26 setembro, 2009

Mais sobre o irresistível II






Prática

Terá aquilo, aquele ou aquela que nos é i-r-r-e-s-i-s-t-í-v-e-l... um fim?

Supunha eu, que sacrilégio, que a nossa separação, ou, noutros termos, o seu afastamento, transformaria você em alguém resistível, que não mais me tiraria do chão, não mais me deixaria sem ar e não mais faria meus olhos lhe procurar em todos os cantos... e esquinas.
E Era verdade mesmo. Tudo isso aconteceu, desde o momento em que me obstinei a seguir essa disciplina monástica de ficar longe de você e longe, isso é o mais difícil, das minha idéias a seu respeito. Pensamentos e memórias de afetos e desejos que teimosamente resolvem se intrometer na minha vida consciente.
Consciente?
Não só... já que sonho com você. Também isso... acontece.
Mas, nessas idas e vindas da experiência, fui mantendo você longe o suficiente para ser apenas a memória de um real passado, ou seria a memória de um irreal passado?

Sabemos que o imaginário produz realidade e que o virtual é produtor de real.

Ora, você sempre foi real.
Toquei seu corpo.
Tomei você em meus braços.
Lhe falei e lhe ouvi.
Mais de tudo: olhei para você em mundos de tempo infinitos! Cada gesto, cada movimento, cada chegada e cada partida eram uma constelação de universos, sempre repetidos, mas a cada vez de forma diferente, da beleza ímpar sua e desse seu jeito absolutamente encantador... que me enlouquece.

De novo a volta do absoluto!

Bastou um encontro com alguém comum a nós para que as breves notícias a seu respeito puxassem todo o irresistível de volta: agora eu sei onde você está, com quem e o que faz. Agora posso ir ver você de novo e de novo e de novo... e matar toda essa saudade enclausurada que me ativa o desejo de você... por perto, ao alcance dos meus olhos e das minhas mãos.

De que adianta? Se você, mesmo sendo real, nunca deixou de ser virtual? Se mesmo estando comigo, nunca, de fato, esteve?
De que adianta essa minha vontade de olhar e ver, se o essencial em você está completamente escondido... e inacessível?

Hoje, mais uma vez, depois de anos, O IRRESISTÍVEL bateu à minha porta, na forma de suaves notícias - suas - que chegaram:
minhas pernas balançaram, o coração acelerou e a
vontade de te ver-olhar-e-nunca-mais-párar-de-te-olhar
voltaram a tomar conta de mim.

Socorro.

Eu não consigo mais párar de te olhar quando começo a te olhar...
Te vejo até mesmo na tua ausência!

O irresistível que se transformou em resistível
e agora quer voltar a ser irresistível...

Não! Chega!
Chega meu caro mito-reconhecido-como-mito!
Tudo de novo... NÃO!
Ponto.

Somente um esforço grande aliado a uma disciplina que se garante pela prática continuada me possibilitou ... resistir.
Tarefa difícil, considerando-se o muito que você representa para mim e o muito de .. tudo... que lhe devoto.

Resistir ao irresistível é uma oportunidade de nada mais "daquilo tudo de novo" voltar a acontecer.

Nem poderia. Você não é mais você. Eu não sou mais eu.
Nós não somos mais nós... depois daqueles encontros-desencontros... que tanto sacudiram nossas estruturas.
Nossas?
Sim, nossas, embora, penso eu, pelo que deduzo de você, você imagine que só eu fui afetado pelo conhecimento que fizemos one by one.

Breves momentos em que o desejo de VER (você) tomou proporções de VIDA AGORA (para nós... afinal... tudo poderia ser diferente! Poderia?)

Mas, felizmente para mim (quanto à você, nem mais me dou ao trabalho de considerar e hipotetizar - já foram tantos os monólogos que fiz... com você! - porque cansei de esperar e de apostar) essa volta do irresistível teve duração FINITA.

Bastou dialogar com o passado e reavivar as memória do real-como-real para puff... desintegrarem-se as pretensões de "tudo de novo!
Que alívio!

Você já não tem poder sobre mim. Eu o tenho!
Adeus ao irresistível!
Até um próximo encontro.

(Claro, porque sei que o irresistível, qualquer um deles, sempre volta...)

Teoria

Será possível decidir o que fazer?

