é considerado um dos maiores pensadores do século XX. É doutor honoris causa em 17 universidades de diversos países, tais como Itália, Portugal, Espanha, Dinamarca, Grécia, México, Bolívia e Brasil (em João Pessoa e Porto Alegre). Para estudar os problemas do humano e do mundo contemporâneo, passa por distintas áreas do conhecimento: ciências biológicas, ciências físicas e humanas entre outras. Tem formação pluridisciplinar, é sociólogo, antropólogo, historiador, geógrafo e filósofo, mas acima de tudo é um intelectual livre que nos propõe uma visão transdisciplinar do pensamento. Tem mais de 40 livros de Epistemologia, sociologia, política e antropologia, publicados e traduzidos em diversas línguas. Merece ser destacada sua obra de 4 volumes, intitulada El Mètode que trata da transformação das ciências e do seu impacto na sociedade contemporânea. É diretor do Centro de Estudos Transdisciplinares em Paris, (EHESS), presidente da Agência Européia de Cultura da UNESCO e presidente da Associação de Pensamento Complexo. É um apaixonado pelas artes em geral, principalmente pela literatura e pelo cinema. E gosta de ressaltar que durante a II Guerra Mundial, foi combatente voluntário da resistência francesa nos anos de I942 a 1944, lutando contra o nazismo e o stalinismo.
Nosso encontro ocorreu no cenário gótico da Universidade de Girona, na Espanha. Edgar Morin estava lá como convidado do professor José Maria Terricabras, da cátedra Ferrater Mora, a quem devemos nosso mais caloroso agradecimento por facilitar essa entrevista.
Linha Direta Qual é a educação necessária para o século XXI?
Edgar Morin Há que se fazer uma total reorganização da educação. E essa reorganização não se refere ao ato de ensinar. Refere se à luta contra os defeitos do sistema que estão cada vez maiores. Por exemplo, o ensino de disciplinas separadas e sem comunicação entre si produz uma fragmentação e uma dispersão que nos impede de ver globalmente coisas que são cada vez mais importantes no mundo. Existem problemas centrais e fundamentais que permanecem completamente ignorados ou esquecidos e que são importantes para qualquer sociedade e qualquer cultura.
Linha Direta O senhor se refere ao seu estudo sobre os sete saberes necessários para a educação do futuro?
Edgar Morin Sim, refiro me aos sete saberes necessários que implicam em ensinar a:
• Reconhecer as cegueiras do conhecimento, seus erros e ilusões.
• Assumir os princípios de um conhecimento pertinente
• Condição humana
• Identidade planetária
• Enfrentar as incertezas
• compreender
• ética do gênero humano
Linha Direta Poderia fazer um comentário mais detalhado para cada um deles?
Edgar Morin Entende se reconhecer as cegueiras do conhecimento, seus erros e ilusões, é assumir o ato de conhecer como um traduzir e não como uma foto correta da realidade. Trata se de armar nossas ates para o combate vital pela lucidez e isso o significa estar sempre buscando modos de conhecer o próprio ato de conhecer:
Por assumir os princípios de conhecimento pertinente, entende se a necessidade de ensinar os métodos que permitam apreender as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo se mundo complexo. Trata se de envolver uma atitude mental capaz abordar problemas globais que contextualizem suas informações parciais e locais.
Ensinar a condição humana deveria ser o objeto essencial de qualquer sistema de ensino e isso passa considerar conhecimentos que estão dispersos em várias disciplinas como as ciências naturais, as ciências humanas, a literatura e a filosofia. As gerações precisam conhecer a unidade e a diversidade do humano.
Ensinar a identidade planetária tem a ver com mostrar a complexidade da crise planetária que caracteriza o século XX. Trata se de ensinar a história da era planetária, mostrando como todas as partes do mundo necessitam ser intersolidárias, a vez que enfrentam os mesmos problemas de vida e de morte.
É preciso aprender a tentar as incertezas reveladas ao longo do século XX através da microfísica, da termodinâmica, da cosmologia, das ciências biológicas evolutivas, das neurociências e das ciências históricas. É preciso aprender a navegar no oceano das incertezas através dos arquipélagos das certezas.
