04 fevereiro, 2009

Índia: conhecer o Hinduísmo não é sinônimo de conhecer a Índia!



A índia, um país de dimensões continentais, tal como o Brasil, é o assunto do momento.
Esse súbito interesse pela cultura, religiões, vida social, templos e belezas que suscitam a espiritualidade no imaginário coletivo, possivelmente, vem na carona da novela global "Caminho das Índias".
Na novela, para encanto dos desavisados e, também dos já encantados, a Índia é mostrada no que tem de mais sedutor e exuberante: suas cores e mistérios; suas riqueza, luxo e palácios; seus tecidos, marcadamente as sedas e o algodão... e incenso brotando nos turíbulos.
Cenários requintados para mostrar, num folhetim, uma cultura e práticas milenares... pelas lentes de uma equipe e elenco eminentemente brasileiros.
Ora, nessa estado das coisas, VOZES se levantam do anonimato outorgando-se o papel de críticos e detentores de um SABER sobre "a Índia... que a globo não mostra".

Os dois emails abaixo, que recebi mais de uma vez cada um deles, retrata a maneira como o assunto está sendo tratado, passado, repassado e encaminhado pela mídia, não só oficial, mas, também, pela oficiosa: a que se faz dentro do nosso próprio computador, através dos nossos emails. Sério isso.
Passar mensagens e encaminhá-las sem a mínima crítica do conteúdo "subliminar subjacente" é uma forma absurdamente comprometida com esse estado das coisas, quero dizer: com a reproduçlão do estado das coisas... o status quo vigente.
Bem sei que isso não se dá devido às intenções maudozas , mirabolantes e premeditadas dos encaminhantes de emails e mensagens... e é precisamente disso que me ocupo e que me preocupa no momento, ou seja, a processualidade que se dá na invisibilidade dos seus conteúdos e na invisibilidade do próprio processo... estado acrítico!


A confusão começa já mesmo no título e no corpo da mensagem.

----- Mensagem encaminhada de magaly.d56@gmail.com -----
Data: Tue, 3 Feb 2009 07:24:11 -0300
De: Magaly Dolsan
Endereço para Resposta (Reply-To): Magaly Dolsan
Assunto: Entendendo o Hinduismo - Os perigos das Religiões

Vejam que entender a Índia e entender o hinduísmo são coisas entrelaçadas mas amplamente distintas, já que a Índia não é SÓ o hinduísmo.
Acho que isso não foi intenção da autora (que aparece acima), mas foi produto do encaminhamento...

Ora, isso é só um detalhe!
Não, não é!

Porque, para entender a Índia, é necessário falar MUITO do hinduísmo, a religião predominante, mas é preciso falar da colonização inglesa (sem as qual não haveria trens - a Índia tem a maior rede ferroviária do mundo - e chai -chá com leite, só para citar dois exemplos), portuguesa, holandesa; seria, igualmente, necessário falar no islamismo, budismo, sikhismo, jainismo e cristianismo, bem como nas muitas outras religiões que pululam no sub-continente indiano.
Seria preciso falar no seu processo de independência, na não violência de Gandhi, por sinal, um ídolo ocidental muito mal-visto pelos hinduistas ortodoxos (aos quais a novela global se refere e "mostra").
Seria necessário falar nas culturas tribais, nas aspirações, nas tecnologias, na ocidentalização ... e mais outro tanto de coisas.

Qualquer tentativa de falar na Índia sem considerar a sua complexidade é reducionismo e desrespeito para com a grande diversidade que caracteriza seu povo, sua história e sua abertura, pois, diferente do que o email abaixo afirma, a Índia é muito aberta ao novo... talvez até demais... basta lembrar que o budismo foi incorporado pelo hinduísmo, já que Budha é considerado uma das últimas encarnações de Vishnu.


Antes mesmo que alguém comece a gritar que não dá para fazer todo esse "tratato" sobre a Índia e sua complexidade, quero dizer que a complexidade, no sentido que Edgar Morin dá a esse termo, assinala, não um assunto complicado e difícil, acessível somente aos letrados, mestres e doutores, mas assinala exatamente a dificuldade de compreensão, de entendimento... e a insuficiência , inoperatividade e inutilidade de resumos e simplificações.
O que é complexo deve ser tratado como complexo!

