22 abril, 2010

Fragmentos de Jack Kerouac In "On the Road"





"Aqui estão os loucos. Os desajustados. 

Os rebeldes. Os criadores de caso. 
Os pinos redondos nos buracos quadrados. 
Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. 
Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. 
Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. 
Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. 
Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. 
E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. 
Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar 
que podem mudar o mundo, são as que o mudam."


....


"(...) porque, para mim, 
pessoas mesmo são os loucos, 
os que estão loucos para viver, loucos para falar, 
loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, 
aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, 
mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício 
explodindo como constelações em cujo centro fervilhante
 - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos
 'aaaaaaah!'. Como é mesmo que eles chamavam 
esses garotos na Alemanha de Goethe?"

Jack Kerouac
In "On the Road"

21 abril, 2010

Prece de Francisco de Assis (comentada)





Senhor,  faz de mim um instrumento de tua paz.

- E que eu encontre em mim e habite harmoniosamente  
os meus opostos, aceitando-os e apreendendo 
a ficar em silêncio, contemplando o esplendor da criação -

Onde houver ódio, fazei que eu leve o amor.  

- Aceitando o ódio que possa existir em mim e 
compreendendo toda as faces com 
que o amor pode se expressar -

Onde houver ofensa que eu leve o perdão

- E que eu me permita ter domínio próprio para não 
ofender e apreenda a perdoar a mim próprio quando o fizer -




Onde houver discórdia, que eu leve a união.

- E que eu aceite a discórdia 
como uma possível geradora de união -

Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.

- Podendo, humildemente, encarar minhas próprias 
dúvidas e buscando em ti o refúgio para elas -

Onde houver erros, que eu leve a verdade.

 - E que eu veja a verdade e as verdades de maneira 
não pragmática, de forma que a “minha verdade” 
não seja a única, nem os erros sejam só os alheios -




Onde houver desespero, que eu leve a esperança.

- E possa eu conviver e aprender com meus momentos 
de desânimo sem me deixar levar pelo desespero -

Onde houver tristeza, que eu leve alegria.

- E possa suportar a tristeza, 
minha e dos outros, 
sendo alegre, ainda assim -


Onde houver trevas, que eu leve a luz.

- E que essa luz seja a portadora das minhas aprendizagens 
-oriundas dos momentos em que passei na escuridão e fui 
por Ti amparado - e da tua luz que nos guia na vontade de Deus -




Oh, Divino Mestre...

Faz que eu procure mais... 
Consolar do que ser consolado,

- E que eu saiba pedir e aceitar 
consolo quando precisar -

Compreender, que ser compreendido,

- E me esforçar constantemente por conhecer-me 
bem  para ter melhor compreensão do outro e das 
suas necessidades -

Amar que ser amado, 

- Podendo me amar, desenvolvendo o respeito, 
para não cobrar o amor que dôo e dou -




Pois é dando que se recebe, 

- E sabendo receber é que se aprende 
e ensina a dar e doar -

É perdoando, que se é perdoado,

- E experienciando o auto perdão para poder entender 
e aceitar os erros alheios como decorrentes de suas imperfeições: 
condição da nossa humanidade -.

E é morrendo que se nasce para a vida eterna.

- E é vivendo e amando a Deus e a vida 
que se perde o medo de morrer - .



A oração é uma prece pronta. 
Já foi definida por alguém e sofre modificações
apenas para se adequar à passagem do tempo e à linguagem.
A oração "Pai Nosso" - ensinada pelo Mestre Jesus - 
é praticamente igual em todas as tradições religiosas cristãs.
A oração é de domínio público.

A prece, no entanto, é uma adequação às necessidades 
afetivas e intencionais da "criatura-criadora" que a realiza. 
Pode-se, através dela, adicionar e/ou subtrair partes da oração, 
colocando nela o que se passa no coração e na mente 
no momento exato em que é professada.
A prece é de domínio privado, no sentido de que é pessoal, 
singular e intransferível... 
ainda que feita em voz alta e em público.