Compreender é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana, portanto não pode ser algo desconsiderado pela educação. E, para tanto, precisamos passar por uma reforma das mentalidades.
Por ética do gênero humano, entendo uma abordagem que considere tanto o indivíduo, quanto a sociedade e a espécie. E isso não se ensina dando lições de moral. Isso passa pela consciência que o humano vai adquirindo de si mesmo como indivíduo, como parte da sociedade e como parte da espécie humana. Isso implica conceber a humanidade como uma comunidade planetária composta de indivíduos que vivem em democracias.
Linha Direta Sua proposta é muito interessante, mas parece ir contra um movimento que tem ocorrido tanto na Espanha, quanto no Brasil. Trata se da proposta de realizar avaliações que buscam medir a quantidade de conhecimento dado por essas disciplinas fragmentadas. Com base em dados vindos dessa forma de avaliar, separam se os alunos pelo nível de informação que foram capazes de reter e se afirma uma média educacional nacional. Como o senhor vê esse tipo de iniciativa?
Edgar Morin Não sou a favor de nenhum tipo de segregação, uma vez que ao longo da vida passamos por tudo: atrasos, progressos, encontros, desencontros, crises. Esse tipo de avaliação é uma forma de segregação que não ajuda a organizar o conhecimento e suas relações entre as distintas informações. Os dados e fatos que cabem em avaliações desse tipo não são conhecimentos, representam um vazio que não reflete nenhum dos sete saberes enunciados anteriormente.
Linha Direta Um outro contra exemplo para a idéia que o senhor apresenta seria o ocorrido em I I de setembro de 2001, não é verdade?
Edgar Morin É evidente que sua pergunta é muito importante e pede um tipo de resposta que vai além do tempo que podemos dedicar a essa entrevista. Mas vou tentar resumir o que penso sobre isso. Temos ouvido falar de choque de civilizações em discursos pessimistas que revelam um maniqueísmo simétrico com direção trágica. De um lado, o fenômeno da modernização que é baseado na homogeneização geral, é um processo que suscita diversos tipos de reação nas civilizações mais antigas: Elas se aferram a seu passado, às suas raízes e à sua religião, porque têm medo de perder sua identidade. De outro lado, fracassou no mundo ocidental, a fé no progresso tecnológico e econômico como algo que nos conduzia à um mundo melhor. Já se sabe que esse progresso pode gerar inclusive o fim do mundo com uma guerra atômica.
Mas, não podemos entender as conseqüências possíveis desse momento como determinação histórica. E, portanto, não devemos aceitar a idéia da inevitabilidade da guerra.
Linha Direta Mas parece que temos outros indícios que também vão a direção contrária ao que o senhor propõe. Estamos vendo que tanto na Europa quanto em outros países do mundo, a extrema direita tem avançado de modo muito evidente. Como o senhor vê esse retorno à ideologia de extrema direita?
Edgar Morin Concordo que haja uma ressurreição de coisas do passado que deveriam ter sido esquecidas ao longo do tempo. Mas, a questão é saber se isso é algo que permanecerá minoritário e localizado ou se pode vir a assumir grandes proporções em todo mundo. Compreende se que isso ocorre em função do clima de incerteza atual e da angústia gerada por essa política do dia –a dia que não dá esperanças de melhora para seus cidadãos. A globalização e a imigração que vem principalmente da África e dos países da América do Sul têm causado na Europa um aumento da necessidade de identidade nacional. Essa identidade de pátria faz com que as relações de cooperação internacional fiquem frágeis, além é claro de dar lugar a inúmeros tipos de ações racistas. A imigração da forma como está ocorrendo tem trazido questões complexas como a marginalização, a delinqüência juvenil e o conseqüente aumento de violência urbana. Da forma como aparecem, esses são fatores que favorecem a extrema direita.
Mas volto a insistir que não são determinismos, o futuro está limpo e não se deve pensar que o perigo é inevitável. Precisamos estar em estado de vigilância para que isso não cresça, mas não em estado de alarme como se esse fosse um mal inevitável. Para contrapor a tudo isso está a educação. E é por isso que venho desenvolvendo os últimos volumes da obra . O Método. O quinto volume está dedicado à educação e no sexto volume, desenvolvo minha proposta ética de resistência à crueldade do mundo.