Ora, comento esses dois emails que recebi exatamente por considerar que eles são reducionistas... querem dar conta de entender o próprio hinduísmo sem considerar a complexidade da Índia.

O primeiro desses emails, com links interessantes e boa fonte de referência para iniciar pesquisas, trata dos dalits como sendo imutáveis dentro de um hinduísmo também imutável. Se por um lado isso tem fundamento, principalmente nas regiões fora do eixo das grandes cidades , marcadamente nas regiões do interior, que são a maior parte do país, por outro, é absolutamente inverídico, já que muitos dalits estão migrando para outras religiões, principalmente para o islamismo, justamente numa tentativa de fugir do sistema de castas e do hinduismo que é, de fato, altamente discriminador, na sua versão mais antiga, Brahmânica.
Aliás, é sobre o Bramanismo que o email transcrito abaixo está falando...

Essa mudança de religião traz outra complexidade em seu seio. Como pode alguém que, no hinduísmo reencarnacionista e com um karma ruim, porque nasceu como dalit... acreditar numa só vida e sair da tradição familiar de que precisa vencer seu Karma para renascer, na próxima vida, em melhores condições?
Como pode adorar e ser devoto de um homem divino que nasceu (e morreu!) por vontade do único Deus para salvar a humanidade dos seus pecados? Como pode adorar o fogo (parses de Mumbai) ou o guru-sahib, no caso do sihkismo? Como pode ter a pretensão de se iluminar e alcançar o estado búdico ainda nessa vida... sendo um intocável, uma harijan... um dalit?
Pois, ao contrário do que o texto do já citado email abaixo afirma... PODE.
PODE SIM!

E... isso está acontecendo com milhões de dalits ao longo dos últimos SÉCULOS.

Basta citar o querido guru Baba Nanak, guru fundador da religião Sihk, que, descontente com o sistema de castas e com a proliferação de deuses do Bramanismo, instituiu essa religião monoteísta, um híbrido de islamismo e hinduísmo não ortodoxo. Ele também preconizou a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres (o que não existe no Hinduísmo "fundamentalista"), a solidariedade (algo realmente impensável no seu tempo) e o amor ao Deus único.
Também daria para citar a recente conversão ao budismo tibetano, crescente na Índia desde, principalmente, o exílio do XIV Dalai Lama em Dharamsala.

Dizer que os dalits estão eternamente condenados a servidão e que não podem ascender na escalo social é igualmente inverídico. A Índia já teve um Presidente da República dalit, embora seja um país cujo sistema político é o parlamentarismo.
Os dalits também possuem representatividade no congresso e força política.
Muito, no entanto, talvez quase tudo, precisa ser feito para evitar as discriminações.

Claro que a situação de milhões, e as cifras são assim mesmo... grandes, de dalits estão em condições absurdas de miséria, pobresa e debilidade, como bem retrata o texto apresentado e os link abaixo.
ma, volto a dizer... não é só isso.

Além do mais... pegar carona no modismo da hora para detonar com uma religião é, ao meu ver, preconceituoso e discriminador. Então... podemos falar também no catolicismo, no judaísmo e no próprio islamismo.

Será que a Globo mostraria as meninas na África tendo seus hímens e clitóris mutilados? Os judeus matando islâmicos com bombas jogadas em prédios escolares pertencentes à ONU? Os muçulmanos atirando pedras e foguetes em bairros judaicos e também matando crianças?
Será que ela mostraria as mulheres no afeganistão, sob o regime taliban, vestindo burcas e as condenando ao serviço doméstico sem a possibilidade de excercerem as suas profissões e estudar?

Por que, então, mostraria a pobreza da Índia, com suas vacas sagradas comendo lixo, os corpos humanos ou não humanos boiando no sagrado Ganges... e outras misérias mais?
Ilusão.
Não passa de ilusão querer que um canal aberto de televisão como a globo faça isso.
Ponto.

