06 fevereiro, 2009

Aprender a dizer não ou sobre os Relacionamentos Saudáveis



Relacionamentos Saudáveis
Roberto Shinyashiki

Quando alguém não expressa o que o importuna,
corre o risco de se afastar,
negando ao outro a oportunidade de conhecê-lo.

Acontecimentos que nos desagradam ou não nos interessam
são comuns em nossas vidas.
A tendência da maioria das pessoas
é deixar que essas situações se repitam
como se não tivessem importância.
Até que um dia ocorre uma briga ou, pior ainda,
uma separação silenciosa.

Em uma conversa com um amigo tempos atrás, ele disse:
“As pessoas perdem muito mais oportunidades
por não falar ‘não’ do que por não falar inglês”.
Verdade! Procure falar inglês,
mas aprenda a dizer não
quando a situação está desconfortável para você.

Com freqüência, o mal-estar vai se ampliando
até que se torna uma situação insuportável.
Portanto, seja no trabalho ou nas relações pessoais,
aprenda a colocar limites,
porque algumas pessoas invadem o espaço do outro
sem perceber e precisam que você
acenda a luz de PARE!

É fundamental dizer as pessoas de maneira direta,
firme, e clara, quando uma atitude delas incomoda.
Confrontar também é dizer ao outro que sua amizade
é importante.


Ao confrontar alguém,
é interessante dizer a ele qual conduta o incomoda,
como você se sente e como você gostaria que ele agisse.

Por exemplo, quando a pessoa fica aborrecida
porque um amigo falta a um compromisso.
Em vez de estourar com ele ou decidir não mais encontrá-lo,
é melhor dizer:
“Não gosto quando você combina de ir em casa
e não aparece.
Sinto-me rejeitado e tenso por esperá-lo à toa.
Quero pedir que não marque nada se não puder ir
ou que me telefone se aparecer algum imprevisto”.

Uma sugestão para as confrontações feitas por um casal:
tratar um assunto de cada vez até resolvê-lo.
Por exemplo, se a esposa está colocando a necessidade
de o marido acompanhar os deveres do filho,
é importante que eles cheguem a uma conclusão
sobre este assunto antes de iniciar outro.

As conversas em que são discutidos muitos problemas
ao mesmo tempo
tende a tornar acusações mútuas em vez de se transformar
em reflexões que levam a uma solução das dificuldades.

Lembre-se de que cabe à pessoa confrontada a decisões
de mudar ou não.
Se ela continua com o comportamento de que o aborrece,
é uma maneira de dizer que não consegue mudar
ou que não tem vontade de fazê-lo.

Aí, é sua opção continuar com a amizade.

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Aprender a dizer não
(Cesar Ricardo Koefender)

Há quem diga que o ilustre doutor Roberto seja um bom escritor e vendedor de livros de auto-ajuda; pode ser, mas que o texto dele acima diz algo que eu tenho falado e praticado incansávelmente, ainda que sem sucesso, já que não estou na grande mídia e não tenho um centésimo da repercussão que ele tem, isso diz.

A questão é que dizer não é condição de saúde mental e de qualidade de vida. Aprender a dizer não mostra ao outro os nossos limites de suportabilidade e mostra o que e o quanto somos capazes de suportar. Orienta o outro no sentido dos nossos gostos, preferências e formas próprias de agir, pensar e sentir, além do que... é um bom indicador das características da nossa personalidade e jeito de ser..

O não é o polo oposto e complementar do sim.
Um não existe sem o outro, então, por que enfatizar o sim em detrimento do não?

A resposta é muito complexa e envolve uma série de questões vinculadas ao imaginário, às instituições da família (maneira como foi criado e valores familiares), da religião (é considerado bom, bonito, educado, cortêz e respeitável aquele que sabe relevar, entender, aceitar... e submeter-se, inclusive, ao desejo do outro... é questão de ordem evitar conflitos!) e da comunicação, já que é através dela que exploramos, vivemos, expressamos a nossa singularidade no mundo, mas, ao mesmo tempo, a palavra não (assim como todos as palavras) é comum a todos os falantes da lingua de seu país, cujos códicos são assimilados de maneira a reproduzir o imaginário dominante.