Um outramento possível e atual, que se dá através de agenciamentos coletivos e de fluxos incontroláveis do desejo de vida está na medida do possível associado às intempestivas violações da identidade reconhecida:
Eu sou eu
Eu amo você
Eu sinto a sua falta
Eu quero ver e saber de você

Que eu?
Que você?
Que nós?

Um outramento que se define pela recusa de eu-apaixonado, eu-com-saudade, eu-querendo-lhe-ver-e-saber-de-você possibilita sensações e montagem de territórios singulares para a experimentação de outros estados de mim; um eu desplugado do desejo simbiótico desse nós.

Nós de nós que não foram desfeitos.

Nós de nós que se desmancharam, sem terem sido novamente tecidos (a não ser quando do retorno do (quase) irresistível (que se tornou) resistível.

Um processo de singularidade assim montado, pela recusa de você, engendra mundos de eu-para-comigo-mesmo-a-revelia-da-sua-existência.

Resistência?
Resistência política definida por um forte desejo de saúde e bem estar psíquico: manter-se longe das suas maquinações maquínicas.

Mas e o maquínico que reinventa encontros e atualizações do encontro de nós que não somos mais nós?
Ele continua a operar no meio social, nas conversas de informalidade, no imaginário que teima em fazer conjecturas de possíveis, nas expectativas de que tudo pode ser diferente... de antes.

Ora, mais do que tudo, é necessário apostar na fragrância da diferença que se movimenta nessa resistência à você. Dizer não ao irresistível é dizer sim à vida, no seu fluxo de mudança e despersonalização.
Novos mundos são possíveis e de fato acontecem fora dessa tresloucada paixão amorosa que parece não ter fim até mesmo quando já acabou de fato.

Esse é o convite para todos aqueles que querem bater as asas e voar para um lugar longe dos afectos do aprisionamento simbiótico.

Tudo em você me seduz e encanta.
Tudo de você me seduz e encanta.
Nada de você me seduz e encanta.

Tudo e nada são palavras grandes, generalizantes e inebriantes que não podem mais ter lugar num universo de resistência ao irresistível.

Pode haver desejo, sedução, interesse, saudade... e o resto todo que os eternos (outra palavra grande e gorda!) apaixonados sentem e inventam para si e para seus amores-apaixonantes acreditarem.

Pode haver, também, e essa é a ferramenta decisória para ser usada nesses casos de visita do, de novo... irresistível, passagem do amor paixão ao amor decisão.

Não se trata aqui de fugir das sensações de mundo nem de não se entregar ao movimentos de desterritorialização que afectos e afetos assim intensos provocam, mas de insinuar a existência de outros mundos possíveis depois da, já conhecida, hecatombe.

Existe vida depois de você.
Existe vida depois de vencer o irresistível.
Existe vida... anyway.
A vida existe e ela está aqui e agora!





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7 comentários:

anna llia disse...

Como resistir ao Irresistivel?
Podem , duas possibilidades tão opostas coexistirem?
Sendo irresistivel, nao há como resistir uma vez que resistindo, ele passa a ser resignificado..
Resistindo , deixa de existir o irresistivel!!


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Significado de irresistível
adj. A quem ou a que não se pode resistir: eloqüência irresistível.
Invencível, insuperável.

Sinônimos de irresistível
Irresistível: inelutável

Citação:
O amor é o desejo irresistível de ser irresistivelmente desejado.
-- Robert Frost

anna llia disse...

"O “biopoder”, na medida em que concentra suas ações na própria vida dos homens, trata de tentar liquidar a imaginação, controlar os desejos e reprimir a nossa capacidade de ação. Ma o fato é que onde há poder, há resistência, e as resistências ao poder, muitas vezes, têm força irresistível. Foucault definia a liberdade como um conjunto de atitudes e comportamentos característicos de sujeitos autônomos de suas práticas, e que hoje, objetivo principal não é o de nos descobrirmos, mas de recusar ser o que somos.
Quando o poder toma a vida como objeto, a resistência ao poder passa a ser feita em nome da vida, e a volta contra o poder. “A vida como política foi tomada ao pé da letra e voltada contra o sistema que planejava controlá-la.” O que a resistência extrai do homem são as forças, como diria Nietzsche, de uma vida mais ampla, mais ativa, mais afirmativa, mais rica em possibilidades. O que o super-homem sempre quis dizer é que a vida precisa ser libertada dentro do próprio homem, na medida em que o próprio homem não deixa de ser uma maneira de aprisioná-la."

http://kaozmatron.blogspot.com/2008/11/poderresistncialiberdade.html

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Ana Lia, querida. Bem vinda aqui também.