A Índia que a globo não mostra não é a Índia que o texto e as imagens abaixo mostram e descrevem. Pelo menos não só...
A Índia é MUITO, mas MUITO ...mais do que isto!

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Dois, dentre muitos livros possíveis, para aprofundar o assunto:

O romance de Marc Boulet: Na pele de um intocável (Um tanto "tendencioso, já que é um olhar devras europeu para uma realidade muito indiana e hinduísta)
E o maravilhoso: Índia - Um Milhão de Motins Agora, de V.S. Naipaul.

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Pra conhecer a "Índia como ela realmente é" vá para lá, veja e leia, estude e assista filmes não tendenciosos. Se quer conhecer a Índia por novela ou por email... você não a conhecerá e terá dela só um pálida sombra... muito pálida e bem na sombra.

Para finalizar... quero dizer que uma outra Índia, que faz parte da mesma Índia complexa que estou falando, também não é mostrada pela Globo (salvo em minúsculos fragmentos... nas falas de Shankar, Lima Duarte...) a Índia que produziu tratados de conduta ética e moral... conhecimentos acerca do espírito humano... como poucos outros países chegaram a pensar em fazer.

Agora me expliquem: o que mesmo tem a Índia a ver com preconceito e racismo no Brasil?
Uma coisa anula ou diminui a outra?





Entendendo a India.
Leiam com atenção e conheçam a miséria que submetem as pessoas que nascem como dalits ( párias) . Pura invenção da religião.
A cada dia torno-me mais cética e agnóstica...
Não dá para levar a sério o ser humano.
Mas leiam, Vale a pena...
Depois dizem que no Brasil tem racismo e preconceito.... Sei!


Por volta de 850 aC teve origem na Índia o malfadado sistema de castas, embora as opiniões dos especialistas a respeito da data exata do seu estabelecimento estejam divididas. Sabe-se que surgiu com os árias, e a partir daí começou a desenvolver-se e se enraizar na cultura do país...


Um sistema que perpetua a crença na superioridade racial de determinadas "classes" de seres humanos sobre outras. - A aceitação da opressão de certas castas "nobres" sobre a maioria sofredora. - Este é o código sócio-religioso conhecido como "Sistema de Castas", fundamental no hinduísmo e que influencia toda a estrutura da sociedade na Índia. Apesar de a discriminação em função das castas, hoje, ser proibida pela constituição indiana, o sistema continua sendo observado, na prática, por mais de 80% da população do país, segundo sensos recentes.

Sua origem parece proveniente da divisão entre o imigrante ária, de pele clara, e os nativos (dasya), denominados escravos (dasas), que se distinguiam pela pele escura. Os árias são descendentes dos povos brancos de famílias indoeuropéias. As primeiras referências históricas sobre a existência de castas se encontram em um livro sagrado dos hindus, chamado Manu
, possivelmente escrito entre 600 e 250 aC. Define-se casta como grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo passa de pai para filho, endógamo, pois ele só pode casar-se com pessoas do seu próprio grupo. Estão predeterminados também sua profissão, seus hábitos alimentares, o tipo de vestuário e etc., o que leva à formação de uma sociedade estática. Em outras palavras, não há como escapar, é simplesmente impossível, a alguém que tenha nascido numa situação de vida miserável, trabalhar para melhorar essas condições. Não pode haver aspiração ao crescimento ou ao progresso, seja profissional, social ou mesmo espiritual, e nem de espécie alguma.

Trabalhadores "dalits" - os párias da sociedade hindu

O sistema subjuga as castas mais baixas, principalmente as mulheres. É comum ver mulheres e crianças, mesmo as menores, trabalhando pesado em regime de trabalhos forçados, na construção civil, em limpeza de fossas, cemitérios, curtumes e todo tipo de trabalho considerado indigno ou degradante. Tudo porque nasceram na casta errada.

Embora a palavra "casta" tenha sido introduzida pelos portugueses por volta do século XV dC, a principal característica do sistema surgiu no final do período védico. Dois termos antigos - "Varna" e "Jati" - são usados na Índia para definir o sistema de castas.

