22 abril, 2009

Sentimentos de culpa, reparação e mídia, fragmentos...





Sentir-se culpado é humano
e colocar a culpa em alguém é ainda mais humano.

Que espanto essa moral judaico-cristã: sentimentos de culpa
poderiam ser colocados no lixo (comum) e/ou, quando muito,
reciclados!

Mas... para muitos, a ação que a culpa desencadeia ...
ainda é uma maneira de reparação.

(De "Palavras do mago")

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Mas... para muitos, a ação que a culpa desencadeia ...
ainda é uma maneira de reparação. (???????????????)

Psicanálise: resumindo... a pessoa nessa condição... só consegue se livrar do mal estar gerado pelos sentimentos de culpa ajudando os outros, fazendo "por" eles... para se aliviar e se "redimir".

Tema polêmico, já que atravessa e analisa, exatamente, a idéia dos "bonzinhos-queridos-solidários e voluntários tão... desejados e festejados pela mídia do compromisso social.

Numa ótica (e numa ética) que utiliza a complexidade do pensamento e que se envolve com a produção coletiva, inconsciente e desejante (produção de subjetividade), pode se dizer que, para querer ajudar muito alguém, no sentido do texto acima, é preciso ter feito "muita coisa ruim" para se sentir culpado a ponto de necessitar da reparação como modo expiatório da culpa.

Por outro lado, a mesma mídia e as instituições que a sustentam e dão suporte, como, só para citar quatro delas, a religião, a família, a educação e o trabalho, exercem o seu papel de culpabilizadores, ou seja, formadores de sentimentos de culpa... processo esse que se dá mediante, é claro, todo o referencial dos prescritos da moral... noções de certo e errado, por exemplo, fortemente arraigados... geram enormes sentimentos de culpa nos desavisados e inocentes-úteis... para continuar com a propagação desse vírus destruidor da saúde mental... mas muito desejado pelos... donos do poder.

A produção social e institucional da culpa nada tem a ver com genuínos e singulares sentimentos de amor, solidariedade e acolhimento das necessidades do outro. Tem a ver, sim, com o desmedido apelo à resolução dos problemas do outro sem considerar as potências desse outro e a participação ativa que ele pode ter no processo de ... tomada de consciência e na busca de ações... que o ajudem a resolver seus conflitos.

Ora, dessa perspectiva... os sentimentos de culpa e as ações que eles desencadeiam em direção ao outro... nada mais são do que caminhos dirigidos ao próprio umbigo, ou seja... é em si próprio e tão somente em si próprio que se está pensando... quando se quer aliviar dos corrosivos sentimentos de culpa.

O que dizer, então, da crescente demanda de trabalhos voluntários? Os quais cada vez mais as pessoas aderem com ar de satisfação e sentimentos de tornarem-se úteis? Tudo isso sendo apoiado, estimulado e produzido midiaticamente?

Social e individual são imanentes ... e indissociáveis.


6 comentários:

Roberto de Andrade disse...

Gostei demais, estava buscando algo sobre "reparação" e achei muito boa! Eu comecei com aquela intenção de entender para pensar sobre "os outros" e terminei surpreso pela comparação "mídia/voluntários" pensando em mim!

Excelente texto, me fez rever minhas convicções!

Obrigado

Roberto

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Legal, Roberto, que tenha feito sentido para você.
A reparação, um tema muito desenvolvido pela psicanalista Melanie Klein, é uma atitude saudável
que busca redimir o sujeito que está imerso em sentimentos de culpa; uma forma de expiação.
Se a pessoa se sente culpada por ter agredido verbalmente alguém e se 'arrepende', ela pode, por exemplo, pedir desculpas (significa, geralmente: livra-me do sentimento de culpa que há em mim)... isso se o orgulho lhe permitir fazer isso.
Ou pode, mesmo sem se desculpar... tentar 'agradar1 a pessoa a quem agrediu com essa mesma intenção.

O problema fica mais grave quando esse agressor não consegue fazer isso e passa a dissimular seus sentimentos de culpa e, inconscientemente, passa a querer bancar o bonzinho de plantão... algo que Melanie Klein associou aos estados depressivos.

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Os estados depressivos, trazem em si, componentes altamente agressivos que geram sentimentos de culpa corrosivos e violentos que podem, literalmente, abalar a vida e a saúde psíquica e social da pessoa.

Então, o que acontece, é que as instituições, na sua performance culpabilizadora, não só fomentam esses sentimentos, como elaboraram formas altamente elaboradas de expiação. O trabalho voluntário é uma das maneiras disso acontecer e que está altamente valorizado e disseminado na mídia.
Lembrando que mídia = veiculo por onde a instituição da linguagem e da comunicação tem seu mais elevado meio de exteriorização.

Uma surpresa 'boa' a sua. Muito comum querermos entender o outro... quando descobrimos que queremos descobrir a nós mesmos.

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Lembrei de outras duas postagens que tem a ver com esse assunto (certamente deve ter mais...) e vou colocar os links para o caso de você voltar por aqui.

http://psicologiaevidalivres.blogspot.com/2009/01/ajudar-algum-nobre-e-to-mais-nobre.html#links

http://psicologiaevidalivres.blogspot.com/2010/09/um-exercicio-em-auto-indulgencia-ou.html#links

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Os links não funcionam aqui nos comentários, então... coloco os nomes das postagens: para achar é só colocar as primeiras palavras no retângulo branco da esquerda do blog, na caixa de pesquisa... lá em cima.

Um exercício em auto-indulgência, ou sobre o Autoperdão, por Hammed

A solidariedade e o fanatismo salvacionista ou, trata-se mesmo de ser agradável ou falso?

Roberto de Andrade disse...

Muito esclarecedor teus comentários!

Pesquisando sobre o tema encontrei o filme "Desejo e Reparação" ou no original "Atonement", bem interessante também.