Então, aprender a dizer não passa por romper com tudo isso... com todo esse imaginário e esse estado das coisas.
É na própria materialidade do ato de dizer não... que se efetiva esse rompimento . Não é tarefa fácil. Contudo, só existe um jeito de aprender: dizendo!

Então, porque as pessoas não se autorizam a discordar, a colocar limites para o outro e para si próprias?

Uma das respostas inclui a evitação do conflito: se fazer de desentendido e de queridinho, mesmo que no íntimo ou até na exptressão do rosto o sujeito mostra não gostou ou discordou, é mais cômodo e "seguro" se fazer de desentendido... ora, não dizer não evita conflito, exposição e enfrentamento... evita pensar, dialogar e refletir. Evita negiciar e se comprometer. Muito mais fácil dizer sim, amém.

Outra resposta é que o dizer não está estreitamente ligado aos sentimentos de culpa...as pessoas adoram se sentir culpadas, até mesmo nutrem esse sentimento em nome de valores religiosos, educacionais e sociais, quando, na verdade, essa erva daninha poderia ser removida e abolida da vida psíquica dos sujeitos, mas, aí, voltamos e fechamos o circulo: se faz necessário romper... e isso é complicado.
Não digo que as pessoas não sofram com esses sentimentos de culpa; sofrem e muito, mas não têm crítica e não estão dispostas a mudar.

Assim, chegamos a uma terceira possibilidade de resposta: ora, se livrar da culpa requer enfrentar o novo e a resistência à mudança, condição indispensável para a aprendizagem.

Na maioria dos casos, aprender a dizer não, requer um intenso trabalho sobre si próprio, muitas vezes somente obtido com psicoterapia, mas, ocasionalmente, aprendido com a própria vida... em situações limite.
Quando o insuportável bate às fechadas portas da resistência à mudança, já não há mais como aguentar... dai o não sai como uma corrente de... água das comportas da hidroelétrica... récem abertas.

Toda vez que um sim é dito no lugar de um não, ou o silêncio e o afastamento são sinônimos de discordância e mal-estar, estamos boicotando possibilidades de diferenciação nas relações interpessoais e nas relações conosco próprios e estamos aprimorando nossas resistências à mudança.
Não estou aqui defendendo uma guerra ao sim e à concordância, ambas, muito saudáveis e desejadas quando é este o caso, mas abrindo espaço para VERMOS o não como condição fundante de outro estado das coisas!

Muitos pensam que a meditação ajuda. Sim, mas nem todas.
Há algumas que tornam os "indivíduos" ainda mais concordinos, submissos e pacífico-pacientes. Em nome do seu estado da "paz" acabam por se submeter aos ditames das realções sociais instituidas e culpabilizadoras, ou seja, aquelas que reforçam a idéia e a prática do dizer sim e amém.

E, finalmente, dada a dialógica do sim e do não, as pessoas esquecem, ou não sabem, ou fazem que não sabem, que um não dito hoje, pode se tornar fonte de muitos sim... amanhã!
(Cerriky - Cesar Ricardo Koefender)

Um comentário:

MENINA disse...

Acredito que um "não" tem seu lugar garantido no crescimento e amadureciemtno dentro de uma relação,seja ela amorosa, na relação com os filhos,os amigos..todos!Apenas acho que devemos saber fazer isso,de modo que não pareça agressivo para a outra pessoa. Entender o outro é fácil,se temos respeito pelos nossos limites e pelo limite do outro tb; se temos respeito pelo tempo e espaço que cada deve ter e sentir; espaço que qdo invadido,com certeza devemos ter noção do que foi feito e nos afastar,deixar o outro respirar..ser ele mesmo sempre.Somos humanos e gera um conflito enorme isso de engolir "sapos" por medo de falar "não" e eu digo isso para todas as relações que temos na vida,claro! O "não" muitas vezes, deixa a relação crescer,amadurecer,ficar + bonita e realmente ser uma "relação inteira' Além do mais é o que todos nós buscamos, uma relação inteira e verdadeira, sempre!