"Varna" quer dizer, literalmente "de cor". Por volta de 600 aC, este tornou-se o padrão de classificação da população na Índia. A pele clara dos arianos os distinguia dos primeiros habitantes do país, que tinham a pele escura. O "Varna" é uma divisão social hindu que divide em categorias a sociedade, sendo que originalmente eram apenas quatro: Brâmanes (sacerdotes, religiosos e nobres), os Xátrias (guerreiros), os Vaixias (camponeses e comerciantes) e os Sudras (escravos). À margem dessa estrutura social estão os "párias", os sem casta ou "intocáveis", hoje chamados "dalits", "haridchans" ou "haryans". Com o passar do tempo, tem havido centenas de subdivisões no sistema, que não param de se multiplicar.

Jati - Existem milhares de diferentes grupos Jatis em toda Índia. Nenhum destes grupos se considera como igual a qualquer outro grupo, mas todos são partes de uma hierarquia local ou regional. Estes não são organizados em qualquer sentido institucional, e tradicionalmente não havia um registro formal do status da casta. Enquanto indivíduos, acham impossível mudar de casta ou subir na escala social, mas alguns grupos por vezes tentaram ganhar reconhecimento das castas mais altas pela adoção das práticas dos Brâmanes, como o vegetarianismo. Muitos costumam ser identificados com atividades particulares e as ocupações costumam ser hereditárias.

Os "párias" ou "dalits" ('sem casta'), são totalmente relegados para fora da sofisticada sociedade hindu, chamados cruelmente de "intocáveis" porque não devem jamais ser tocados pelos membros das castas (isso os contaminaria). Recebem apenas os serviços considerados impuros ou imundos, geralmente associados com os mortos (humanos ou animais) ou com excrementos. Só lhes é permitido lidar com o lixo, com o esgoto, com amontoados de cadáveres e outros empregos que lhe mantém em constante contato com aquilo que o resto da sociedade indiana considera nojento e desagradável. Mas não são apenas as suas ocupações que são consideradas como coisas nojentas e que não devem ser feitas por alguém: os próprios párias são considerados individualmente sujos, e assim não podem manter contato físico com os "limpos" nem com as partes "puras" da sociedade. Vivem isolados. Ninguém pode interferir na sua vida social, pois os intocáveis são os últimos dos últimos, considerados menos que humanos.

O membro de uma casta é definido simplesmente pelo nascimento. A crença ferrenha na reencarnação faz com que os hindus acreditem que os méritos conquistados nas vidas passadas é que determinam a casta em que o indivíduo nasce, por isso não há nenhum problema em se agir de acordo com o que consideram a "justiça divina". Não há perdão, não há crescimento espiritual possível nesta vida. Desobediência às regras das castas, tais como a recusa a um casamento arranjado, fazem com que o indivíduo seja desligado da casta em que nasceu. E como ele não pode, em hipótese alguma, fazer parte de uma outra casta, tecnicamente essa pessoa se torna um "sem casta" ou "pária", que, como visto, é o pior destino imaginável para qualquer cidadão indiano. Em muitos lugares, principalmente no interior, isto pode significar que essa pessoa não poderá continuar a trabalhar e a conviver em sociedade, mas se tornará para o resto da vida uma espécie de lixo humano que é impiedosamente desprezado por todos, de religiosos a agnósticos.

A luta de Gandhi após a independência da Índia; a pressão exercida pela ONU e por inúmeros órgãos humanitários internacionais, as muitas leis que foram criadas como tentativas de eliminar ou ao menos amenizar a desumanidade do sistema de castas (ilegal desde 1947), tudo foi inútil diante da tradição firmemente arraigada por milênios, e o sistema subsiste. O sistema de castas é uma das bases do hinduísmo. - A religião se torna, então, um poderoso elemento social disciplinador e apaziguador: resignação é a palavra-chave na postura moral do indivíduo hindu.

