07 junho, 2009

O escritor e/ou sua obra tem função política?



O que dizer do engajamento político dos escritores e literatos?
Têm a poesia, o romance, os contos... função política?
Qual o papel do escritor nesses tempos, ditos, pós-modernos?
Confundem-se o escritor e sua obra?
De que política estamos falando? Da política do militante? Da política das idéias?
Da política da ação? Da política das influências?

Na sua crônica de hoje no "Correio do Povo, Juremir, discorre sobre o tema... comentando acerca da censura feita ao último livro de José Saramago, que chamou o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi de criminoso.
Veja o texto, na íntegra, abaixo.



INFANTIS E SENIS

Houve um tempo em que literatura era coisa séria. Havia escritores engajados (os jovens desconhecem o sentido dessa palavra) ruins e engajados muito bons. Graciliano Ramos foi um escritor engajado de alta qualidade. O Machado de Assis realista teve alta qualidade, mas se omitiu em temas fundamentais como a escravidão. Não foi para o pau. Não abordou a coisa de modo explícito. Eu não sou fã de carteirinha do escritor português, prêmio Nobel da Literatura, José Saramago. Acho que o seu compatriota Lobo Antunes é muito melhor e devia ter ficado com o Nobel. Mas enquanto Lobo Antunes é um niilista contumaz, Saramago dá lições de moral e crê no futuro. É um comunista de carteirinha. Pois o último livro de Saramago, reunindo os textos do seu blog, foi vetado pela sua tradicional editora italiana por chamar o primeiro-ministro Silvio Berlusconi de criminoso.

A editora alega que Saramago não pode provar isso e que haveria processo e condenação. Saramago garante que a censura tem por objetivo satisfazer o patrão. É uma boa briga. É claro que Saramago não pode provar o que diz. Mas não se importa com isso. Está naquela de dizer o que todo mundo sabe. Entende que é o seu papel de escritor e intelectual. Nem quero saber quem tem razão. O que me interessa nessa pendenga é outra coisa: o engajamento. Os escritores europeus continuam atuando na chamada 'esfera pública'. Assumem o papel de intelectuais. Causam problemas para o poder. Podem ser acusados de senis, mas não de infantis. Vão muito além do próprio umbigo, mesmo quando fazem literatura intimista ou umbilical. Michel Houellebecq e Maurice Dantec, na França, abalaram os fundamentos da nova intolerância religiosa. O velho Saramago dispara contra um antigo mafioso. Não tem mole.

Enquanto isso, no Brasil, pátria da bajulação, os escritores andam nas nuvens. Passei um mês lendo atentamente as páginas culturais dos jornais Estado de S. Paulo, O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e de revistas semanais de consultório de dentista como Veja. É o besteirol mais completo e rasteiro. Manda a lógica das celebridades e nada mais. Depois da ditadura, os escritores depuseram as armas e nunca mais incomodaram o poder. Escrevem para uma crítica que nada lhes exige e apenas os incensa por falta de critérios e de ideias. A nova geração modernosa fala de política com a profundidade de um motorista de táxi que esqueceu de ler o seu diário popular. A velha guarda chafurda nas suas reminiscências requentadas. É sombra e mídia fresca.

O Brasil torra na pasmaceira. Enquanto isso, o paleolítico José Saramago deita e rola. Compra briga. Chama a censura. Eu só respeito quem já foi censurado. Quem não o foi certamente soube antecipar o pensamento do dono e se adaptar. Escritor que não provoca polêmica me entendia. Aos 88 anos, Saramago está mais jovem que a galera brasileira. Dá a cara para bater. Tem algo para dizer. Anda na contramão. Não fica louvando o leite derramado. Nem fazendo humor chapa branca. É porrada.

juremir@correiodopovo.com.br

Fonte: DOMINGO, 7 DE JUNHO DE 2009

Um comentário:

Katia disse...

Estou adorando cada vez mais os assuntos e os posts!!!

O caos e a confusão no campo da política têm eco na cultura também...

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