Primeiro achei que buscar uma definição no dicionário e não contemplar a inelutabilidade dos contrários era leitura muito linear, já que não considera a coexistência dialógica dos opostos não complementares....

Depois vi, na sequencia: pois, pois, é nesse linha que o post se dirige... uma valorização das potências de vida para além e aquém dos jogos mortais de poder do irresistível...

O irresistível do qual falo é como o do vampiro que vê sangue quente e não quer sugá-lo porque decidiu deixar de ser vampiro e, portanto, mortal.
Mas, ao contrário do vampiro, o ser em questão que resiste ao irresistível... quer viver e não morrer intoxicado por aquele amor/paixão que o consome.

Kátia disse...

YES, my dear!!!! Terrivelmente verdadeiro...

E que os anjos nos protejam dessa insanidade do IRRESISTÍVEL que nos cega, que nos faz perder...
Há que se combater esse estado emocional de irracionalidade e desejos incontroláveis.

"Existe vida depois de vencer o irresistível".

Existe sim. É quando a razão é acionada para que o ímpeto 'dessa coisa' se elimine... Então, a ligação entre duas pessoas passará a caminhar para o que se chama de AMOR. Um estado mais sereno... bem mais. Porque o amor nos faz acreditar que a felicidade não está nas mãos de outra pessoa e sim nas nossas mãos...

.

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Sim Kátia, ainda bem: existe vida depois de vencer o irresistível.

Por vezes a relação entre as tais duas pessoas não caminha para o amor, por que o amor já existe, misturado e temperado 'chilli' pela paixão, mas, literalmente, termina, já que o irresistível... está controlado e a vampirização não tem mais lugar... quando só um sente... e ama.

Independente de onde isso tudo vai dar, quem ama e como, o importante é que o tal amor, ou a tal paixão... está nas nossas mãos - uma decisão - e isso nos possibilita resistir: não dá (mais)para cair nessa irracionalidade despotencializante (no depois) que tanta energia nos dá (no agora e no imediato).

Uffa!

Esse post é uma continuidade de outros dois, cujo link está no final... jamais caiamos na ingenuidade de imaginar que o irresistível é só ruim... ou negativo... ai ai...
Ele é, também, fonte de grande renovação, energia, desterritorialização existencial... desejo de vida e assim por diante...

Mas quando vira... prisão e fica nos atando ao... sucumbir à vontade de sentir "àquilo tudo de novo" (e as condições para isso já terminaram ou nunca existiram)... distância!

Que bom 'ver' você aqui...

anna llia disse...

A ideia de resistir ao irresistível me parece pertencente a alguma corrente utópica (como um projeto), ou romântica (de sacrifício pessoal).
Toda utopia tem um "que" de romantismo!
Essa necessidade do transcendente (que pode estar no amor), que estaria contido no "acreditar forte" (num Deus, numa ideia, num ideal).
Assim: podemos vencer o invencível, resistir ao irresistível, derrotar o mais forte (o amor, a utopia devem vencer no final).

(Uma outra visão, discutida com o Professor Fernando Citroni)

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Acho que sim Lia. Tem isso: um projeto... para quem quer se trabalhar e não sucumbir "àquilo-tudo-de-novo."

Vejo que há, por um lado, o tal de transcendente... superação pela utopia ativa e/ou pelo projeto (não penso que seja tão romântico... mas aí, epistemologicamente falando, precisamos explicitar de que romantismo estamos falando e como cada um de nós se vincula a ele... tarefa hercúlea, aqui... rsrs); por outro, vejo que há

imanência

entre o irresistível e suas qualidades de instituir o novo E nos arrastar para (o que já é agora) velho...

Que bom que comentou...
Mais alimentos para OS hemisférios cerebrais... kkkkkk

Falando nisso, vc leu o post sobre as esferas e os hemisférios e que tem a música do Rush...?
É lindo!