Linha Direta O senhor poderia nos explicar as linhas gerais dessa sua proposta ética?
Edgar Morin Falo de autoética, de sócioética, de antropo ética e de ética planetária. Isso porque vejo o indivíduo, a sociedade e a espécie como categorias interdependentes. Diante de toda a complexidade contemporânea não há como descartar alguma dessas perspectivas. O problema atual da ética não é o dever, a prescrição, a norma. Não precisamos de imperativos categóricos. Precisamos saber se o resultado de nossas ações corresponde ao que queríamos para nós mesmos, para a sociedade e para o planeta. Já sabemos que não basta ter boa vontade, uma vez que em nome dela foram cometidas inúmeras ações desastrosas. A minha ética é uma ética do bem pensar e está implícito nisso toda a minha idéia de pensamento complexo.
Linha Direta O senhor poderia apresentar uma síntese de sua teoria do pensamento complexo?
Edgar Morin Muitos me vêem como sintetizador, unificador, afirmativo e suficiente que trata de apresentar uma teoria sistemática e global. Mas, devo admitir que isso é um engano, eu não tenho uma teoria que sai do bolso afirmando: "aqui estou, podem jogar fora seus paradigmas anteriores!" Claro que essa proposta de pensamento complexo é fruto de um esforço em articular saberes dispersos, diversos e adversos. Mas a própria idéia de complexidade conduz a uma impossibilidade de unificar, uma vez que parte da incerteza admite o reconhecimento cara a cara com o indizível. A complexidade não é uma receita que eu dou, é apenas um convite para a civilização das idéias.
O pensamento complexo é a união entre a simplicidade e a complexidade. Isso implica processos como selecionar, hierarquizar, separar, reduzir e globalizar. Trata se de articular
o que está dissociado e distinguido e de distinguir o que está indissociado. Mas não é uma união superficial, uma vez que essa relação é ao mesmo tempo antagônica e complementária.
Linha Direta O senhor gostaria de enviar alguma mensagem especial para os leitores da Revista Linha Direta?
Edgar Morin Sinto me muito bem no Brasil e agradecido pelo reconhecimento que me dedicam, no mês de agosto de 2002, quando estive em São Paulo. Sempre estou em contato, porque me sinto em harmonia com os pensadores e educadores brasileiros, vejo que tratamos questões similares com enfoques similares e isso me alegra muito. Que sigamos com nossa ecologia da ação!
Linha Direta A revista agradece ao professor Josep Maria Terricabras e à cátedra Ferrater Mora da Universidade de Girona pelo apoio à realização dessa entrevista, bem como à professora Irene de Puig pela facilitação às informações. Agradece evidentemente ao entrevistado que, por sua atitude durante a entrevista, demonstrou ser coerente com as idéias que apresenta. Pedimos permissão a ele para encerrar essa entrevista citando o:
"Somos habitantes da Terra. Citamos a Holderlin e completamos sua frase dizendo: prosaica e poeticamente o homem habita a Terra. Prosaicamente (trabalhando, fixando se em objetivos práticos, tentando sobreviver) e poeticamente (cantando, sonhando, gozando, amando, admirando), habitamos a Terra.
A vida humana está tecida de prosa e poesia. A poesia não é só um gênero literário, é também um modo de viver a participação, o amor, o fervor, a comunhão, a exaltação, o rito, a festa, a embriaguez, a dança, o canto que transfiguram definitivamente a vida prosaica feita de tarefas práticas, utilitárias e técnicas. Assim, o ser humano fala duas linguagens a partir de sua língua. A primeira denota, objetiva, funda se no lógica do terceiro excluído. A segunda fala através da conotação, dos signifcados contextualizados que rodeiam cada palavra, das metáforas, das analogias, tenta traduzir emoções e sentimentos, permite expressar a alma. (...) No estado poético, o segundo estado se converte em primeiro. "
Esperamos que a entrevista inspire o leitor a seguir educando prosaica e poeticamente, lembrando que um estado pode converter se em outro.
