28 fevereiro, 2009

Estresse, stress... no stress e Yes stress



Na sociedade de consumo hiper-veloz e de desejo de aparência-imagem em que vivemos, há convite para se estressar o tempo todo, então... "no stress". Bem simples assim!

Por que se encucar e se incomodar?

"Eu não me estresso" é a expressão do momento - que vem se mantendo no tempo faz alguns anos - e pode ser ouvida até em propaganda de shampoo!

Assim como "depressão", "distúrbio bipolar" (ou transtorno afetivo bipolar), "síndrome do pânico" são palavras usuais e diagnósticos feitos por muitos profissionais da área psi e fora dela, diagnósticos esses que as pessoas que os "detém" vestem como incomodas mas vistosas roupas colantes, a palavra estresse designa uma série de comportamentos, atitudes e sentimentos que também aderem às personalidades dos mortais comuns e incomuns: não sofrer e não mexer são os "incômodos" evitados. Tudo isso para não mudar e não se conhecer intima e complexamente como ser humano-político-espiritual-social histórica-economica e subjetivamente formado...

Deixar-se afetar por mal-estares que se engendram e se produzem no cotidiano é tão saudável para a vida psíquica como é para a cidadania.

Optar pelo que se entra, para discutir, e o que.. não se entra ... nem sempre é claro e fácil, embora possível. Fronteiras a serem descobertas e experimentadas na prática

Um delicado equilíbrio aparece quando se consegue experimentar "no stress"
e "YES" stress.

Yes stress, ou sim ao estresse, pode ser uma grande ferramenta para buscar discernibilidade e diferença: lucidez e autoconhecimento.




- Mestre, por que as pessoas falam tanto em não se estressar?
Por que o estresse é tão mal vindo?

- Quem pergunta já tem elementos para a resposta.

- Sem artimanhas Mestre, responda-me!

- (rizadas) Você está pouco humorado, pouco... bem humorado...
E também está apressado para um tema tão... indigesto... (risos).
Mas eu entendo sua questão.
Isso está causando aflição na sua "Lucidez Perigosa" e na sua Perigoza Lucidez"."
Artimanhas ou anti-manhas?
(risos)



- Eu quero saber a SUA opinião.

- Você a terá, mas antes, diga-me o que sabe.

- As pessoas não querem se incomodar, têm medo;
e evitam o mal-estar que uma situação estressante
pode causar. É uma atitude defensiva.
Na cabeça delas, evitar o estresse significa evitar
o confronto e... aborrecimentos dele decorrentes.
Na verdade, não querem sofrer!

- Exatamente. Quando se tem essa visão do estresse,
paga-se um preço alto para
"ficar-estressado-para-não-ficar-estressado".
É mesmo uma atitude defensiva e na moda.
Os slogans de "no stress" estão por tudo e vão
produzindo seres conformes, conformados, e neuróticos
disfarçados de conscientes, tranquilos, pacificos
e respeitosos. Uma grande piada, sem graça.
Mas, estressar-se... pode ser uma fraqueza e
uma sabedoria.



- Você e a sua dialógica.

- (risos)... Sim, fraqueza porque evitar
o confronto e assumir direitos e opiniões
divergentes dá trabalho; mais fácil é concordar
e se submeter à ordem vigente...
ou negar: "isso não está acontecendo"!
Sabedoria porque
é preciso distinguir a boa da má batalha,
aquillo pelo que
vale e pelo que não vale lutar.

- A maioria das pessoas escolhe
a primeira das opções.

- Claro, as pessoas comuns escolhem
coisas comuns, ordinárias... e se deixam
levar pela maioria, pela regra geral. Isso
se dá porque elas não possuem ferramentas
para operar com situações que geram o tal
"stress"...
Na verdade, esse termo é muito genérico
e imbecilizante porque designa muitas coisas que
são diferentes por
um mesmo e único viés.



Assim, estar irritado ou se irritar com algo,
é estar estressado; discordar minimamente
com o que está posto como óbvio e
naturalizado (porque sempre foi assim),
é estar estressado; sentir-se triste ou
desconfortável com algo que aconteceu,
é estar estressado; sentir medo de
situações realmente plausíveis e
COMUNICAR esse medo, é estar estressado;
mostrar-se inconforme com as invasões bárbaras
(de barbárie) que ocorrem diariamente nas
relações de dominância na conjugalidade e
nas relações interpessoais como um todo, é
estar estressado; sustentar um não, quando
tudo e todo o entorno seduz para que
se diga sim, é estar estressado; e,
assim por diante.
É nojento.
I say yes to stress!!!

- É que as pessoas querem se sentir bem;
querem estar em paz e harmonia.



-Claro, mas esquecem que paz não é sinônimo de ausência
de conflito; assim como esquecem que a harmonia
intimamente sentida não decorre da negação e da submissão
aos conflitos, pelo contrário, até AUMENTA O MAL ESTAR,
mas que ela é um estado que vem acompanhado da
tranquila certeza de que se fez o que a consciência mais
elevada que temos nos ensinou... e levou a fazer
naquele momento.
Paz e harmonia não são estados do ser, identidades prontas
que se pode copiar como num xerox e reproduzir em todos
os lugares. Elas são conquistas frágeis, imensas e incertas...
sempre...

- Sempre lembrando que incerteza não é sinônimo
de insegurança! (risos)

- Sim! (risos)... você vai ser um ótimo mago!

(De conversas informais com o Mago-Mor)

(Foto: Rarindra Prakarsa)


2 comentários:

Cerikky.. Cesar Ricardo Koefender disse...

Claro, faltou falar sobre a hiperatividade e o Déficit de Atenção, essas... também ... doenças da moda!
Cada época histórica, conforme já nos ensinaram Freud, Foucault, Pichon-Rivière, Deleuze e Guattari, só para citar alguns, produz suas doenças e sofrimentos.

À época de Freud havia profusão de neurose histérica e obcessivo-compulsiva: um período de forte e severa repressão sexual. Psicoses e alucinações, bem como delírios de todos os tipos, mas com ênfase nos de ordem persecutória também eram frequentes... até pouco tempo.
Atualmente, com a velocidade dos acontecimentos e das comunicações, os sujeitos sem pausa e sem tempo, desenvolvem as já citadas.
Desde Pichon-Rivière sabemos do papel do bode expiatório nos grupos humanos e do funcionamento familiar enlouquecedor, aquele que produz sofrimento psíquico numa tentativa de manter de pé laços, afetos e controles que já não tem mais lugar e nem espaço naquela configuração vincular.

Desde essa perspectiva... é claro que pais apressados, estressados (nas batalhas que nem sempre valem à pena.. ou seja, envolvidos no que o mago-mor chamou de "má batalha"), vivendo num ritmo frenético e praticamente sem diálogo e, com o estímulo do neoliberalismo ao individualismo personificado... é bastante evidente que as crianças desenvolvam "esses sintomas"...

...sintomas esses, que, na verdade, são sintomas dessa familia inteira e dos grupos sociais que nossa época produz.

Katia disse...

Verdade verdadeira!!!
Nos seus textos encontro o lado claro dos meus escuros.
Consigo esculpir meus pensamentos...
Entro em contato com minhas ideias mais profundas...
Após essa leitura percebi que, de uma maneira muito minha, abuso de ambos:
'No stress' quando pressinto minha alma entrar em coma.
É o meu desaceleramento necessário.
'Yes stress' na ginática para o meu realinhamento emocional.

Kátia