Para os intocáveis, só é permitido usar as roupas que acham nos corpos dos mortos. Nas suas casas, comem de louças quebradas. Eles sofrem restrições sociais extremas. Não podem rezar no mesmo templo, não podem beber da mesma corrente de água, porque poderiam polui-la. Nenhum intocável pode entrar no templo se houver a presença de alguém de uma casta superior - como os sacerdotes do templo, a casta mais elevada, nunca estão fora, os intocáveis na prática são barrados de entrar em templos ou outros lugares onde se pratica religião.

Para se ter uma idéia da gravidade da situação, quando os tsunamis de Dezembro de 2004 tragaram a costa do Estado indiano de Tamil Nadu, imaginava-se que a tragédia e a morte agiriam como niveladoras sociais. Mas os esforços de reabilitação e o envio de ajuda econômica não conseguiram superar a discriminação sócio-racial que impera na Índia. As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperaram ansiosos a ajuda do governo e de agências humanitárias para poderem reconstruir suas vidas, mas os intocáveis não receberam nada por parte das autoridades locais! Oficialmente, dez mil pessoas morreram, por absoluta falta de cuidados, nessa ocasião, e ninguém na Índia considerou isso chocante. "Não existe nenhum caminho até nossa aldeia. Ninguém vem nem procura vir aqui", relatou um "intocável" de um distrito de Tamil Nadu à agência de notícias internacional Interpress - MW Global
, na época. Saiba mais a respeito aqui.

Recentemente, em Junho de 2006, um repórter da revista Capricho publicou uma entrevista com um intocável. O entrevistado revelou que seu irmão, por ter invadido o quintal de um vizinho de casta Vaixia, foi castigado sendo amarrado numa árvore junto com seu pai: depois de uma tremenda surra, toda sua família foi obrigada a assistir enquanto o jovem era lentamente devorado por formigas selvagens.

"Paul Raj passou 21 anos sem ser abraçado por ninguém – nem pela própria família – pela simples razão de ter nascido numa casta que, na Índia, representa a escória da sociedade. Quando ele tinha 8 anos, encontrou seu irmão amarrado a uma árvore, com as pernas cobertas de formigas vermelhas. O garoto estava sendo punido por ter entrado no jardim de um vizinho. Paul estava com o pai, que se ajoelhou e, chorando, começou a pedir clemência. A reação do dono da casa foi bater no pai e manter o castigo.

'A esposa do dono jogava açúcar na perna dele para atrair mais formigas e os filhos dela ficavam rindo em volta. Ficamos ali parados, vendo meu irmão ser comido vivo, sem fazer nada'. A cada 6 meses, ele conseguia encontrar seu pai por meia hora, e escondido. (...) Mas o dia mais emocionante da temporada de Paul em Londres foi quando a chefe do programa de estágio o abraçou. Foi o primeiro abraço que Paul recebeu na vida, e logo de alguém que nem era da sua família (ele e sua noiva Shilpa, por exemplo, apesar de estarem juntos há 6 anos, nunca se beijaram, nem na bochecha). "Quando percebi que estava sendo abraçado, não queria mais largar. Acabei caindo no choro.' - declarou o rapaz...".
- Revista Capricho (Junho/2006)

Isso foi há pouco mais de um ano! Não estamos falando de ocorrências de três mil anos atrás, mas de coisas que acontecem no presente, hoje, agora.

Alguns dados oficiais*:

# A cada dia, três mulheres dalits são estrupadas (uma parte é depois queimada até a morte, como se a culpa pelo estupro fosse dela mesma);

# A cada hora, em média, duas casas de dalits são queimadas;

# A cada hora, dois dalits são assaltados;

# 60 milhões de Dalits são explorados através de trabalhos forçados.

# 66% dos dalits são analfabetos;

# A taxa de mortalidade infantil dos dalits é perto de 10%;

# 57% das crianças dalits de menos de quatro anos de idade estão muito abaixo do peso;

# Na Índia de hoje existem 300 milhões de dalits;

* Fonte: Organização Internacional Dalit Awakaning
.