*Angélica Sátiro é escritora, educadora e doutoranda na universidade de Barcelona. Investiga as relações entre criatividade e ética. e mail: angelsatiro@hotmail.com
A um ausente, por Drummond... e a Vida das Coisas
Nossos amores chegam e ficam
Nossos amores chegam e vão.
Nossos amores nem chegam a chegar.
Nossos amores nem chegam a partir, quando os queremos longe...
Nossos amores...
Dentre As coisas da Vida está a Vida das Coisas, ou seja, o fim, a saudade, a morte, o abandono e/ou os respectivos desejo de continuidade, permanência, vida desejada, sentimento de rejeição e abandono.
Dialógica dos afetos e das práticas sociais e amorosas.
Relacionamentos terminam, começam e se modificam: coisas da vida!
Relacionamentos terminam e terminam: vida das coisas!
Drummond, bastante dramático, acusa, com seu desejo de presença, o "irredutível outro", aquele que não se curva à sua vontade, dele, do Drummond... ou daquele a quem ela fala nessa bela poesia (ou é poema... ainda não sei as diferenças... já que não sou versado nessa arte... coisas da vida... não se pode SER versado em muitas coisas... rsrsrs)
Sobre o fim... ou... "A vida das Coisas"... tempo de duração... que tenha sido eterno enquanto durou.
A duração, ou... o tempo que é ilusão... dada as intensidades do Encontro... pode se perpetuar na lembrança... recuperada pela memória e... transformada em novas leituras: terá havido ruptura? Terá havido antecipação da hora? Terá sido isso que houve?
Desnecessário, embora nem sempre irresistível, pensar no que fiz que provocou sua ida. Partida...
Desnecessário... porque sua ida pode ter sido obra de você, sem ter nada a ver comigo. Nada a ver?
Pode um se afastar do outro sem influência desse segundo?
Perguntas que se tornam inócuas, infrutíferas... porque apontam para o inconcebível... irrecuperável.
O real se impõe, como materialidade, para além do desejo (de presença).
Sim... "você" se foi... e a dor e a saudade ficaram... no seu lugar... em mim, comigo!
Amargo consolo o da memória.
Suave alento o da lembrança!
Mas foste. E... talvez... nunca voltes.
Por isso... você é um ausente.
O que é um ausente? Se, recuperado pela memória, está aqui... sem estar?
Um ausente é aquele que foi e não está.
Ponto.
.....................
Dialógica dos afetos e das práticas sociais e amorosas.
Relacionamentos terminam, começam e se modificam: coisas da vida!
Relacionamentos terminam e terminam: vida das coisas!
Drummond, bastante dramático, acusa, com seu desejo de presença, o "irredutível outro", aquele que não se curva à sua vontade, dele, do Drummond... ou daquele a quem ela fala nessa bela poesia (ou é poema... ainda não sei as diferenças... já que não sou versado nessa arte... coisas da vida... não se pode SER versado em muitas coisas... rsrsrs)
Sobre o fim... ou... "A vida das Coisas"... tempo de duração... que tenha sido eterno enquanto durou.
A duração, ou... o tempo que é ilusão... dada as intensidades do Encontro... pode se perpetuar na lembrança... recuperada pela memória e... transformada em novas leituras: terá havido ruptura? Terá havido antecipação da hora? Terá sido isso que houve?
Desnecessário, embora nem sempre irresistível, pensar no que fiz que provocou sua ida. Partida...
Desnecessário... porque sua ida pode ter sido obra de você, sem ter nada a ver comigo. Nada a ver?
Pode um se afastar do outro sem influência desse segundo?
Perguntas que se tornam inócuas, infrutíferas... porque apontam para o inconcebível... irrecuperável.
O real se impõe, como materialidade, para além do desejo (de presença).
Sim... "você" se foi... e a dor e a saudade ficaram... no seu lugar... em mim, comigo!
Amargo consolo o da memória.
Suave alento o da lembrança!
Mas foste. E... talvez... nunca voltes.
Por isso... você é um ausente.
O que é um ausente? Se, recuperado pela memória, está aqui... sem estar?
Um ausente é aquele que foi e não está.
Ponto.
.....................

A um Ausente
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
(Carlos Drummond de Andrade)
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
(Carlos Drummond de Andrade)
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