E que a tua Paz, 
amado Mestre, 
e a tua Luz,
preencham os corações e mentes 
que estão lendo esta postagem, 
trazendo-lhes o discernimento, 
a alegria de viver, 
a crença e a fé conjuntas, 
revigorando-lhes as energias, 
as forças e as vontades de seguir adiante sempre, 
rumo ao aprimoramento e à reforma íntima 
que está nos teus ensinamentos, 
de acordo com a vontade de Deus, 
para que este mundo seja um lugar 
melhor, tanto no domínio público quanto no privado 
Estejam e sejam estas pessoas... quem forem.

E que assim seja.

Muito obrigado por tudo 
e por tanto 
que nos tem concedido!



Perguntar para saber e para não saber...










Só perguntaste para saber...
É claro.
Fizeste muito bem.
Há criaturas que perguntam
para não saber.

Fernando Pessoa
in Quaresma, Decifrador

.........................................

Se não sabes o que fazer com a resposta, 

melhor que não perguntes.

Palavras atribuídas ao Mago
In Here and Now





20 abril, 2010

Valeu à Pena, por Andréa Maia





  Pelos desvios,
por mais diferentes os caminhos...


Pelos devaneios,
por todos nossos fortes anseios...


Pelos beijos que foram dados,
por todos os segredos jamais contados...


Pelos sorrisos divididos,
por cada dia , cada momento um dia vividos...
Por tão pouco...

por simplesmente termos vivido tudo...
hoje o "nada" se faz mudo!


Pela saudade que hoje bateu, serena, nada amena!
crava no peito o sentimento de que tudo...
tudo...


Valeu a pena!



Percepção, sensação e desejo





“Percepção” e “sensação” referem-se a potências distintas do corpo sensível: se a percepção do outro traz sua existência formal à subjetividade, existência que se traduz em representações visuais, auditivas, etc., já a sensação traz para a subjetividade a presença viva do outro, presença passível de expressão, mas não de representação. 


Na relação com o mundo como campo de forças, novos blocos de sensações pulsam na subjetividade-corpo na medida em que esta vai sendo afetada por novos universos; enquanto que na relação com o mundo como forma, através das representações, a subjetividade se reconhece e se orienta no espaço de sua atualidade empírica. 


Há entre esses dois modos de apreensão do mundo uma disparidade inelutável – um paradoxo constitutivo da sensibilidade humana. Tal paradoxo acaba por colocar as formas atuais em xeque, pois estas tornam-se um obstáculo para integrar as novas conexões que provocaram a emergência de um novo bloco de sensações. Com isso, estas formas deixam de ser condutoras de processo, esvaziam-se de vitalidade, perdem sentido. Instaura-se então na subjetividade uma crise que pressiona, causa assombro, dá vertigem.


É para responder a essa pressão que se mobiliza na subjetividade a vida enquanto potência de criação e de resistência: o assombro força a criar uma nova configuração da existência, uma nova figuração de si, do mundo e das relações entre ambos (é para isso que se mobiliza a potência de criação, o afeto artístico); o assombro força igualmente a lutar para que essa configuração se afirme na existência e inscreva-se no mapa em vigor, sem o que a vida não vinga (é para isso que se mobiliza a potência de resistência, o afeto político). 


É a associação do exercício destas duas potências que garante a continuidade da vida, sua expansão. As múltiplas transformações moleculares que daí resultam vão se acumulando e acabam precipitando novas formas de sociedade – uma obra aberta e em processo, cuja autoria é portanto necessariamente coletiva. 


O paradoxo do sensível pulsando no coração da experiência subjetiva e a vertigem que ele mobiliza são assim constitutivos do processo de individuação em seu constante devir outro: eles são o motor propulsor da construção da realidade de si e do mundo, seu disparador. Isto faz de todo e qualquer modo de subjetivação, uma configuração efêmera em equilíbrio instável.


Entendamo-nos sobre a palavra “desejo”: atração que nos leva em direção a certos universos e repulsa que nos afasta de outros, sem que saibamos exatamente porquê; formas de expressão que criamos para dar corpo aos estados sensíveis que tais conexões e desconexões vão produzindo na subjetividade. Pois bem, regimes totalitários não incidem apenas no concreto, mas também nesta invisível realidade do desejo: seus movimentos tendem a bloquear-se; proliferam políticas microfascistas. Violência invisível, mas não menos implacável.


Suely Rolnik