25 abril, 2009

A um ausente, por Drummond... e a Vida das Coisas



Nossos amores chegam e ficam
Nossos amores chegam e vão.
Nossos amores nem chegam a chegar.
Nossos amores nem chegam a partir, quando os queremos longe...
Nossos amores...


Dentre As coisas da Vida está a Vida das Coisas, ou seja, o fim, a saudade, a morte, o abandono e/ou os respectivos desejo de continuidade, permanência, vida desejada, sentimento de rejeição e abandono.
Dialógica dos afetos e das práticas sociais e amorosas.

Relacionamentos terminam, começam e se modificam: coisas da vida!
Relacionamentos terminam e terminam: vida das coisas!

Drummond, bastante dramático, acusa, com seu desejo de presença, o "irredutível outro", aquele que não se curva à sua vontade, dele, do Drummond... ou daquele a quem ela fala nessa bela poesia (ou é poema... ainda não sei as diferenças... já que não sou versado nessa arte... coisas da vida... não se pode SER versado em muitas coisas... rsrsrs)

Sobre o fim... ou... "A vida das Coisas"... tempo de duração... que tenha sido eterno enquanto durou.

A duração, ou... o tempo que é ilusão... dada as intensidades do Encontro... pode se perpetuar na lembrança... recuperada pela memória e... transformada em novas leituras: terá havido ruptura? Terá havido antecipação da hora? Terá sido isso que houve?

Desnecessário, embora nem sempre irresistível, pensar no que fiz que provocou sua ida. Partida...
Desnecessário... porque sua ida pode ter sido obra de você, sem ter nada a ver comigo. Nada a ver?

Pode um se afastar do outro sem influência desse segundo?
Perguntas que se tornam inócuas, infrutíferas... porque apontam para o inconcebível... irrecuperável.

O real se impõe, como materialidade, para além do desejo (de presença).
Sim... "você" se foi... e a dor e a saudade ficaram... no seu lugar... em mim, comigo!

Amargo consolo o da memória.
Suave alento o da lembrança!

Mas foste. E... talvez... nunca voltes.

Por isso... você é um ausente.

O que é um ausente? Se, recuperado pela memória, está aqui... sem estar?

Um ausente é aquele que foi e não está.
Ponto.

.....................






A um Ausente



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

(Carlos Drummond de Andrade)


2 comentários:

Rose disse...

Um ausente é aquele que foi e não está.
Ponto.

Lua disse...

Nossa!!! é a minha estória atual....Lindo , porém triste.

Bjus