17 julho, 2010

Em busca de Anjos, por Gaiô





Em busca de Anjos.


Perambulando,
Andava a solidão em busca de anjos.
No agora, num outro perto afora,
em longínquos desertos de si...só.

Trocas e toques,
numa abordagem concreta de olhares de luz
em matizes que escapavam, refratavam
doce mistério velado no escondido sagrado.
De tanto ser perdurava, de asas abertas revelava.

E rastreando a sombra, pisava espaço
galgado em pedra dura, corações em descompasso,
tecendo impressões em representações do Belo.

Vertia aromas, num átimo pra segredar
a vida, a ternura perdida, doce loucura de amar...
Tudo o que queria em ARTE pura.

Lotus se fez no pântano da memória.
Como unguento, bálsamo que cura
em suprimento na luta, no lodo, de todo sofrimento.
Ferida, fertilizára o pó, se renovando na busca de anjos
pura glória, em longínquos desertos de si...só.

Gaiô
Publicado no Recanto das Letras em 17/07/2010
Código do texto: T2383402





Poema do fanático, por Murilo Mendes





Poema do fanático

Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter,
Sou o embriagado de ti e por ti.
Mil dedos me apontam na rua:
Eis o homem que é fanático por uma mulher.

Tua ternura e tua crueldade são iguais diante de mim
Porque eu amo tudo o que vem de ti.
Amo-te na tua miséria e na tua glória
E te amaria mais ainda se sofresses muito mais.

Caíste em fogo na minha vida de rebelado.
Sou insensível ao tempo - porque tu existes.
Eu sou fanático da tua pessoa,
Da tua graça, do teu espírito, do aparelhamento da tua vida.
Eu quisera formar uma unidade contigo
E me extinguir violentamente contigo na febre da minha, da tua, da nossa poesia.

Murilo Mendes




Morte, John Donne ou All dead, All dead by Queen




Morte
John Donne

Morte, não te orgulhes,
embora alguns te provem.
Poderosa, temível, pois não és assim.
Pobre morte: não poderás matar-me a mim,
E os que presumes que derrubaste, não morrem.
Se tuas imagens, sono e repouso, nos podem
Dar prazer, quem sabe mais nos darás? Enfim,
Descansar corpos, liberar almas, é ruim?
Por isso, cedo os melhores homens te escolhem.
És escrava do fado, de reis, do suicida;
Com guerras, veneno, doença hás de conviver;
Ópios e mágicas também têm teu poder
De fazer dormir. E te inflas envaidecida?
Após curto sono, acorda eterno o que jaz,
E a morte já não é; morte, tu morrerás.


All Dead, All Dead - Queen


She came without a farthing
A babe without a name
So much ado about nothing
Is what shed try to say
So much ado my lover
So many games we played
Through every fleeted summer
Through every precious day

All dead all dead
All the dreams we had
And I wonder why I still live on
All dead all dead
And alone Im spared
My sweeter half instead
All dead
And gone
All dead...

All dead all dead
At the rainbows end
And still I hear her own sweet song
All dead all dead
Take me back again
You know my little friends
All dead
And gone
All dead and gone

Her ways are always with me
I wander all the while
But please you must forgive me
I am old but still a child

All dead all dead
But I should not grieve
In time it comes to everyone
All dead all dead
But in hope I breathe
Of course I don't believe
You're dead
And gone
All dead
And gone



16 julho, 2010

Sonhos, por Clarice Lispector




Sonhos

Estou dentro dos grandes sonhos
da noite: pois o agora-já é de noite.
E canto a passagem do tempo:
sou ainda a rainha dos medas
e dos persas e sou também
a minha lenta evolução
que se lança como
uma ponte levadiça num futuro
cujas névoas leitosas já respiro hoje.
Minha aura é mistério de vida.
Eu me ultrapasso abdicando de mim
e então sou o mundo:
sigo a voz do mundo,
eu mesma de súbito com voz única.

Clarice Lispector


A princesa e o dragão, por Jorge Linhaça







A Princesa e o Dragão


Havia uma bela princesa
por um dragão enamorada
dentre todas a mais amada
detentora de grande nobreza



Havia um dragão carinhoso
de uma princesa enamorado
por ela assim tão encantado
que deixou de ser sestroso



Na pele ela tinha tatuado
em tinta indelével do amor
o retrato de seu ser amado

e o dragão no fogo imolado
da paixão escravo e senhor
poetava feliz ao seu lado
 
Jorge Linhaça