As estimativas atuais apontam que existem em torno de 6.400 castas(!) na Índia de hoje. Cada uma funciona como um grupo separado em função das altas barreiras sociais. Percentualmente, as castas na Índia se classificam da seguinte forma: 1) Castas altas = 15,4% (brâmanes, casta sacerdotal); 2) Castas atrasadas = 56,6%; 3) Dalits = 18,1%; 4) Tribais ou Advasi = 9,5% (tribos suplementares que algumas vezes não são considerados parte da estrutura de castas, mas geralmente são influenciados pelo pensamento de casta); 5) Outros = 0,4% (não são considerados parte do sistema de castas - entre estes estão os cristãos sírios e os refugiados Afegãos, iranianos e outros).

Protesto recente de mulheres da Índia contra o sistema de castas

Concretamente, o Estado da Índia ainda se recusa a tomar providências para deter, na prática, com ações efetivas e punição aos frequentes crimes bárbaros e excessos cometidos, a observância do sistema de castas pela sua sociedade.

"Girdharilal Maurya (dalit de uma aldeia próxima) acumula pecados. Tem um mau karma: por que outra razão teria nascido numa casta intocável se não fosse para pagar pelas vidas passadas? Reparem, ele é um curtidor de peles: segundo o direito hindu, os trabalhadores dos curtumes tornam-se impuros, e as outras pessoas devem evitá-los e ultrajá-los. A sua indecorosa prosperidade é um pecado. Quem este intocável pensa que é para comprar um pequeno lote de terreno nos arredores da aldeia? Ainda por cima, atreveu-se a reclamar junto da polícia e das outras autoridades, exigindo servir-se do novo poço. Teve o que merecem os intocáveis: uma noite, quando Girdharilal saiu da cidade, 8 homens da casta superior 'rajput' foram à sua casa, derrubaram as vedações, roubaram o trator, espancaram a mulher e a filha e queimaram a casa." - Depoimento de um cidadão indiano para a National Geographic. Saiba mais aqui
.

Girdharilal após ter recebido o castigo por ter se atrevido a comprar um pequeno lote de terra

* * *

No "Sistema de Castas" não há compaixão, não há possibilidade de ascensão social nem melhora para o ser humano enquanto indivíduo, de espécie alguma. Não há amor ao próximo, se esse próximo pertencer a uma casta inferior ou se for um "intocável". Acredita-se piamente que os sofredores estejam naquela situação porque merecem aquilo. Além disso, crê-se que eles mesmos terão a oportunidade de conquistar melhores condições numa próxima vida, desde que cumpram bem o seu papel na vida presente. - Em outras palavras, se forem subservientes e aceitarem se submeter a todo tipo de humilhação e sofrimento infligido, sem soltar nenhum gemido. Se aceitarem ver suas filhas sendo estupradas e queimadas vivas. Se aceitarem tudo e se comportarem bem, como bons sacos de lixo que devem ser.

Mas o mais triste é que os próprios oprimidos, em sua grande maioria, também acreditam no sistema, e assim, no geral, preferem se submeter a tudo. Um excelente exemplo de como um sitema de crenças equivocado é capaz de levar seres humanos e nações inteiras a comportamentos insanos, à tirania e e à crueldade extrema.





O segundo desses emails, abaixo, tem fotos e os comentários que as antecedem. Nota-se a tendência "podre" ..."dalitina" na própria descrição do que está por vir... confira.
Querer combater o que julga preconceito usando os mesmos artifícios ...

Cenas chocantes, mas sem maquiagens "globais"... -O que a Globo não mostrou na novela das 21:00h...

Imagine a Juliana Paes, a Vera Fischer ou o Toni Ramos passeando na sujeira do Rio Ganges,
pulando entre um cadáver "podrão" ou outro, ou se lavando nas suas escadarias.


Depois, na volta para casa, imagine eles espantando os urubus que estiverem comendo uma carcaça de vaca em decomposição, ou insistindo em pousar naquelas roupas lindas (que a Globo mostra)...

Preste bem atenção: não há sequer uma pessoa (nas figuras aqui mostradas) com aparência saudável; com aparência de gente que come RAZOAVELMENTE bem.

