14 agosto, 2012

Vitória e derrota: um paradoxo com e sem medalha


Assistir aos jogos olímpicos pode ser uma grande oportunidade de aprendizagem, especialmente se trazermos para o cotidiano e para a realidade de nós simples mortais o que os atletas e os medalhistas  fizeram por lá.
Destaco duas cenas que me marcaram muito.

Cena 1: Epke Zonderland, o Holandês que ganhou a medalha de ouro na barra fixa, brilhantemente.

Aqui a final com os 8 classificados:
(É preciso seguir o link e assistir no YouTube porque o vídeo é do Comitê Olímpico Internacional
e possue direitos autorais...)
Vale à pena assistir; tem 32 minutos e é exuberante. De ótima qualidade.

http://www.youtube.com/watch?v=I0TM2sOnvyI

Aqui o desempenho dele:




Cena 2

A sul-coreana Lam Shin foi prejudicada pelo cronômetro, que teria parado ou tido uma pane e recusou-se a sair da área de combate. Ela fez um protesto silencioso e choroso pela injustiça, no melhor estilo Ghandi. Segundo uma tradição desse esporte, abandonar a área de combate é admitir e reconhecer a derrota.
Como ela poderia admitir reconhecer a derrota para a tecnologia?
Perder para um relógio?






Cenas 3. 4. 5 e adiante.... :  As nossas (possíveis) aprendizagens

Um lindo paradoxo está colocado nessas duas cenas e que nos remete a pensar nas nossas vitórias e derrotas.
Antes de Epke conseguir essa performance nas barras, ele treinou anos - anos - e caiu - caiu  - e errou incontáveis vezes...e nós nos incomodamos e nos irritamos quando uma coisinha não dá certo na primeira tentativa! Que espanto!
Para chegar a perfeição...precisamos de muitas - muitas  -coisas.

Quantas derrotas ele teve? Quantas para o aparelho? E os tombos? E o desânimo que pode ter se apoderado dele nesses momentos?
Quantas vezes ele buscou forças, coragem, disciplina e seguiu adiante? Quantas?
Acho que nem ele próprio sabe.

E a Lam Shin?
Como estaria o estado psicológico dela naquele momento? Teria surtado? Teria "feito" uma crise depressiva?
Não importa: isso é secundário.
O que importa é a recusa em aceitar uma derrota desse tipo.
E protestar.
A capacidade de indignar-se com o que consideramos injusto e demonstrar esse sentimento é condição de existência e até mesmo de saúde.
Quantas vezes nos submetemos às injustiças e aos mal-tratos e nem sequer choramos (duros de orgulho, de falsa sensação de poder, de invulnerabilidade)? Engolimos em seco e fazemos de conta que não é conosco.
Atrasam as consultas, desrespeitam o trânsito, ligam-nos no final de semana para vender produtos... e...
e?
E querem nos fazer crer que a tecnologia tem SEMPRE razão.
Vínculos são prejudicados e grandes problemas ocorrem em decorrência de uma mensagem de texto não recebida dum celular (mas que o visor do aparelho do emitente garante ter sido enviada). Mas que o receptor não recebeu?
E os pagamentos que efetuamos e que não "constam no sistema"?
E as contas indevidas que nos são enviadas - e até cobradas - sem terem sido, jamais, os produtos a elas ligados, solicitadas?

Essa sul-coreana nos faz pensar sobre o que é derrota.
O que é derrota?
Terá sido ela derrotada? Pela máquina que supostamente falhou?
Ou terá sido ela derrotada pela complexidade que envolveu a cena? Complexidade que incluiu a tecnologia e os usos que se faz dela, os juízes, o tempo, a necessidade de definição "de quem afinal ganhou a luta" e seguir com as provas que estavam programadas...
Que derrota é essa, se ela se saiu tão vitoriosa na sua dignidade e na sua manifestação, a ponto de contagiar milhões de pessoas que ficaram solidárias a ela?
Oh sim: ela perdeu a medalha. E perdeu para a tecnologia.
Mas ganhou - e muito - em todos os outros sentidos.
Uma derrota que é uma derrota.
Uma derrota que é uma vitória (ou várias)!

E, voltando ao Epke:
Uma vitória que é uma vitória.
E... uma vitória que foi feita de muitas derrotas anteriores.

Um lindo paradoxo.

Meus parabéns para eles e meu muito obrigado por me fazerem  (re)lembrar disso.


Eles são feras.
Cada um do seu jeito.


24 julho, 2012

Luz no fim do túnel. É?



Fui numa igreja, vazia, fazer uma prece.
Gosto do silêncio que se cria na ausência das
missas e das rezas das católicas de plantão.
Católicas porque são quase todas mulheres.
Fui na lojinha comprar uma vela pequena.
A mulher me ofereceu uma de "7 dias".
Disse que com-uma-dessas eu ficaria
em paz e tranquilo por sete dias.
Não comentei e olhei para ela com 
"cara de samambaia"
pensando no mercado da fé e
da prática espiritual.
Acho que o meu silêncio a incomodou, 
pois por três vezes,
e sem que eu fizesse cometário algum,
ela me disse:
- É bom rezar e buscar uma luz no fim do túnel, né?
Como continuei em silêncio e sem esboçar qualquer sinal 
de concordância ou discordância, 
ela insistiu e repetiu o né ao final da frase:
Né?
Eu disse, querendo sair daquela prisão:
- No meu caso, é luz no meio do túnel, 
porque no fim do túnel sempre tem luz.
E fiz nova pausa.
Ela me olhou como se eu tivesse vindo de outra galáxia
- e decididamente não fez cara de samambaia - 
e uma pequena sombra interrogativa passou pelo seu olhar.
Foi quando completei:
- Em algum lugar, o túnel termina e daí tem luz natural.
Mas no meio do túnel pode estar escuro, 
dependendo de onde a gente está.
Um lampejo de percepção se fez em seus olhos, mas então, 
para meu espanto, ela concluiu:
- É bom uma luz no fim do túnel.

