02 junho, 2012






No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates.

Pois minha imaginação não tem estrada. 
E eu não gosto mesmo de estrada.
Gosto de desvio e de desver.

- Manoel de Barros –





O Destino do coração (Rumi)



O Destino do coração

Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas,
fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer.
O coração foi destinado a embriagar-se
na beleza do amigo ou na aflição da ausência.

A meta do amor é voar até o firmamento,
a do intelecto, desvendar as leis e o mundo.

Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas.

Os olhos ficarão cegos
quando virem que todas as coisas
são apenas meios para o saber.

O amante, difamado neste mundo
por uma centena de acusações,
receberá, no momento da união,
cem títulos e nomes.

Peregrinar nas areias do deserto
nos exige suportar
beber leite de camelo,
ser pilhados por beduínos.

Apaixonado, o peregrino beija a Pedra Negra
ansioso por sentir mais uma vez
o toque dos lábios do amigo
e degustar como antes o seu beijo.

Ó alma, não cunhes moedas com o ouro das palavras:
o buscador é aquele que vai
à própria mina de ouro.

- Rumi –




Cresceu em mim uma árvore... por Octávio Paz





ÁRVORE ADENTRO 

 Cresceu em mim uma árvore. 
Cresceu para dentro. 
Suas raízes são veias, nervos suas ramas, 
Sua confusa folhagem pensamentos. 
Teus olhares a acendem e seus frutos de sombras 
são laranjas de sangue, são granadas de luz. 
 Amanhece na noite do corpo. 
Ali dentro, em minha fronte, a árvore fala. 
 Aproxima-te. 
Ouves? 

 - Octavio Paz -


11 maio, 2012

"...Há tanta coisa que, sem existir, Existe, existe demoradamente... " Por Fernando Pessoa




Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
...Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa 




Sabedoria, por Raul de Leoni



Sabedoria

Tu que vives e passas, sem saber
O que é a vida nem porque é, que ignoras
Todos os fins e que, pensando, choras
Sobre o mistério do teu próprio Ser,

Não sofras mais à espera das auroras
Da suprema verdade a aparecer:
A verdade das cousas é o prazer
Que elas nos possam dar à flor das horas...

Essa outra que desejas, se ela existe,
Deve ser muito fria e quase triste,
Sem a graça encantada da incerteza...

Vê que a Vida afinal, - sombras, vaidades –
É bela, é louca e bela, e que a beleza
É a mais generosa das verdades...

 Raul de Leoni