São moradores da miséria, ainda descendentes da exploração britânica.
Como vê, a Índia também tem disso!

Comentários em verde... todos meus
O que está em vermelho... é dos originais


Cena comum de uma rua super-populosa e povoada de uma cidade na ásia. Não vejo nada de mais e nem sequer vejo famintos com aparência de que não comem... razoavelmente bem.
Estão sendo comparados com quem mesmo?


Uma mulher, possivelmente dalit ou de alguma das castas de empregados amontoando "bolinhos de excrementos" de vacas e bois para secar ao sol para, depois serem usados como combústivel para os fogões e para aquecer as casas e residências... muito ecológico...
Aqui no Brasil e no resto do mundo ocidental... derrubamos àrvores para fazer lenha...


Animais comendo restos de lixo. Aqui no Brasil não tem isso? Alguém nunca viu?



Local de cremação dos mortos. É um aspecto da religião... polui o rio. Aqui enterramos... polui a terra.
O cheiro é absurdamente horrendo, mas ...



No mesmo sagrado rio em que os mortos são cremados... toma-se banho, faz-se a higiene ((defecação e ... xixi... rsrsrs)


Vaca morta boiando no rio... chocante sim... e...? que mais? Aqui matamos as vacas para comer.. e aplicamos choque elétrico nelas para caminharem mais rápido no matadouro. Lá, elas morrem de morte natural SEMPRE!
Mas, na Índia, carneiros e ovelhas são, eventualmente, mortops a pauladas e pedradas... um horror. São considerados inferiores... já no Budismo Tibetano... podem ser a reencarnação de algum amigo ou parente... assim como no jainísmo.



Um corpo humano boiando antes de cremação que, por algum motivo, não aconteceu.



Na Índia o sagrado e o profano habitam o mesmo espaço e até mesmo o mesmo território. Eles são complementares e indissociáveis.


Acima e abaixo, corpos para serem cremados: É como se vissemos um carro fúnebre passando... kkkkkkkkk




A Índia pode ser romanceada, tanto na sua riquesa quanto na sua pobreza. Ambas são irreais quando tomadas como absolutos.
Os dois emails e essas imagens mostram a segunda das opções acima. A novela global, mostra a primeira.

Eu, "debilmente", tento mostrar que existe uma terceira via... a da complexidade... que refuta reducionismos e simplificações estéreis.
A índia é linda, maravilhosa, chocante, riquíssima e paupérrima e horrenda.
É cor, sonho e realidade fundidos.
É assalto olfativo, visual, cultural... da subjetividade... invasão e sutileza...
É poder atômico e subserviniência.
É espiritualidade, religião e supertição em "demasia"... e com muitos contraste.
É vida... e morte, sem rodeios e dissimulações.
É arte: cinema, dança, filosofia, poesia... e mais... arte!
É "tudo de bom", apesar dos pesares.
É multi-tudo: devires voam por lá...




2 comentários:

MENINA disse...

Índia é tudo no todo.. e todo no tudo!
Um lugar onde encontramos paz,religião, respeito e tradição..onde encontramos música, livros, cinema e cultura..a Índia talvez seja o país no mundo mais diversificado,complexo e ao mesmo tempo tão simples e humanitário que existe.Entender a Índia é como amar sem explicação o outro,sem muita lição e controvérsias..apenas SENTIR!

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Isso que você tão bem enuncia Menina, na minha opinião... é o encantamento dos desavisados.
Definitivamente não considero a minha amada Índia um país humanitário. Lá os direitos humanos são selvagemente desrespeitados: espancam pessoas, agridem verbalmente e são cruéis com alguns animais.
São muito dicriminadores...
Mas, como você bem disse... na Índia há condições propícias para se sentir a paz, entrar em sintonia com esse sentimento... dada a espiritualidade reinante...
Para nós ocidentais é espiritualidade... para os indianos... é religião. Há diferenças...
Como tudo que se refere a esse país interessantíssimo... nada dá para generalizar... e fica "tudo" meio relativo.
Agora, mas uma vez você enuncia bem: na Índiia, quando se está lá... se sente, SENTE muitas coisas ...