Para não falar em moral da história, mas para dizer que é (MUITO) comum 
encontrarmos pessoas que simplesmente não pensam e não raciocinam
sobre o que lhes é dito e que continuam com a ideia fixa no
que já estavam pensando, sem realmente ouvir o que
lhes está sendo dito. 

Só ouvem o que está
se lhes passando pela cabeça::
um exemplo de "diálogo surdo" 
ou de um monólogo acompanhado.

Sabe quando a pessoa quer te dar uma força,
mostrar que "te entende"...
sem você ter dado qualquer indício
do que está querendo ou precisando?
Então ela "enfia" na sua frente alguma frase pronta,
generalista e/ou de efeito, que mais te
aprisiona do que te convida a falar?

Pois é!
Não que eu quisesse falar alguma coisa com ela...

Na real, 
eu não estava sintonizado com luz 
nem no início, nem no meio e nem no fim do túnel.
Mas ela me criou "esse problema".
Só rindo mesmo... é patético.

Também se vai na Igreja, vazia, para meditar,
fazer uma pausa, agradecer... orar por
quem se quer ou para si próprio...




20 julho, 2012

O amigo e as atitudes amigáveis




Fish: Change of heart

A identidade de amigo
é posta e reposta nos comportamentos e atitudes que vão sendo tomados pelos
atores sociais e afetivos dessa trama.
Tecido cuidadosamente tecido, vai sendo alinhavado e costurado com ações, afetos,
afinidades, respeitos. Intimidades: platôs de intensidade que são heterogêneos na sua convergência para o centro nuclear do vínculo.

Tem aqueles que são amigos (identidade configurada pela continuidade temporal e espacial).
Tem aqueles que estão amigos (característica configurada por variações - ao infinito - na "duração" têmporo-espacial).

Que diferença há entre uma e outra atitudes?
Nenhuma, a rigor, pois amigos (que têm a identidade de amigo) fazem e dizem coisas que não são DO amigo, mas da humanidade deles.
E tem pessoas que não tem a identidade de amigo, que fazem e dizem coisas que são de amigo (e, assim, não DO amigo).

Eu gosto de ambas, dos que são e dos que
estão amigos.
Atitudes e ações amigáveis não identitárias são fundamentais e até imprescindíveis para a mudança no e do mundo em que vivemos.

Amizade não tem idade.
Se dá no aqui-agora da intensidade.
É uma fatia da eternidade.


Enigma: Back to the rivers of believe


Therion: The siren of the woods


A todos que me consideram seu amigo
e a todos que eu considero meus amigos
o meu abração, neste e em todos os dias.
(Isto inclui os que tem identidade de amigo e 
os que não a tem, mas que estiveram amigos com suas
atitudes e ações numa duração de eternidade, 
... em todos os tempos).



13 julho, 2012

O rock e (é) a diferença




O que se produz de novo nada é nos objetos, mas no espírito que os contempla, é
uma ‘fusão’, uma ‘interpenetração’, uma ‘organização’, uma conservação do
precedente que não desaparece quando o outro aparece, enfim, uma contração que se
faz no espírito.” (DELEUZE, 1999, p. 115).

Minha homenagem ao rock no seu dia mundial
vai com a banda Therion: 











"Touring with Therion was different, 8-10 people on stage + 4-5 in the crew. Having our own bus is a good thing and having females around also kills some of the macho vibes."
(Mats Leven, vocalista da banda de 2004 a 2007)











20 junho, 2012

Florbela e Cesar Espanca sobre as belas coisas que gostam




Gosto das belas coisas claras e simples, 
das grandes ternuras perfeitas, 
das doces compreensões silenciosas, 
gosto de tudo, enfim, onde encontro um pouco 
de beleza e de verdade. 
Por-que há ainda no mundo, graças a Deus, 
almas-astros onde eu
gosto de me refletir, almas de sinceridade 
e de pureza sobre
as quais adoro debruçar a minha.

Florbela Espanca

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Gosto das belas coisas claras e simples 
e das complexas,  obscuras 
- que pedem investigação -,  densas; intensas;
das grandes ternuras e acolhimentos amorosos 
que  se dão depois de muitas conversas, 
que facilitam a compreensão 
ou dos breves silêncios, que os definem;
gosto de quase tudo que advém do encontro 
entre as almas afins ou que sabem discordar 
com argumentação e raciocício crítico...
Enfim, gosto do que me faz sentir eu mesmo
 e do que me faz outrar - transformar-me num  outro, 
simultaneamente igual e diferente de mim.
Por-que há ainda no mundo, 
graças a Deus, almas-astros 
onde eu gosto de me refletir, 
almas de sinceridade atrevida, 
de pureza não ingênua 
e de inteligência indagativa 
sobre as quais adoro debruçar a minha... 
e ver o quanto são iguais e diferentes da minha.

Cesar (Ricardo Koefender) Espanca